Uma espécie de braço de ferro entre o receio e a esperança
Dow Jones perdeu 0,18% e S&P500 recuou 0,15%, mas Nasdaq ganhou 0,13% numa sessão volátil. Vendas retalhistas e atividade industrial superaram expectativas, mas receios com pandemia mantêm investidores cautelosos.
- Dow Jones perdeu 0,18% para 34.751,32 pontos
- S&P 500 recuou 0,15% para 4.473,75 unidades
- Nasdaq avançou 0,13% para 15.181,92 pontos
- Vendas retalhistas subiram 0,7% em agosto, acima das expectativas
- Índice de atividade industrial de Filadélfia ganhou 11 pontos para 30,7
Wall Street encerrou dividida com o Dow Jones e S&P500 em queda ligeira, enquanto o Nasdaq avançou, refletindo tensão entre preocupações com a variante delta e indicadores económicos positivos.
Wall Street terminou a sessão de quinta-feira num estado de equilíbrio precário, com os ganhos e perdas distribuídos de forma desigual entre os principais índices. O Dow Jones Industrial Average cedeu 0,18%, fechando em 34.751,32 pontos, enquanto o S&P 500 recuou 0,15% para 4.473,75 unidades. O Nasdaq, porém, subiu 0,13% até aos 15.181,92 pontos, criando um quadro que refletia a incerteza que dominou o pregão.
A tensão que marcou o dia nasceu de uma contradição fundamental. Os investidores enfrentavam duas narrativas concorrentes: de um lado, o receio persistente da variante delta do coronavírus e o seu potencial impacto na atividade económica; do outro, uma série de indicadores que sugeriam força subjacente na economia norte-americana. Art Hogan, analista da National Securities Corporation, descreveu a sessão com uma pitada de ironia como "interessante", capturando a natureza paradoxal do pregão. Os índices passaram a maior parte do dia em terreno negativo, acumulando perdas, antes de recuperarem grande parte do terreno perdido nos momentos finais da negociação.
Os dados económicos que chegaram durante a sessão não deixavam margem para dúvida quanto à sua solidez. As vendas do comércio retalhista em agosto superaram as expectativas dos analistas, registando um aumento de 0,7% quando a maioria previa uma contração. Simultaneamente, a atividade industrial na região de Filadélfia acelerou em setembro, com o índice a ganhar 11 pontos e a atingir 30,7, surpreendendo novamente os especialistas que esperavam uma estabilização.
Hogan resumiu o dilema que os mercados enfrentavam numa pergunta direta: deveriam os investidores dar crédito à inquietação provocada pelo arrefecimento económico associado à pandemia, ou deveriam confiar nas estatísticas dos últimos dois dias que apontavam para uma melhoria da atividade económica e, consequentemente, para lucros empresariais mais robustos no segundo semestre? A resposta não era óbvia, e o mercado refletiu essa ambiguidade ao terminar "nem no mais alto nem no mais baixo", como descreveu Hogan, numa espécie de braço de ferro entre otimismo e cautela.
A volatilidade foi amplificada por fatores técnicos. As inscrições semanais no desemprego subiram, mas este movimento deveu-se principalmente ao registo atrasado de inscrições do final de agosto, que não tinha sido processado devido ao furacão Ida que atingiu a Luisiana. Além disso, a sessão coincidiu com o que é conhecido no mercado como a semana das "quatro bruxas", quando expiram vários contratos de futuros e opções, levando a reposicionamentos de carteiras que frequentemente provocam movimentos atípicos e amplificam a volatilidade.
O que emergiu do pregão foi um mercado em suspensão, incapaz de escolher uma direção clara. Os ganhos económicos concretos não foram suficientes para superar o receio abstrato da pandemia, mas também não foram ignorados. O resultado foi um dia que deixou as questões fundamentais em aberto: será que a economia consegue manter o seu ritmo apesar da variante delta, ou estão os investidores a subestimar os riscos à frente?
Citações Notáveis
Devemos acreditar na inquietação que nos assalta, por causa do arrefecimento económico causado pelo novo coronavírus, ou devemos acreditar das estatísticas que indicam uma melhoria da atividade económica?— Art Hogan, National Securities Corporation
Terminámos o dia nem no mais alto nem no mais baixo: isto indica que estamos perante uma espécie de braço de ferro— Art Hogan, National Securities Corporation
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como é que um mercado consegue estar em queda e em alta ao mesmo tempo?
Não está realmente em ambas. O Nasdaq subiu enquanto o Dow e o S&P caíram, o que significa que diferentes setores e investidores estavam a fazer apostas diferentes sobre o mesmo futuro.
Mas o que explica essa divisão? Porque é que o Nasdaq se comportou de forma diferente?
O Nasdaq é mais pesado em tecnologia, e os investidores em tech talvez estejam menos preocupados com a variante delta do que os investidores tradicionais. Ou talvez vejam os dados económicos positivos como sinais de que as empresas de tech vão lucrar mais.
Os dados económicos eram realmente tão bons quanto pareciam?
Sim, eram. As vendas retalhistas subiram quando se esperava uma queda, e a atividade industrial acelerou. Mas o mercado não conseguiu acreditar completamente neles, porque há este receio de fundo sobre o que a variante delta vai fazer.
Então o mercado está a dizer que não confia nos dados?
Não exatamente. Está a dizer que não sabe qual das duas histórias é a verdadeira. Os dados dizem que a economia está bem. O medo diz que a pandemia vai estragar tudo. E ninguém sabe qual vai vencer.
E a semana das "quatro bruxas" complicou as coisas?
Complicou, sim. Quando os contratos expiram, os investidores têm de reposicionar as suas carteiras, e isso cria movimentos que não têm nada a ver com o que as pessoas realmente pensam sobre a economia. É ruído técnico por cima da incerteza fundamental.
Então o que devemos esperar a seguir?
O mercado está à espera de clareza. Ou a variante delta começa a afetar os lucros das empresas de forma visível, ou os dados económicos continuam a ser fortes e o receio desaparece. Até lá, vamos ter mais dias como este.