A aranha é tímida, mas sua mordida pode deixar cicatrizes permanentes
No Porto, uma aranha venenosa sul-americana — a Loxosceles laeta, conhecida como aranha-reclusa-chilena — foi identificada pela primeira vez na Península Ibérica, marcando a chegada silenciosa de mais uma espécie invasora à Europa. Os investigadores que confirmaram a sua presença sublinham que o risco imediato para a população é reduzido, dado o temperamento esquivo do animal, mas a sua mordida pode provocar lesões necróticas graves. A descoberta convida-nos a refletir sobre como as fronteiras biológicas se dissolvem num mundo em constante movimento, e sobre o que ainda desconhecemos do que partilha os nossos espaços.
- Uma aranha venenosa originária da América do Sul foi encontrada no Porto em setembro de 2025 e confirmada novamente em janeiro de 2026 — a primeira vez que esta espécie é documentada em toda a Península Ibérica.
- Apesar do alerta, os investigadores insistem que a aranha é tímida e raramente morde, pedindo contenção face ao potencial pânico público.
- Quando a mordida ocorre, o veneno pode desencadear loxoscelismo, uma síndrome que destrói tecido cutâneo e pode exigir internamento prolongado, como aconteceu com uma mulher mordida há três anos por uma espécie relacionada.
- A grande incerteza agora é saber se a aranha-reclusa-chilena está confinada ao Porto ou se já se dispersou — e se registos antigos atribuídos à espécie mediterrânea escondem, afinal, a presença não reconhecida da chilena.
- A semelhança visual entre as duas espécies de reclusa complica qualquer diagnóstico retrospetivo, deixando em aberto a verdadeira dimensão da sua implantação em Portugal.
Em setembro de 2025, investigadores no Porto identificaram uma aranha que nunca havia sido documentada na Península Ibérica: a Loxosceles laeta, a aranha-reclusa-chilena, um aracnídeo venenoso originário da América do Sul. Meses depois, em janeiro de 2026, uma segunda aranha da mesma espécie foi encontrada. O estudo foi conduzido pelos biólogos Francisco Gil e José Manuel Grosso-Silva, que confirmaram a presença inédita do animal na região.
Antes de qualquer alarme, os investigadores foram claros: o risco de ser mordido é reduzido. A espécie é tímida e relutante em atacar. Ainda assim, quando morde, as consequências podem ser sérias — o veneno provoca loxoscelismo, uma síndrome que destrói tecido cutâneo de forma necrótica. O caso mais recente em Portugal envolveu uma mulher de 48 anos mordida por uma espécie relacionada, a aranha-reclusa-do-mediterrâneo, que passou duas semanas internada após desenvolver lesões graves na pele.
O desafio agora é perceber se a aranha-reclusa-chilena está confinada ao Porto ou se já se espalhou. A sua semelhança com a espécie mediterrânea — já estabelecida em Portugal há cerca de dois séculos — complica a análise: registos fotográficos antigos podem ter identificado erradamente a chilena como mediterrânea, tornando impossível saber há quanto tempo a espécie sul-americana está presente sem ser reconhecida.
A descoberta é, acima de tudo, um lembrete de como os animais atravessam continentes e se instalam em novos ambientes sem que ninguém repare — até que alguém, num dia comum, os encontra.
No Porto, em setembro de 2025, investigadores identificaram uma aranha que nunca antes havia sido documentada na Península Ibérica. Tratava-se da Loxosceles laeta, conhecida como aranha-reclusa-chilena — um aracnídeo venenoso originário da América do Sul que, de alguma forma, chegou à cidade portuguesa. Meses depois, em janeiro de 2026, uma segunda aranha da mesma espécie foi encontrada. Os biólogos Francisco Gil e José Manuel Grosso-Silva conduziram o estudo que confirmou a presença inédita do animal na região.
A descoberta levanta questões sobre como a espécie chegou até Portugal e se está já dispersa para além do Porto. Mas antes de qualquer alarme, os investigadores foram claros: o risco de encontro com este aracnídeo ou de ser mordido por ele é reduzido. José Manuel Grosso-Silva explicou à Euronews que a aranha-reclusa-chilena é tímida e relutante em morder. Ainda assim, quando o faz, as consequências podem ser graves.
A mordida desta aranha causa danos consideráveis à pele, frequentemente resultando em lesões necróticas — tecido que morre e se decompõe. O veneno desencadeia uma condição conhecida como loxoscelismo, um síndrome que pode deixar marcas permanentes. Há três anos, uma mulher de 48 anos foi mordida por uma aranha-reclusa-do-mediterrâneo, uma espécie relacionada já estabelecida em Portugal há cerca de dois séculos. A vítima não sentiu dor imediata, mas desenvolveu inchaço na nuca. Um dia depois, a pele em várias partes do corpo começou a descamar. Passou duas semanas internada antes de receber alta.
O desafio agora é determinar se a aranha-reclusa-chilena está confinada ao Porto ou se já se propagou para outras regiões. As duas espécies de reclusa — a chilena e a do-mediterrâneo — são muito semelhantes em comportamento e aparência. Isto significa que registos fotográficos antigos identificados como sendo da espécie mediterrânea podem, na verdade, corresponder à chilena. Sem uma revisão cuidadosa, é impossível saber quantas vezes a espécie sul-americana esteve presente em Portugal sem ser reconhecida.
Grosso-Silva reforça que o risco existe, mas parece reduzido. A aranha é naturalmente esquiva, preferindo evitar confronto. Ainda assim, a sua presença marca um novo capítulo na história das espécies invasoras em Portugal — um lembrete de como os animais conseguem atravessar continentes e estabelecer-se em ambientes completamente novos, muitas vezes sem que ninguém repare até que alguém, num dia comum, a encontra.
Notable Quotes
A probabilidade de as pessoas se cruzarem com esta espécie ou serem mordidas por ela é reduzida— José Manuel Grosso-Silva, biólogo
Trata-se de uma espécie tímida e pouco propensa a morder, mas a sua mordida pode causar danos consideráveis na pele, resultando frequentemente em lesões cutâneas necróticas— Documento do estudo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que uma aranha da América do Sul acaba no Porto?
Ninguém sabe ao certo. Pode ter vindo em contentores de carga, em plantas importadas, ou através de outras rotas comerciais. A Loxosceles laeta é nativa do Chile e de regiões vizinhas, mas conseguiu expandir-se para muito longe do seu habitat original.
Se é venenosa, porque é que os investigadores dizem que não há motivo de preocupação?
Porque a aranha é tímida. Não ataca. Só morde se se sentir ameaçada ou acuada — e mesmo assim, prefere fugir. O verdadeiro risco é mínimo se as pessoas simplesmente a deixarem em paz.
Mas quando morde, é perigoso?
Sim. O veneno causa lesões necróticas na pele — o tecido morre. Pode deixar cicatrizes permanentes. Há três anos, uma mulher foi mordida por uma aranha-reclusa-do-mediterrâneo e passou duas semanas no hospital. Mas esses casos são raros.
Há quanto tempo a aranha-reclusa-do-mediterrâneo está em Portugal?
Cerca de 200 anos. Veio da América do Norte e estabeleceu-se na Europa há muito tempo. Ninguém está em pânico com ela. A chilena é nova, mas provavelmente seguirá o mesmo padrão — presença discreta, encontros raros.
O que preocupa mais os investigadores?
Não sabem se a aranha está apenas no Porto ou se já se dispersou. E como as duas espécies são muito parecidas, é possível que a chilena tenha estado aqui antes sem ser identificada corretamente.