Um terço do tempo no celular é gasto sem propósito, aponta pesquisa

Somos prejudicados pela natureza imersiva da tecnologia
Pesquisadora de Cambridge explica por que controlar o tempo de tela é mais difícil do que simplesmente fazer melhores escolhas.

Em um tempo em que a atenção humana se tornou moeda de troca, uma pesquisa britânica coloca em números o que muitos já sentiam: mais de um terço das quatro horas diárias que adultos passam com o celular ocorre sem nenhuma intenção consciente. O relatório 'Age of Autopilot', encomendado pela Virgin Media O2, não acusa apenas o usuário — aponta para sistemas projetados para capturar e reter a atenção como parte estrutural do problema. Reconhecer o piloto automático digital pode ser, segundo especialistas, o primeiro gesto genuinamente humano de retomada do próprio tempo.

  • Adultos no Reino Unido passam em média quatro horas diárias no celular, e 36% desse tempo acontece sem nenhum objetivo definido — uma hora e meia por dia consumida em rolagem sem destino.
  • Quem passa mais tempo sem propósito claro relata com mais frequência experiências negativas: sentir-se pior após o uso, encontrar conteúdos prejudiciais ou simplesmente sair da experiência sem nenhum ganho.
  • Pesquisadores alertam que o problema não é apenas falta de disciplina individual — aplicativos, notificações ativadas por padrão e algoritmos são projetados para manter o usuário preso, tornando a saída um ato de resistência ativa.
  • Apesar de conhecerem ferramentas de controle de tempo de tela, muitas pessoas relatam dificuldade em encontrar motivação para usá-las, revelando um fosso entre consciência e mudança de comportamento.
  • Especialistas sugerem desativar notificações não essenciais e equilibrar o tempo digital com atividades desconectadas como caminhos concretos para recuperar a agência sobre a própria atenção.

Você pega o celular para checar uma mensagem e, uma hora depois, não sabe exatamente o que aconteceu. Uma pesquisa encomendada pela operadora britânica Virgin Media O2 decidiu medir exatamente isso: adultos no Reino Unido passam em média quatro horas por dia com o celular, e 36% desse tempo ocorre sem qualquer propósito definido — não é para enviar mensagens ou consultar mapas, é simplesmente rolar a tela de aplicativo em aplicativo, sem intenção deliberada.

No Brasil, o cenário é ainda mais intenso: dados da consultoria DataReportal de 2026 apontam para mais de 53 horas semanais em dispositivos conectados. A pesquisadora Eleanor Drage, de Cambridge, argumenta que não se trata de escolhas imprudentes individuais, mas da natureza imersiva da própria tecnologia — algoritmos, notificações automáticas e interfaces projetadas para manter o usuário preso.

O professor Pete Etchells, da Universidade Bath Spa, pondera que estimativas autodeclaradas de uso tendem a ser exageradas, mas reconhece o valor do relatório: ele sugere que as pessoas estão se tornando mais conscientes de seus hábitos, e essa consciência é um primeiro passo essencial. Netta Weinstein, da Universidade de Reading, adverte contra julgamentos apressados — para algumas pessoas, rolar a tela pode oferecer relaxamento genuíno. A questão central é se a pessoa sai da experiência renovada ou simplesmente mais vazia.

O relatório também revelou que muitos conhecem as ferramentas de controle de tempo de tela, mas têm dificuldade em se motivar para usá-las. Para os especialistas, parte da solução passa por pressionar empresas de tecnologia a repensarem o design — especialmente as notificações ativadas por padrão. Desconectar-se de aplicativos não essenciais e investir em atividades fora do mundo digital são gestos simples, mas que exigem esforço consciente contra sistemas construídos exatamente para nos manter imersos.

Você pega o celular para checar uma mensagem. Passa uma hora. Você não sabe exatamente como isso aconteceu.

Esse cenário é tão comum que uma pesquisa encomendada pela operadora Virgin Media O2 decidiu quantificá-lo. O resultado é perturbador em sua precisão: adultos no Reino Unido passam em média quatro horas por dia com o celular na mão, e mais de um terço desse tempo — 36% — ocorre sem qualquer propósito claro. Não é tempo gasto enviando mensagens, consultando mapas ou verificando a previsão do tempo. É tempo gasto rolando a tela, alternando entre aplicativos, consumindo conteúdo sem intenção deliberada.

No Brasil, os números são ainda mais altos. Segundo dados da consultoria DataReportal de 2026, as pessoas passam em média 53 horas e 30 minutos por semana em dispositivos conectados à internet. Essa quantidade massiva de tempo levanta uma questão incômoda: quanto dele é realmente escolha nossa?

Eleanor Drage, pesquisadora sênior da Universidade de Cambridge, oferece uma resposta que desconforta. Não se trata simplesmente de pessoas fazendo escolhas imprudentes, ela afirma. Somos prejudicados pela natureza imersiva da própria tecnologia — pelos aplicativos projetados para nos manter presos, pelas notificações que chegam por padrão, pelos algoritmos que sabem exatamente o que nos fará rolar mais uma vez. O relatório intitulado "Age of Autopilot" reuniu dados de três pesquisas realizadas entre 2024 e 2026, com a mais recente ouvindo cerca de seis mil pessoas com 16 anos ou mais sobre sua relação com a tela.

Mas há uma ressalva importante. Pete Etchells, professor de psicologia e comunicação científica da Universidade Bath Spa, aponta que depender de pessoas para relatar seu próprio uso de celular é metodologicamente frágil. Estudos mostram que as estimativas autodeclaradas costumam ser exageradas quando comparadas a medições objetivas. Ainda assim, Etchells reconhece que o relatório tem valor: sugere que as pessoas estão ficando mais conscientes de seus hábitos, e essa consciência é um primeiro passo essencial para mudança.

O que torna essa consciência ainda mais importante é o que a pesquisa revelou sobre as consequências. Aqueles que afirmaram passar mais tempo no celular sem motivo claro também tinham maior probabilidade de relatar experiências negativas — se sentir pior depois do uso, encontrar conteúdos prejudiciais ou desagradáveis. A rolagem sem propósito não é inócua. Mas também não é universalmente prejudicial. Netta Weinstein, da Universidade de Reading, adverte contra o julgamento excessivo. Para algumas pessoas, rolar a tela pode proporcionar relaxamento, distração, humor ou conexão social. A questão real, ela sugere, é se isso realmente nos deixa renovados ou se simplesmente saímos da experiência sem nos sentirmos melhor e, às vezes, até pior.

O relatório da Virgin Media O2 também descobriu algo revelador: muitas pessoas conhecem ferramentas para controlar o tempo de tela, mas têm dificuldade para encontrar motivação para usá-las. Apesar da crescente conscientização sobre os efeitos negativos do uso excessivo, as pessoas têm dificuldade para gerenciar com sucesso o tempo que passam online. Isso aponta para um problema que vai além da educação ou da vontade individual.

Os especialistas sugerem que parte da solução está em pressionar as empresas de tecnologia sobre design. Etchells gostaria de ver mais pressão sobre notificações — o fato de elas geralmente virem ativadas por padrão não é uma escolha de design feita pensando em nós, ele observa. Rafe Clayton, professor sênior de mídia e comunicação da Universidade de Leeds, sugere que desativar notificações de todos os aplicativos, exceto os essenciais, pode ser uma forma de recuperar o controle. Passar mais tempo envolvido em atividades que não estejam conectadas ao mundo digital também ajuda. Mas a verdade é que essa recuperação de controle exige esforço consciente contra sistemas projetados para nos manter imersos.

Não se trata apenas de pessoas fazendo escolhas imprudentes, mas de que somos prejudicados pela natureza imersiva da tecnologia
— Eleanor Drage, pesquisadora sênior da Universidade de Cambridge
Ser capaz de perceber quando você está usando o celular sem querer ou sem necessidade é um primeiro passo muito importante
— Pete Etchells, professor de psicologia da Universidade Bath Spa
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que 36% é um número tão significativo? Parece muito, mas também parece que as pessoas sabem disso.

Model

Sabem, mas saber não é o mesmo que conseguir mudar. O número é significativo porque representa quase duas horas de um dia inteiro — tempo que você não consegue explicar depois. É o tempo que desaparece.

Inventor

Os especialistas mencionam que as pessoas exageram ao relatar seu próprio uso. Então como sabemos se 36% é realmente preciso?

Model

Não sabemos com certeza. Mas o ponto não é a precisão absoluta. É que as pessoas estão começando a reconhecer que algo está acontecendo. Essa consciência é o primeiro passo.

Inventor

Você mencionou que rolar a tela pode ser relaxante para algumas pessoas. Então qual é o problema real?

Model

O problema é quando você sai dessa experiência se sentindo pior, ou quando encontra conteúdo prejudicial, ou quando isso interfere em coisas importantes. Não é a atividade em si — é o que ela faz com você depois.

Inventor

Por que as notificações são tão importantes nessa conversa?

Model

Porque elas são a alavanca. Vêm ativadas por padrão, puxam sua atenção constantemente, e você nem escolheu isso. É design pensado para nos manter presos, não para nos servir.

Inventor

Se as pessoas conhecem ferramentas para controlar o tempo de tela, por que não as usam?

Model

Porque é difícil lutar contra algo que foi projetado para ser irresistível. Conhecer a ferramenta não é o mesmo que ter motivação para usá-la quando o aplicativo está ali, esperando por você.

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