Poupança sobe para 2,98% ao ano com Selic em 4,25%, mas segue perdendo para inflação

Brasileiros já retiraram R$ 23,6 bilhões da poupança entre janeiro e maio de 2021, refletindo perda de poder de compra das famílias.
Há nove meses que a caderneta vem comendo poeira enquanto os preços sobem
A poupança acumula nove meses consecutivos de perda de poder de compra, com retorno real de -6% em maio.

Rendimento da poupança sobe de 2,45% para 2,98% ao ano com a terceira alta consecutiva da Selic, beneficiando novos depósitos. Mesmo com aumento, poupança segue perdendo para inflação de 8,06% em 12 meses, com retorno real de -6% em maio, o pior desde 1991.

  • Poupança sobe de 2,45% para 2,98% ao ano com Selic em 4,25%
  • Inflação oficial em 12 meses é de 8,06%, enquanto retorno real da poupança é de -6% em maio
  • Brasileiros sacaram R$ 23,6 bilhões da poupança entre janeiro e maio de 2021
  • Poupança velha (pré-abril de 2012) rende 6,17% ao ano; poupança nova rende 2,98%

Com a Selic elevada para 4,25% ao ano, a poupança passa a render 2,98% anualmente, mas continua perdendo poder de compra há nove meses consecutivos, acumulando queda real de -6% em maio.

A caderneta de poupança, a aplicação financeira mais tradicional do Brasil, acaba de ficar um pouco menos ruim. Com a decisão do Banco Central de elevar a taxa Selic para 4,25% ao ano na quarta-feira, o rendimento mensal da poupança subiu de 0,20% para 0,25%, o que significa um ganho anual de 2,98% em vez dos anteriores 2,45%. Para quem aplicar dez mil reais por um ano inteiro, a diferença é de cinquenta e três reais a mais. Não é nada de especial, mas é algo.

O problema é que esse algo continua sendo insuficiente. A inflação oficial do país atingiu 8,06% nos últimos doze meses, e em maio especificamente, quando se desconta a inflação do rendimento da poupança, o resultado é uma perda de poder de compra de 6%. Esse é o pior desempenho real da poupança desde outubro de 1991, quando os poupadores perderam 9,72% em um ano. Há nove meses seguidos que a caderneta vem comendo poeira enquanto os preços sobem.

A Selic foi elevada pela terceira vez consecutiva nesta semana, confirmando o que o mercado já esperava. Desde que a taxa estava em 3,5%, o Banco Central tem tentado frear a inflação aumentando gradualmente os juros básicos da economia. Mas a poupança, por uma regra que existe desde 2012, só recebe 70% do que a Selic oferece quando ela fica abaixo de 8,5%. É um sistema que protege os bancos mais do que protege quem poupa.

Os números revelam o tamanho do problema. Entre janeiro e maio deste ano, os brasileiros já sacaram 23,6 bilhões de reais da poupança. Não é coincidência. Quando você vê seu dinheiro perder valor todo mês, a tentação de tirar dele e gastar fica irresistível. Os economistas do mercado financeiro agora projetam uma inflação de 5,82% para todo o ano de 2021, acima do teto da meta do governo, que é 5,25%. E eles esperam que a Selic chegue a 6,25% até o final do ano, o que significa mais aumentos de juros pela frente.

Há uma ressalva importante: quem tinha dinheiro na poupança antes de abril de 2012, na chamada poupança velha, continua recebendo 0,50% ao mês, o que dá 6,17% ao ano. Esses poupadores estão em uma situação bem melhor, embora também estejam perdendo para a inflação. Mas a maioria dos brasileiros está na poupança nova, aquela que rende menos.

A elevação da Selic também beneficia outras formas de investimento em renda fixa. Títulos públicos vendidos pelo Tesouro Direto, certificados de depósito bancário, letras de crédito imobiliário e do agronegócio, todos esses instrumentos tendem a ficar mais atraentes com juros mais altos. Ainda assim, a poupança mantém uma vantagem: não há imposto de renda sobre os rendimentos e não há taxa de administração. Um investimento em CDB, por exemplo, precisaria render 85% do CDI para oferecer a mesma rentabilidade líquida da poupança depois dos impostos.

O cenário que se desenha é de uma economia em aperto. A inflação segue alta, os juros continuam subindo, e quem tem dinheiro guardado na poupança vê seu poder de compra encolher mês após mês. A elevação de 0,05 pontos percentuais no rendimento mensal é um gesto, mas não é uma solução. Os próximos meses prometem mais aumentos de juros, e a questão que fica é se eles serão suficientes para que a poupança deixe de ser um investimento que faz você ficar mais pobre.

Em maio, o retorno em 12 meses, descontada a inflação, foi de -6%, o pior rendimento real da poupança desde outubro de 1991
— Economatica, provedora de informações financeiras
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a poupança continua perdendo para a inflação mesmo com a Selic subindo?

Model

Porque a regra que existe desde 2012 limita o rendimento da poupança a apenas 70% da Selic quando ela fica abaixo de 8,5%. É um sistema que protege as margens dos bancos. A poupança recebe migalhas enquanto a inflação devora o poder de compra.

Inventor

Então por que as pessoas não saem da poupança em massa?

Model

Muitas estão saindo. Vinte e três bilhões e seiscentos milhões de reais foram sacados entre janeiro e maio. Mas a poupança ainda tem vantagens: sem imposto de renda, sem taxa de administração. Para quem não quer correr risco, é difícil encontrar algo melhor.

Inventor

A poupança velha rende mais. Por que o governo criou a poupança nova?

Model

A poupança velha rendia 0,50% ao mês fixo, o que era muito generoso para os bancos quando os juros caíram. A poupança nova foi criada para proteger os bancos dessa generosidade. Quem tinha dinheiro lá antes de 2012 ficou com a vantagem, mas novos depósitos entram na poupança nova, que rende menos.

Inventor

Se a Selic chegar a 6,25% no final do ano, a poupança vai parar de perder para a inflação?

Model

Improvável. Os economistas projetam inflação de 5,82% para 2021, e isso é só a previsão. Se a inflação continuar acelerada, a poupança seguirá perdendo. Mesmo que a Selic suba mais, a regra dos 70% garante que a poupança sempre fica para trás.

Inventor

Qual é a alternativa para quem não quer correr risco?

Model

Títulos do Tesouro Direto, CDB, letras de crédito. Todos vão render mais com a Selic mais alta. Mas exigem mais conhecimento, têm imposto de renda, às vezes têm taxa de administração. A poupança é simples, acessível, segura. É por isso que continua sendo a aplicação mais popular do país, mesmo perdendo.

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