O que era ideologia se transformou em repertório emocional
Décadas após o colapso do bloco soviético, viajantes de diferentes convicções políticas percorrem mansões de ditadores, museus da vida cotidiana socialista e destroços de aviões abatidos — não para restaurar o passado, mas para tocá-lo. O turismo pós-socialista, impulsionado por agências como a brasileira Estrela Vermelha e por sítios históricos da Europa Oriental, revela uma necessidade humana mais antiga do que qualquer ideologia: a de encontrar sentido nas ruínas do que foi. A antropóloga Katherine Verdery nos lembra que o que era doutrina pode se transformar em emoção, e que a nostalgia, muitas vezes, é menos saudade de um sistema do que busca por um chão firme que o tempo levou.
- Museus da DDR em Berlim e a mansão dos Ceausescu na Romênia acumulam filas de visitantes curiosos sobre como se vivia — e morria — sob o socialismo real.
- A agência brasileira Estrela Vermelha realizou 18 viagens a 10 países em pouco mais de um ano, levando cerca de 300 turistas a rotas que incluem a Transiberiana e o Cáucaso.
- O fenômeno ultrapassa fronteiras ideológicas: tanto simpatizantes da esquerda quanto viajantes atraídos por preços acessíveis e paisagens preservadas integram esse fluxo.
- Antropólogos alertam que a nostalgia não é desejo de retorno político, mas resposta emocional ao vazio de estabilidade deixado pelo colapso dos regimes nos anos 1980 e 1990.
- O turismo pós-socialista consolida-se como nicho global, transformando ideologia em patrimônio visitável — e o passado traumático em experiência de viagem contemporânea.
Há uma cena no filme Adeus, Lenin em que um jovem falsifica a realidade para poupar sua mãe comunista do choque da queda do Muro. Hoje, o movimento é quase inverso: turistas viajam propositalmente para encontrar esses mundos congelados no tempo.
Na Romênia, a mansão onde os Ceausescu viveram até seu fuzilamento televisionado em 1989 tornou-se destino procurado — com detalhes kitsch que parecem saídos de um filme de Wes Anderson. Em Berlim, o Museu da DDR reproduz salas de estar da antiga República Democrática Alemã e permite dirigir um Trabant em realidade aumentada. Em Belgrado, o Museu da Aviação exibe destroços de aviões americanos abatidos durante os bombardeios da Otan à Iugoslávia em 1999.
No Brasil, a agência Estrela Vermelha especializou-se em 'experiências socialistas e países fora das rotas comuns'. Em pouco mais de um ano, realizou 18 viagens a 10 países, levando cerca de 300 turistas. Um pacote de 16 noites pelo Cáucaso custa aproximadamente 16 mil reais. O historiador Rodrigo Ianhez, sócio da empresa, descreve as excursões como 'passeios emocionantes, no avesso da indiferença'.
O interesse não se restringe a simpatizantes da esquerda. Os países do antigo bloco soviético oferecem lugares espetacularmente preservados a preços muito mais acessíveis que os da Europa Ocidental. A antropóloga Katherine Verdery oferece uma leitura mais funda: a nostalgia não é desejo de restaurar sistemas políticos, mas tentativa de dar sentido à instabilidade que sucedeu ao colapso dos regimes. 'O que era ideologia se transformou em repertório emocional', diz ela. Visitar a mansão dos Ceausescu tornou-se semelhante a conhecer Versalhes — um lugar onde o poder absoluto e sua queda podem ser contemplados, e onde a história se torna tangível.
Há uma cena memorável no filme Adeus, Lenin em que um jovem berlinense monta uma elaborada farsa para sua mãe comunista fervorosa, que caiu em coma na noite exata em que o Muro de Berlim desabou. Ele falsifica noticiários, procura por alimentos antigos em lata, faz tudo para que ela acorde sem saber que o mundo mudou. É uma história sobre o choque de duas épocas colidindo — e hoje, décadas depois, há um movimento turístico que parece fazer o inverso: pessoas viajam justamente para encontrar esses mundos congelados no tempo, para caminhar pelos corredores do que foi.
Na Romênia, a mansão onde Nicolae e Elena Ceausescu viveram até serem levados ao fuzilamento televisionado em 1989 tornou-se um dos destinos mais procurados. O que chama atenção não é apenas a história política, mas detalhes como a piscina revestida de pedrinhas coloridas, um espaço que parece ter saído de um filme de Wes Anderson. Em Berlim, junto ao Rio Spree, filas se formam diante do Museu da DDR, onde quartos e salas de estar reproduzem o cotidiano da antiga República Democrática Alemã. Visitantes podem dirigir um Trabant — aquele carro de plástico reforçado e motor deficiente que se tornou símbolo de uma era — em simulação de realidade aumentada. Em Belgrado, o Museu da Aviação exibe mais de duzentos modelos de aeronaves, incluindo destroços de um F-117 Nighthawk e um F-16 americanos, ambos abatidos durante os bombardeios da Otan à Iugoslávia em 1999.
O fenômeno não é apenas europeu. No Brasil, a agência Estrela Vermelha se apresenta como especializada em "experiências socialistas e países fora das rotas comuns". Desde novembro de 2023, realizou dezoito viagens para dez países diferentes, levando aproximadamente trezentos turistas. A empresa é a única no país a oferecer a rota da Transiberiana. Um pacote de dezesseis noites pelo Cáucaso — Geórgia e Armênia — custa cerca de dois mil e quinhentos euros, o equivalente a dezesseis mil reais. Rodrigo Ianhez, historiador especializado em União Soviética e sócio da companhia, descreve as excursões como "passeios emocionantes, no avesso da indiferença", transformando os destinos em aulas de história viva. Enquanto as viagens tradicionais à Rússia costumam focar nos palácios imperiais, a Estrela Vermelha mergulha também na era de Lenin e Stalin.
Mas por que esse interesse crescente? Há, certamente, uma dimensão política — novos simpatizantes do socialismo à flor da pele. Porém, seria ingenuidade imaginar que apenas pessoas de esquerda sentem essa atração. Os países do antigo bloco soviético possuem lugares espetaculares, frequentemente preservados como se estivessem em formol, e oferecidos a preços muito mais acessíveis que os da Europa Ocidental. Revisitar a história, ainda que seja apenas para postar depois nas redes sociais, tornou-se uma forma de turismo contemporâneo.
A antropóloga americana Katherine Verdery, especialista em memória pós-socialista, oferece uma interpretação mais profunda. Segundo ela, a nostalgia dessas viagens não é exatamente o desejo de restaurar os antigos sistemas políticos, mas uma tentativa de dar sentido à falta de estabilidade e propósito que sucedeu ao colapso dos governos no final dos anos 1980. Houve uma transformação: "O que era ideologia se transformou em repertório emocional que expressa tanto a perda quanto a permanência." Visitar a mansão exagerada dos Ceausescu tornou-se semelhante a conhecer Versalhes — um lugar onde se pode contemplar o poder absoluto e sua queda, onde a história se torna tangível. O tempo molda a forma como olhamos para nossas próprias aventuras.
Citações Notáveis
As viagens são pensadas e realizadas de camaradas para camaradas— Apresentação da agência Estrela Vermelha
A nostalgia das viagens não é exatamente o desejo de retomar os antigos sistemas, mas de dar algum sentido à falta de estabilidade e de propósito que sucedeu à derrocada dos governos— Katherine Verdery, antropóloga americana especialista em memória pós-socialista
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você acha que as pessoas querem visitar justamente esses lugares? Não seria mais fácil ler sobre isso em um livro?
Há algo que um livro não consegue fazer: colocar você em pé dentro de um quarto onde pessoas reais viveram e morreram. Ver a piscina dos Ceausescu com seus próprios olhos é diferente de ler sobre ela.
Mas muitos desses turistas parecem ter uma posição política clara. Não é só curiosidade histórica?
Talvez não seja tão simples. A antropóloga Katherine Verdery diz que a nostalgia não é sobre querer voltar ao comunismo, mas sobre buscar estabilidade em um mundo que se sente instável. A ideologia virou emoção.
Então é nostalgia de um tempo que nunca viveram?
Exatamente. É nostalgia de uma ideia, de um sentimento de que as coisas tinham propósito. O colapso dos anos 1980 deixou um vazio que essas viagens tentam preencher.
E quanto aos preços? A agência brasileira cobra dezesseis mil reais por duas semanas no Cáucaso.
É acessível comparado à Europa Ocidental, mas ainda é turismo de classe média. Esses lugares foram preservados, congelados. Viram museus vivos, e as pessoas pagam para entrar.