Lula segue um caminho deliberadamente independente
A vitória do candidato direitista Abelardo de la Espriella na Colômbia, com o respaldo declarado de Donald Trump, aprofunda uma reconfiguração silenciosa do mapa político sul-americano. O continente se divide entre líderes que gravitam em torno de Washington — Milei, Noboa, Kast, Peña e Paz — e aqueles, como Lula, que resistem a essa órbita com deliberada independência. O que emerge não é apenas uma disputa ideológica, mas uma nova geometria de poder que redesenha alianças comerciais, de segurança e de soberania em toda a região.
- A eleição colombiana confirma uma tendência: Trump está construindo ativamente uma rede de aliados direitistas na América do Sul, país por país.
- A tensão entre Lula e Trump escalou publicamente no G7, com acusações mútuas e a palavra 'volátil' lançada como provocação diplomática.
- Milei é o elo mais íntimo dessa rede — viagens a Mar-a-Lago, presença em eventos conservadores nos EUA e um empréstimo de 20 bilhões de dólares que salvou sua agenda política.
- Países como Bolívia e Venezuela navegam esse novo alinhamento de forma pragmática e frágil, pressionados por crises internas e pela sombra do poder norte-americano.
- A divisão geopolítica se consolida: de um lado, líderes que veem em Trump um aliado estratégico; do outro, o Brasil de Lula, que insiste em não se subordinar a nenhuma potência.
Abelardo de la Espriella venceu a eleição presidencial colombiana no dia 21 de junho, derrotando o esquerdista Iván Cepeda com o apoio declarado de Donald Trump. O resultado, ainda aguardando confirmação oficial, marca um novo capítulo na expansão da influência do presidente norte-americano no continente sul-americano.
Com De la Espriella, Trump consolida um bloco de aliados que já incluía Javier Milei, na Argentina, e Daniel Noboa, no Equador. O mapa, porém, não é uniforme. Enquanto Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia e Chile demonstram graus variados de alinhamento com Washington, o presidente brasileiro Lula mantém uma postura deliberadamente independente — o que o coloca em rota de colisão com Trump. A tensão ficou exposta no G7: Trump criticou o cenário eleitoral brasileiro, Lula pediu que ele não se intrometesse, e Trump respondeu chamando o petista de 'muito volátil'.
Milei é o aliado mais próximo de Trump na região. Suas visitas a Mar-a-Lago, sua presença em eventos da direita conservadora americana e o empréstimo de 20 bilhões de dólares concedido por Washington em 2025 — que ajudou o argentino a vencer eleições legislativas — ilustram a profundidade dessa relação. Noboa, por sua vez, buscou o apoio de Trump na luta contra o crime durante sua campanha de reeleição e não descartou a volta de bases militares estrangeiras ao Equador.
No Paraguai, Santiago Peña participou do 'Conselho da Paz' de Trump, iniciativa que se reuniu uma única vez antes de ser eclipsada pela guerra envolvendo EUA e Israel. Na Bolívia, Rodrigo Paz chegou ao poder em novembro de 2025, encerrando duas décadas de esquerda, e recebeu o apoio explícito de Washington quando protestos ameaçaram sua gestão. No Chile, José Antonio Kast chega ao poder com plataforma ideológica próxima à de Trump — combate à imigração ilegal, valores conservadores e até a proposta de um muro na fronteira com a Bolívia.
A Venezuela ocupa um lugar à parte nesse tabuleiro. Com Nicolás Maduro sequestrado por uma operação militar americana e aguardando julgamento em Nova York, o regime interino de Delcy Rodríguez tem feito acenos pragmáticos a Washington — acordos de petróleo, libertação de presos políticos — sem declarar alinhamento formal. É uma aliança de sobrevivência, não de convicção.
O que se desenha na América do Sul é uma nova geometria de poder, onde a proximidade com Trump define não apenas posições diplomáticas, mas também acesso a crédito, segurança e legitimidade política — enquanto o Brasil de Lula insiste em trilhar um caminho próprio.
Abelardo de la Espriella venceu a eleição presidencial colombiana no domingo, dia 21 de junho, segundo dados preliminares da autoridade eleitoral do país. O candidato de direita derrotou o esquerdista Iván Cepeda nas urnas, com o apoio declarado de Donald Trump. Embora o resultado ainda aguarde confirmação oficial, a vitória marca um momento significativo na reconfiguração do mapa político sul-americano — e na expansão da influência do presidente norte-americano no continente.
Com a vitória de De la Espriella, Trump agora conta com uma rede crescente de aliados direitistas na América do Sul. Javier Milei, na Argentina, e Daniel Noboa, no Equador, já formavam esse núcleo de apoiadores. Mas o cenário não é uniforme. Enquanto mandatários de Argentina, Paraguai e Equador demonstram um alinhamento quase automático com Washington, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva segue um caminho deliberadamente independente — uma postura que o coloca frequentemente em rota de colisão com Trump.
Essa divisão ficou evidente durante o encontro do G7 na semana anterior. Trump criticou o cenário eleitoral brasileiro, e Lula respondeu em discurso pedindo que o republicano não se intrometesse nas eleições do país. Trump retrucou em entrevista, descrevendo Lula como "muito volátil". O tom das trocas revela uma tensão geopolítica real, não meramente retórica.
Milei é talvez o aliado mais próximo de Trump entre os presidentes sul-americanos. O argentino fez diversas viagens a Mar-a-Lago, a residência particular de Trump, e participa regularmente de eventos que reúnem a direita conservadora nos Estados Unidos. Em 2025, Trump liberou um empréstimo de 20 bilhões de dólares como socorro financeiro à Argentina após encontro oficial entre os dois. O alívio fiscal ajudou Milei a conquistar uma vitória inesperada nas eleições legislativas daquele ano.
Noboa, do Equador, mantém uma relação mais pragmática com Trump. Durante a reta final de sua campanha de reeleição em 2025, buscou apoio do norte-americano na luta contra o crime e não descartou a volta de bases militares estrangeiras — proibidas por lei no país. Santiago Peña, do Paraguai, foi um dos convidados a participar do "Conselho da Paz", iniciativa de Trump para criar uma organização paralela à ONU. Peña elogiou Trump e agradeceu por "trazer esperança novamente". O Conselho se reuniu uma única vez e foi deixado de lado após o início da Guerra do Irã envolvendo os EUA e Israel.
Rodrigo Paz assumiu a presidência da Bolívia em novembro de 2025, encerrando duas décadas de governo de esquerda. Recebeu parabéns de Trump e declarou que haveria "uma relação fluida e compromissos de cooperação" entre as duas nações. Paz enfrenta protestos generalizados devido à crise econômica persistente. Em maio, a Casa Branca reforçou seu apoio quando o vice-secretário de Estado Christopher Landau afirmou que as manifestações seriam "um golpe financiado por uma aliança perigosa entre política e crime organizado".
José Antonio Kast, presidente eleito do Chile, possui grande afinidade ideológica com Trump, embora sem a relação pessoal próxima que existe com Milei. Kast foi comparado ao republicano desde sua primeira candidatura em 2021. Chegou ao Palácio de la Moneda com plataforma similar, prometendo combater a imigração ilegal e até propondo a construção de um muro na fronteira com a Bolívia. Seus pontos de convergência com Trump incluem crítica ao progressismo, defesa de valores conservadores, oposição a governos de esquerda na região e crítica ao multilateralismo tradicional.
Na Venezuela, Delcy Rodríguez assumiu o poder como presidente interina após uma operação militar dos EUA sequestrar Nicolás Maduro e levá-lo para Nova York, onde aguarda julgamento. Desde então, o regime venezuelano tem assinado acordos de exploração de petróleo e feito acenos diplomáticos a Washington, como a libertação de presos políticos, tudo sem manifestação explícita de alinhamento. A aliança, neste caso, é pragmática e contida.
Citações Notáveis
Teremos uma relação fluida e compromissos de cooperação e trabalho conjunto entre as duas nações— Rodrigo Paz, presidente da Bolívia, ao receber parabéns de Trump
Não se metesse nas eleições brasileiras— Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso durante encontro do G7
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a vitória na Colômbia importa tanto para Trump neste momento?
Porque ele está consolidando uma maioria de direita no continente. Não é apenas sobre ganhar eleições — é sobre ter presidentes que falam a mesma linguagem política, que veem Washington como aliado natural.
Mas Lula está ali, no Brasil, dizendo não. Como Trump lida com isso?
Com frustração, aparentemente. Ele chama Lula de volátil, critica suas políticas. Mas Lula não pisca. Ele tem um país grande, uma economia relevante, e não precisa de Trump da forma que Milei precisa.
Milei parece diferente dos outros aliados. Por quê?
Porque ele é ideológico e pessoal ao mesmo tempo. Não é apenas pragmatismo — ele acredita no que Trump acredita. Os outros calculam. Milei venera.
E quanto aos protestos na Bolívia? Paz está frágil?
Muito. A economia está em colapso, as ruas estão em ebulição. Quando a Casa Branca sai dizendo que os protestos são financiados por crime organizado, está tentando dar legitimidade a um governo que está perdendo o chão.
Kast no Chile é diferente também?
Sim. Ele tem a ideologia, mas não tem a relação pessoal. É como admirar alguém de longe versus ser seu amigo. Kast quer ser visto como aliado, mas não está em Mar-a-Lago tomando café com Trump.
E a Venezuela? Aquilo é uma aliança de verdade?
Não. É submissão disfarçada de pragmatismo. Maduro foi sequestrado, levado para Nova York. Agora Delcy assina acordos de petróleo e liberta presos políticos. Não há escolha ali.