Vencedor do Nobel de Química deixa EUA para liderar pesquisa de IA na China

Precisamos reconhecer que pessoas vindas de diferentes origens elevam o nível para todos
Yaghi argumentou que talentos internacionais fortalecem a excelência científica, pouco antes de deixar os EUA.

Quando um dos maiores químicos vivos escolhe Pequim em vez de Berkeley, algo mais profundo do que uma mudança de endereço está acontecendo. Omar Yaghi, Nobel de Química, partiu para liderar um instituto de inteligência artificial na Universidade Tsinghua, carregando consigo décadas de excelência forjada nos Estados Unidos — e uma advertência silenciosa sobre o que acontece quando uma nação deixa de cultivar o que atrai. A migração de talentos científicos de topo não é apenas um dado estatístico; é o termômetro de uma civilização que decide, ou não, investir no futuro.

  • Um Nobel de Química abandona Berkeley e aceita liderar um laboratório em Pequim, tornando visível uma fuga de cérebros que muitos preferiam ignorar.
  • A China já superou os EUA em artigos científicos de ponta em química, e está disposta a escrever cheques cada vez maiores enquanto universidades americanas enfrentam cortes de financiamento.
  • Yaghi alertou publicamente que as políticas de imigração de Trump ameaçam o ecossistema científico americano — e sua própria partida transforma esse alerta em evidência concreta.
  • O trabalho que ele leva para a China — estruturas metalorgânicas com aplicações em coleta de água, chips e biomateriais — representa tecnologias que definirão décadas de inovação global.
  • A pergunta que paira sobre a comunidade científica internacional é se outros pesquisadores de elite seguirão o mesmo caminho rumo a Pequim.

Omar Yaghi deixou Berkeley no mês passado para assumir a liderança de um instituto de pesquisa na Universidade Tsinghua, em Pequim. O químico, vencedor do Nobel no ano anterior, agora dirige um laboratório que usa inteligência artificial para descobrir novos materiais. A cerimônia de nomeação o saudou como um dos maiores químicos vivos, e a universidade descreveu o cargo como uma oportunidade de fazer ciência com mais energia e ambição do que nunca.

A mudança reflete uma realidade difícil de ignorar: a China superou os Estados Unidos em artigos científicos de ponta em química e está investindo somas extraordinárias para atrair os melhores talentos do mundo. O contraste é agudo — universidades americanas enfrentam cortes enquanto Pequim escreve cheques cada vez maiores. Ram Seshadri, professor em Santa Bárbara, vê na partida de Yaghi o sinal de uma dinâmica emergente entre as duas potências.

A trajetória de Yaghi é ela mesma uma história americana: nascido em Amã, filho de refugiados palestinos que viviam sem eletricidade nem água encanada, chegou aos EUA aos quinze anos enviado pelo pai açougueiro. Sua curiosidade por blocos atômicos o levou a desenvolver as estruturas metalorgânicas — redes de átomos de metal capazes de conter substâncias químicas essenciais à vida. Em 2018, alunos seus testaram no Deserto de Mojave um coletor passivo que produzia quase três xícaras de água potável por dia. O dispositivo está próximo da comercialização, e as aplicações se estendem a chips de silício, fibras de carbono e biomateriais para implantes médicos.

Antes de viajar a Estocolmo para receber o Nobel, Yaghi expressou preocupação com as políticas de imigração de Trump, argumentando que elas colocam em risco o ecossistema que sustenta a excelência científica americana. 'Pessoas vindas de diferentes origens elevam o nível para todos', disse ele. Agora, com Yaghi em Pequim, essa visão está sendo testada na prática — e a pergunta que fica é se outros cientistas de elite seguirão o mesmo caminho.

Omar Yaghi deixou a Universidade da Califórnia em Berkeley no mês passado para assumir a liderança de um instituto de pesquisa na Universidade Tsinghua, em Pequim. O químico, que ganhou o Prêmio Nobel de Química no ano anterior, agora dirige um laboratório que usa inteligência artificial para descobrir novos materiais. A cerimônia de nomeação em Tsinghua o saudou como um dos maiores químicos vivos, e a universidade descreveu sua visão para o cargo como uma chance de fazer ciência com mais energia, intensidade e ambição do que nunca antes.

A mudança reflete uma realidade que se tornou impossível ignorar: a China está investindo quantias extraordinárias em pesquisa científica, e está vencendo. Alessandra Zimmermann, analista de orçamento da Associação Americana para o Avanço da Ciência, confirmou que as métricas mais confiáveis mostram que a China superou os Estados Unidos em artigos científicos de ponta na área de química. No ano passado, três dos seis vencedores americanos do Prêmio Nobel de ciências nasceram fora do país. Ao longo deste século, quarenta por cento dos laureados americanos com o Nobel em física, química e medicina nasceram em outro lugar.

Ram Seshadri, professor de química e ciência dos materiais na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, vê na partida de Yaghi um sinal de uma dinâmica emergente entre as duas potências. A China, disse ele, já ultrapassou os Estados Unidos em muitas áreas da ciência dos materiais e da química, e está disposta a gastar somas enormes para atrair os melhores talentos do mundo. O contraste é agudo: universidades americanas enfrentam cortes de financiamento enquanto Beijing escreve cheques cada vez maiores.

Yaghi nasceu em Amã, capital da Jordânia, filho de refugiados palestinos que viviam em um cômodo sem eletricidade nem água encanada. Aos quinze anos, seu pai, um açougueiro, o enviou para os Estados Unidos. Desde criança, ele ficou fascinado pela representação de blocos de construção atômicos em um livro escolar. Essa curiosidade o levou a uma carreira que redefiniu um campo inteiro. Ele desenvolveu as estruturas metalorgânicas — redes de átomos de metal que formam uma estrutura ajustável capaz de conter substâncias químicas associadas à vida, particularmente átomos de carbono. Embora profundamente teóricas, essas estruturas são tão radicais e flexíveis que especialistas em materiais e empresas preveem inúmeras aplicações comerciais.

Uma delas é a coleta de água do ar em regiões áridas. Em 2018, os alunos de Yaghi em Berkeley testaram um pequeno coletor passivo no Deserto de Mojave, na Califórnia, e descobriram que o dispositivo podia produzir quase três xícaras de água pura e potável por dia. O aparelho está agora próximo da comercialização. Essas estruturas também têm potencial em chips de silício, fibras de carbono e biomateriais para implantes médicos — aplicações que definem a vida moderna.

Antes de viajar para Estocolmo para receber seu Prêmio Nobel, Yaghi concedeu uma entrevista ao The New York Times em que expressou preocupação com as políticas de imigração do presidente Donald Trump. Ele argumentou que essas políticas colocam em risco o sistema de universidades, empresas e agências governamentais que promovem a excelência científica nos Estados Unidos. Chamou o nacionalismo de Trump de lamentável. "Precisamos reconhecer que pessoas vindas de diferentes origens elevam o nível para todos os envolvidos", disse ele. "Grandes pensadores podem melhorar não apenas os EUA, mas o mundo todo."

Agora, com Yaghi em Pequim, essa visão parece estar sendo testada. A China está oferecendo aos cientistas do mundo aquilo que os Estados Unidos, aparentemente, não pode mais garantir: recursos ilimitados, ambição sem restrições e a liberdade de fazer ciência em escala. A pergunta que fica é se outros seguirão o mesmo caminho.

Eles nos ultrapassaram em muitas áreas da ciência dos materiais e da química. Eles estão dispostos a investir somas muito grandes de dinheiro para atrair novos talentos.
— Ram Seshadri, professor de química na UC Santa Bárbara
Acho lamentável. Precisamos reconhecer que pessoas vindas de diferentes origens elevam o nível para todos os envolvidos.
— Omar Yaghi, sobre políticas de imigração dos EUA
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um cientista do calibre de Yaghi deixaria Berkeley, uma das melhores universidades do mundo, para ir para a China?

Model

Porque Berkeley não consegue mais oferecer o que a China oferece. Não é apenas dinheiro — é a escala do investimento, a disposição de construir institutos inteiros em torno de uma pessoa, de dar recursos sem limite para explorar ideias.

Inventor

Mas ele já tinha prêmio Nobel, prestígio, alunos brilhantes em Berkeley. O que mais ele poderia querer?

Model

Talvez a chance de fazer ciência sem estar constantemente preocupado com financiamento. Nos EUA, até os melhores cientistas passam metade do tempo escrevendo propostas de bolsa. Na China, você escreve a ciência.

Inventor

Isso é uma perda para os Estados Unidos?

Model

Depende de como você vê. É uma perda de um talento extraordinário. Mas é também um sintoma. Yaghi é um imigrante que construiu sua carreira nos EUA, e agora está deixando porque sente que o país não valoriza mais pessoas como ele.

Inventor

Ele disse isso explicitamente?

Model

Não exatamente assim. Mas quando um Prêmio Nobel de Química expressa preocupação com as políticas de imigração e depois se muda para a China, a mensagem é clara. Ele está votando com os pés.

Inventor

A China realmente superou os EUA em química?

Model

Em artigos científicos de ponta, sim. Não em tudo, mas em áreas importantes. E está investindo para ampliar essa vantagem. Yaghi é apenas um exemplo visível de uma tendência muito maior.

Inventor

O que isso significa para inovações como a coleta de água no deserto?

Model

Significa que a próxima geração de descobertas pode vir de Pequim em vez de Berkeley. E que as aplicações comerciais podem ser desenvolvidas na China, não nos EUA.

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