Colômbia atinge mínima de desemprego após reduzir jornada para 42 horas

Trabalhar menos é uma tendência à qual não podemos nos opor
Economista colombiano reflete sobre o que as experiências da região revelam sobre o futuro do trabalho.

Em um movimento que começou sob um governo de direita e atravessou mandatos, a Colômbia conclui em julho de 2026 uma redução de seis horas na jornada semanal de trabalho — de 48 para 42 horas —, chegando ao fim dessa transição com o desemprego próximo às mínimas históricas do país. A experiência colombiana, somada à chilena, sugere que a humanidade está reescrevendo lentamente o contrato entre tempo e trabalho, e que as empresas, quando dadas condições e prazo, encontram caminhos de adaptação. Enquanto isso, o Brasil permanece no limiar desse debate, observando vizinhos que já atravessaram a fronteira.

  • A partir de 15 de julho de 2026, a Colômbia oficializa a jornada máxima de 42 horas semanais, encerrando cinco anos de transição gradual iniciada em 2021 — sem colapso econômico nem onda de demissões.
  • A pressão sobre as empresas foi real: além da redução de horas, uma reforma trabalhista de 2025 elevou o salário mínimo em 23,7% e ampliou o adicional noturno, forçando automação e reorganização de processos.
  • Para absorver a perda de horas sem perder produção, empresas colombianas criaram cerca de 787 mil postos de trabalho entre 2022 e 2025 — uma adaptação pragmática, não filantrópica.
  • O Chile reforça o padrão: sua primeira redução de jornada, em 2005, não gerou efeitos significativos sobre emprego, e o país já caminha para as 40 horas semanais até 2028.
  • O Brasil debate reduzir de 44 para 40 horas e eliminar a escala 6×1, mas ainda não avançou — enquanto a tendência global se consolida ao seu redor.

A Colômbia está prestes a fechar um ciclo. No dia 15 de julho de 2026, entra em vigor a etapa final de uma lei aprovada em 2021 que reduziu gradualmente a semana de trabalho de 48 para 42 horas. O país chega a esse momento com a taxa de desemprego próxima às mínimas históricas — um resultado que desafia os prognósticos mais pessimistas sobre os efeitos de se trabalhar menos.

A mudança não aconteceu de uma vez. O período de cinco anos deu às empresas tempo para reorganizar processos, redistribuir tarefas e, quando necessário, contratar mais trabalhadores. A Corficolombiana estima que cerca de 787 mil postos foram criados entre 2022 e 2025 justamente para compensar a redução de horas — não por generosidade, mas por necessidade produtiva. A transição também atravessou governos de orientações opostas: começou sob Iván Duque, de direita, e ganhou uma camada adicional de pressão com Gustavo Petro, que em 2025 aprovou aumento de 23,7% no salário mínimo e ampliou o adicional noturno.

Stefano Farné, economista da Universidade Externado de Bogotá, acompanhou o processo de perto. Ele reconhece que os custos por trabalhador subiram e que estudos de impacto com metodologias mais robustas ainda não existem. Mas o que observa na prática é resiliência: o emprego assalariado privado segue crescendo. Para Farné, trabalhar menos é uma tendência global irreversível.

O Chile oferece um precedente mais longo. Em 2005, após quatro anos de transição, reduziu a jornada de 48 para 45 horas. Um estudo do economista Rafael Sanchéz, analisando trabalhadores antes e depois da reforma, não encontrou efeitos diretos significativos sobre criação ou eliminação de vagas. Agora, o país caminha para as 40 horas semanais até 2028. Enquanto isso, o Brasil ainda debate se reduz de 44 para 40 horas — e observa, de longe, vizinhos que já estão vivendo essa realidade.

A Colômbia está prestes a completar uma transformação que começou cinco anos atrás. No dia 15 de julho, entra em vigor a etapa final de uma lei aprovada em 2021 que reduz gradualmente a semana de trabalho. Quando isso acontecer, o limite máximo cairá para 42 horas semanais — uma queda de seis horas desde o ponto de partida de 48 horas. O país não apenas implementou essa mudança sem desastre econômico; está chegando lá com a taxa de desemprego próxima aos menores níveis já registrados em sua história.

Enquanto isso, o Brasil segue travando um debate acalorado sobre reduzir a jornada de 44 para 40 horas e eliminar a escala 6×1. A discussão ganhou força nas redes sociais e se consolidou como uma das principais pautas trabalhistas do ano. Mas há uma diferença crucial: a lei colombiana não exige dois dias de descanso consecutivos por semana, como está sendo discutido aqui. A Colômbia simplesmente reduziu as horas e deixou as empresas se adaptarem.

A redução colombiana começou sob o governo de direita de Iván Duque, entre 2018 e 2022. Depois, quando Gustavo Petro chegou ao poder com uma agenda de esquerda, em 2025, aprovou uma reforma trabalhista que aumentou o salário mínimo em 23,7% e ampliou o período considerado para pagamento de adicional noturno. As duas mudanças — menos horas, mais dinheiro — criaram pressão real sobre as empresas. Elas responderam com automação de processos e redução de serviços. Ainda assim, mantiveram os planos de contratação.

Stefano Farné, economista e diretor do Observatório do Mercado de Trabalho e Seguridade Social da Universidade Externado em Bogotá, acompanhou de perto o que aconteceu. Ele reconhece que os custos por trabalhador aumentaram. Mas o mercado de trabalho não desabou. Pelo contrário: o emprego assalariado do setor privado segue crescendo há muitos meses. Farné ressalva que a Colômbia ainda não tem estudos de impacto com metodologias mais robustas, baseados em análises comparativas sistemáticas. Sua avaliação se apoia no que ele vê acontecer na prática — e o que vê é resiliência.

Os números ajudam a contar a história. A Corficolombiana, uma das principais instituições financeiras do país, estimou que cerca de 787 mil postos de trabalho foram criados entre 2022 e 2025 especificamente para compensar a redução de horas. Isso não significa que as empresas contrataram por altruísmo; significa que precisavam de mais gente trabalhando menos horas para manter a produção. O período de transição — cinco anos — deu tempo para as companhias reorganizarem processos e redistribuírem tarefas sem fazer demissões em massa.

O Chile oferece um precedente ainda mais longo. Em 2005, após quatro anos de transição, reduziu a jornada máxima de 48 para 45 horas semanais. Em 2023, durante o governo de Gabriel Boric, aprovou uma nova reforma que reduzirá gradualmente de 45 para 40 horas, com implementação prevista para terminar em 2028. Um estudo do economista chileno Rafael Sanchéz analisou milhares de trabalhadores entre 2002 e 2005 — antes e depois da primeira reforma. Ele não encontrou efeitos diretos significativos sobre a criação ou eliminação de vagas. Como não houve corte de salários, as horas trabalhadas simplesmente ficaram relativamente mais valorizadas.

Farné observa que a literatura acadêmica internacional aponta para impactos limitados quando países reduzem jornadas. Os estudos empíricos encontram efeitos muito pequenos e marginais — geralmente negativos, mas tão pequenos que nem sempre são estatisticamente significativos. O que as experiências da Colômbia e do Chile sugerem é que com tempo suficiente e sem cortes salariais, as empresas conseguem se adaptar. Farné é claro sobre o que vê acontecendo: trabalhar menos é uma tendência global à qual não se pode se opor. Enquanto o Brasil debate, seus vizinhos já estão vivendo essa realidade.

Não há dúvidas de que aumentaram os custos unitários por trabalhador na Colômbia, mas o que observamos é que não houve efeitos negativos sobre o mercado de trabalho
— Stefano Farné, economista e diretor do Observatório do Mercado de Trabalho da Universidade Externado
Trabalhar menos é uma tendência à qual não podemos nos opor
— Stefano Farné
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a Colômbia conseguiu fazer isso sem desemprego disparar, quando tantos economistas alertam sobre o risco?

Model

Porque deram cinco anos para as empresas se adaptarem. Não foi um choque; foi um processo. As companhias tiveram tempo de automatizar, reorganizar, redistribuir tarefas. E criaram 787 mil postos novos para compensar.

Inventor

Mas isso não é só deslocar o problema? Contratar mais gente para fazer o mesmo trabalho?

Model

Não exatamente. É mais que as horas totais de trabalho diminuíram, mas a demanda por trabalho não desapareceu. Então você precisa de mais pessoas. É matemática, não mágica.

Inventor

E os salários? As empresas não cortaram?

Model

Não cortaram. Isso foi crucial. No Chile, quando fizeram a mesma coisa em 2005, as horas trabalhadas ficaram relativamente mais valorizadas porque o salário se manteve. Você trabalha menos, ganha o mesmo — isso muda o cálculo inteiro.

Inventor

Então por que o Brasil está tendo tanta dificuldade em aprovar algo parecido?

Model

Porque aqui o debate está misturado com outras coisas — a escala 6×1, a redução de 44 para 40 horas. Na Colômbia foi mais simples: reduziram as horas, pronto. Sem exigir dois dias de descanso consecutivos, sem outras condições. Talvez a simplicidade tenha ajudado.

Inventor

Os economistas acreditam que isso vai dar certo no Brasil também?

Model

Farné diz que é uma tendência global à qual não se pode se opor. Mas ele também avisa que não há estudos robustos ainda. O que se vê é o comportamento do mercado, e até agora o mercado colombiano está resiliente. Isso é o que temos.

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