O Brasil não é uma coisa só — é camadas dançando juntas
Em cada fogueira acesa na noite de 23 de junho ressoa uma história que atravessa milênios: de rituais pagãos de colheita no hemisfério norte, passando pela estratégia da Igreja Católica de batizar o que era profano, até chegar ao Brasil Colônia, onde culturas europeias, africanas e indígenas se fundiram numa celebração inteiramente nova. São João, primo e batizador de Jesus segundo a tradição cristã, empresta seu nome a festas que são, na verdade, muito maiores do que qualquer santo — são o retrato de como os povos transformam o tempo em ritual e a mistura em identidade.
- Junho disputa com o carnaval o posto de celebração mais esperada do Brasil, e o país inteiro parece reorganizar seu calendário em torno das fogueiras e quadrilhas.
- A tensão entre o sagrado e o profano está no DNA dessas festas: a Igreja Católica nunca apagou o fogo pagão — apenas o rebatizou, e o Brasil o reinventou mais uma vez ao misturá-lo com África e América.
- Cada elemento da festa carrega um deslocamento cultural — a quadrilha saiu das cortes francesas, o forró veio do Nordeste seco, o milho veio da terra indígena, e as fogueiras vieram dos celtas.
- No Rio de Janeiro, o mês de junho transborda em arraiás de paróquias, shoppings, museus, quadras de samba e parques públicos, mostrando que a tradição nordestina já é também carioca.
- O que está se consolidando é uma celebração viva, que não parou no tempo: cada geração reencena os mesmos passos e os chama de seus.
Junho é o mês em que o Brasil para para dançar. As festas juninas — fogueiras, quadrilhas coloridas, comidas de milho — disputam com o carnaval o lugar de celebração mais esperada do ano. No centro de tudo está São João, cujo dia é celebrado em 24 de junho. Mas o que parece tão brasileiro tem raízes muito mais antigas.
João Batista, primo de Jesus e responsável por seu batismo no rio Jordão, dá nome a festas que, na Europa medieval, já misturavam devoção cristã com rituais pagãos de solstício de verão. A Igreja Católica incorporou essas celebrações associando-as a três santos de junho — Santo Antônio, São João e São Pedro — e Portugal as trouxe ao Brasil no século XVI, desembarcando primeiro no Nordeste.
Aqui, a tradição se transformou. As fogueiras, herdadas de celtas e egípcios que acendiam fogo no solstício para pedir proteção às colheitas, foram cristianizadas pelos jesuítas e ganharam formas distintas para cada santo. Pular as brasas virou simpatia popular. A comida abundante — pamonha, canjica, pé de moleque, quentão — reflete a origem agrícola das festas, marcadas pela colheita do milho. A quadrilha chegou das cortes francesas, seus passos foram abrasileirados, e o forró nordestino tomou conta da trilha sonora.
No Rio de Janeiro, junho e julho explodem em celebrações: paróquias, shoppings, museus, a quadra da Portela, o Aterro do Flamengo. Cada festa é uma versão dessa mistura única — o sagrado e o profano, o europeu e o africano, o indígena e o cristão, tudo dançando junto ao redor do fogo.
Junho é o mês em que o Brasil inteiro parece parar para dançar. As festas juninas — com suas fogueiras, quadrilhas coloridas e comidas de milho — disputam com o carnaval o lugar de celebração mais esperada do ano. No coração dessa tradição está São João, o santo festeiro, cuja data é lembrada nesta segunda-feira, 24 de junho. Mas essas festas que hoje parecem tão brasileiras têm raízes muito mais antigas e complexas do que se imagina.
João Batista, um dos santos mais antigos da História, teria sido primo de Jesus Cristo e responsável por seu batismo nas margens do rio Jordão. Na Europa medieval, especialmente em Portugal, as celebrações de junho eram conhecidas como Festas Joaninas em sua homenagem. O que começou como devoção religiosa, porém, tem origens ainda mais profundas. As festas juninas remontam a celebrações pagãs dos povos antigos, que marcavam a chegada do verão no hemisfério norte e pediam abundância nas colheitas. A Igreja Católica, com sua estratégia de incorporar tradições populares, associou esses festejos a três santos celebrados em junho: Santo Antônio (13), São João (24) e São Pedro (29), transformando o que era pagão em cristão.
A tradição se enraizou especialmente em Portugal, que a trouxe para o Brasil Colônia no século XVI, desembarcando primeiro no Nordeste — razão pela qual a região ainda abriga algumas das maiores festas juninas do país. Aqui, porém, algo novo aconteceu. Os elementos europeus se encontraram com culturas africanas e indígenas, criando algo inteiramente diferente. As fogueiras, por exemplo, vêm de práticas muito antigas. Celtas e egípcios acendiam fogo no solstício de verão para homenagear deuses da natureza e da fertilidade, pedindo proteção às plantações e afastando maus espíritos. Os jesuítas trouxeram o costume para o Brasil, mas o cristianizaram: as fogueiras passaram a ser acesas na véspera do nascimento de São João, na noite de 23 de junho. Com o tempo, ganharam formatos diferentes — quadrada para Santo Antônio, redonda para São João, triangular para São Pedro. Pular as brasas no dia 24 virou simpatia, origem dos versos que ecoam nas festas: "pula fogueira, iaiá; pula fogueira, ioiô".
A comida conta outra história. As celebrações pagãs marcavam o início da colheita de cereais, explicando a abundância de alimentos e bebidas que caracteriza as festas. O milho, colhido nessa época, tornou-se ingrediente central: pamonha, pipoca, canjica, bolo, curau. Ao lado dele, paçoca, pé de moleque, salsichão, arroz-doce, pinhão, cuscuz e tapioca. Quentão e vinho quente aquecem as noites. A dança típica é a quadrilha, que tem origem nos bailes das cortes francesas, onde mulheres usavam vestidos rodados e muito enfeitados. Dali vieram os trajes caipiras multicoloridos, cheios de babados e tranças, mas também incorporaram elementos da vida rural — camisas xadrez e chapéus de palha. Passos franceses como "en arrière" e "balancer" foram abrasileirados em "anarriê" e "balancê". A trilha sonora é o forró e seus derivados — xote, xaxado, baião — tradicionais do Nordeste, onde tudo começou.
No Rio de Janeiro, junho e julho explodem em celebrações. A Paróquia da Imaculada, no Recreio, faz festas para os três santos. O Arraiá do Downtown, no shopping a céu aberto, acontece durante quatro semanas com shows, quadrilhas e brincadeiras. A EcoVilla Ri Happy, no Jardim Botânico, oferece diversão para crianças. A Portela, tradicional escola de samba, leva o clima junino para sua quadra em Oswaldo Cruz. O CCBB abre suas portas com forró e barracas. O Museu do Pontal, na Barra, traz shows de Juliana Linhares e Trio Forrozão. O Aterro do Flamengo recebe o circuito Juninas do Rio, que cresceu desde sua criação em 2017. Cada festa é uma versão dessa mistura única — o sagrado e o profano, o europeu e o africano, o indígena e o cristão, tudo dançando junto ao redor do fogo.
Citações Notáveis
As festas juninas disputam com o carnaval o posto de época mais aguardada do ano no coração dos brasileiros— Reportagem de O Globo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que as festas juninas se tornaram tão importantes para a identidade brasileira, se vieram de fora?
Porque não chegaram prontas. Os portugueses trouxeram a estrutura religiosa, mas aqui encontraram outras culturas que já tinham suas próprias celebrações de colheita, seus próprios ritmos. Tudo se misturou — e o resultado foi algo que nenhum desses povos teria criado sozinho.
As fogueiras parecem ser o coração da festa. Por que pular fogo virou tão importante?
Porque o fogo sempre foi importante. Antes de ser cristão, era proteção, era fertilidade, era comunidade reunida. A Igreja não destruiu isso — apenas colocou um santo no meio. Pular as brasas virou uma simpatia, um gesto que conecta a pessoa ao sagrado.
E a comida? Por que milho em tudo?
Porque as festas marcam a colheita. O milho estava ali, abundante, pronto para ser transformado. Pamonha, canjica, curau — cada receita é uma forma de celebrar a fartura. É prático e simbólico ao mesmo tempo.
A quadrilha vem da França, mas parece tão brasileira. Como isso aconteceu?
Os passos são franceses, mas o corpo que dança é brasileiro. Pegaram o formato dos bailes da corte, mas vestiram com roupas da roça, dançaram ao som do forró nordestino. Transformaram a forma em algo completamente diferente.
O que as festas juninas dizem sobre como o Brasil se formou?
Que o Brasil não é uma coisa só. É camadas — pagão embaixo, cristão no meio, africano e indígena por toda parte. As festas juninas são o lugar onde você vê todas essas camadas dançando juntas, sem nenhuma delas desaparecer completamente.