Venezuela: buscas por deportados dos EUA continuam sob escombros após terramotos

Dezenas de migrantes deportados presumivelmente mortos ou feridos sob escombros de hotel em La Guaira; famílias sem informações sobre paradeiro de parentes repatriados.
Ele gritava 'um' e ninguém respondia
Um deportado resgatado dos escombros do hotel em La Guaira descreveu as horas que passou enterrado, ouvindo outras vozes que desapareceram.

Mais de cem migrantes deportados pelos Estados Unidos pousaram em La Guaira na quarta-feira à noite e foram alojados num hotel para processamento administrativo — horas antes de terramotos devastadores reduzirem o edifício a escombros. O que deveria ser o fim de uma longa jornada de retorno tornou-se, para muitos, um desaparecimento sem resposta. Famílias percorrem morgues e hospitais em silêncio, enquanto o governo venezuelano permanece opaco sobre o destino específico dos repatriados, deixando o luto suspenso entre a esperança e a certeza impossível.

  • Mais de cem deportados chegaram a La Guaira horas antes de terramotos destruírem o hotel onde foram alojados para processamento — transformando um regresso administrativo numa catástrofe.
  • O caos é tão profundo que o governo chegou a confirmar por telefone a morte de um homem que estava vivo numa cama de hospital, revelando a ausência de registos fiáveis sobre os repatriados.
  • Um sobrevivente passou horas sob os escombros a gritar números com outros presos, contando-se mutuamente — até que as vozes ao seu redor foram emudecendo uma a uma.
  • Famílias como a de Norbert Martínez percorrem morgues e hospitais há dias, sem que qualquer entidade oficial lhes forneça informação sobre o paradeiro dos deportados desaparecidos.
  • O governo venezuelano divulgou apenas totais gerais — 1.719 mortos, 5.034 feridos — sem desagregar os dados relativos aos repatriados, que desapareceram nas estatísticas como desapareceram nos escombros.

Um avião com mais de cem migrantes deportados pelos Estados Unidos aterrou em La Guaira na quarta-feira à noite. A rotina era conhecida: os repatriados seriam registados pelo programa estatal "Misión Vuelta a la Patria" e libertados no dia seguinte para reencontrar as suas famílias. Nenhum deles sabia que o hotel onde dormiriam desabaria horas depois, quando os terramotos varreram a costa venezuelana.

Um dos sobreviventes tinha atravessado o Tapón de Darién a pé anos antes, chegado aos Estados Unidos, sido detido e deportado sem conseguir advogado. Quando os tremores começaram, estava no segundo andar. Viu outros atirarem-se pelas janelas. Correu para uma porta, foi atingido na cabeça e perdeu os sentidos. Acordou sob os escombros, rodeado de vozes que se contavam em voz alta — um, dois, três, oito pessoas. Depois, silêncio. Continuou a gritar "um", sozinho, até ser resgatado.

A confusão administrativa agravou o desespero das famílias: a irmã de outro sobrevivente recebeu uma chamada do governo a confirmar a morte do familiar — que estava vivo, num hospital. O erro expôs a ausência de registos precisos sobre quem chegou, quem sobreviveu, quem morreu.

Norbert Martínez viajou quatro horas desde Yaracuy para procurar a irmã Mariángela, que chegou naquele mesmo voo. Percorre morgues e hospitais sem obter resposta. O governo divulgou apenas totais gerais da catástrofe — quase 1.700 mortos e mais de 5.000 feridos — sem qualquer referência específica aos deportados. Mais de cem pessoas foram colocadas num edifício que não resistiu à terra a tremer, e dias depois muitas delas continuam sem nome nas estatísticas e sem rasto para as famílias que as esperam.

Um avião transportando mais de cem migrantes deportados pelos Estados Unidos tocou o solo em La Guaira na quarta-feira à noite. Horas depois, a terra começou a tremer. O hotel onde aqueles homens e mulheres haviam sido levados para processamento administrativo desabou sob o impacto dos terramotos que devastaram a região costeira da Venezuela. Ninguém sabe quantos saíram vivos daqueles escombros.

O programa estatal "Misión Vuelta a la Patria" havia recebido instruções de receber os deportados americanos desde 2025. A rotina era simples: os repatriados chegavam, seus dados eram registrados, e no dia seguinte seriam liberados para retornar às suas famílias. Nenhum deles esperava que o edifício onde dormiam desabaria durante a noite.

A irmã de um dos deportados recebeu uma ligação do governo na segunda-feira. A voz do outro lado da linha disse que seu familiar havia morrido, que a morte estava confirmada. Ela respondeu com a verdade que tinha diante dos olhos: o homem estava ali, vivo, deitado numa cama de hospital. Ele havia sobrevivido. A confusão revelava algo mais profundo — o caos administrativo que cercava os repatriados, a falta de registros precisos, a impossibilidade de saber quem estava onde.

O homem que sobreviveu havia deixado a Venezuela anos antes, atravessando o Tapón de Darién a pé, uma das rotas migratórias mais mortíferas do continente. Conseguiu chegar aos Estados Unidos, mas foi detido este ano. Passou mais de um mês na prisão. Numa audiência, sem recursos para contratar um advogado que pudesse recorrer em seu favor, ouviu do juiz que a deportação era sua única opção. Na quarta-feira, foi colocado naquele avião de volta.

Quando os terramotos começaram, ele estava no segundo andar do hotel. Viu outros repatriados se atirarem pelas janelas, tentando escapar antes que o prédio os enterrasse. Correu em direção a uma porta, mas foi atingido na cabeça e perdeu a consciência. Acordou sob os escombros. Ao seu redor, ouviu vozes — pelo menos oito pessoas gritando números, contando-se mutuamente: um, dois, três. Depois, silêncio. Ele continuou gritando "um", sozinho, até que ninguém respondeu mais. Permaneceu ali, debaixo das ruínas, até que as equipes de resgate o encontraram e o levaram para o hospital.

Norbert Martínez procura sua irmã, Mariángela, que também chegou naquele voo de repatriação. Ele viajou quase quatro horas desde o estado de Yaracuy, na sexta-feira, o segundo dia após os terramotos, para chegar a Caracas. Desde então, tem visitado morgues e hospitais, procurando por qualquer informação sobre o paradeiro dela. Ninguém lhe diz nada. O governo não divulgou números específicos de mortos ou feridos entre os deportados — apenas um total geral: 1.719 mortos e 5.034 feridos em toda a região afetada pelos terramotos. Os repatriados desapareceram nas estatísticas.

As buscas continuam sob os escombros de La Guaira. As famílias continuam ligando para hospitais e morgues. O governo continua em silêncio sobre quantos deportados chegaram naquele voo, quantos morreram, quantos sobreviveram. O que se sabe é que mais de cem pessoas foram colocadas num edifício que não resistiu à terra tremendo, e que agora, dias depois, muitas delas ainda não foram encontradas.

Ninguém nos deu informações sobre onde estão os repatriados, se conseguiram salvar-se ou não. Ninguém nos diz nada
— Norbert Martínez, procurando pela irmã deportada
Não pode estar confirmado porque ele está aqui comigo
— Irmã de um dos deportados, respondendo à ligação do governo informando sobre a morte do familiar
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que esse voo chegou exatamente naquele momento? Foi coincidência ou há algo mais nessa sincronização?

Model

Não há indicação de que tenha sido planejado assim. Os voos de deportação seguem cronogramas estabelecidos. O timing foi simplesmente trágico — o avião pousou horas antes dos terramotos começarem. Se tivesse chegado um dia depois, aquelas pessoas estariam em outro lugar.

Inventor

O governo sabia que havia deportados naquele hotel quando os terramotos começaram?

Model

Aparentemente sim, porque conseguiram ligar para a irmã do sobrevivente para informar sobre a morte dele. Mas a informação estava errada, o que sugere registros confusos ou comunicação caótica durante a crise.

Inventor

Por que o governo não divulga números específicos sobre os deportados?

Model

Pode ser incompetência administrativa, falta de registros precisos, ou talvez uma escolha deliberada de não destacar quantos morreram sob sua responsabilidade. O silêncio é tão significativo quanto qualquer número.

Inventor

O homem que sobreviveu — ele conseguiu voltar para sua família?

Model

Ele estava hospitalizado quando sua irmã falou com a agência de notícias. Mas a história dele é exceção. Muitos outros não tiveram essa sorte. Seu irmão Norbert ainda procura por Mariángela dias depois.

Inventor

Qual é o significado mais amplo dessa história?

Model

É sobre o que acontece quando as pessoas são devolvidas a um lugar que não as quer, sem proteção, sem informação, sem ninguém responsável por elas. Os terramotos apenas expuseram uma vulnerabilidade que já existia.

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