Antes e depois: os locais marcados pelo acidente com Césio-137 em Goiânia

O acidente causou contaminação de aproximadamente 112 mil pessoas submetidas a triagem, com vítimas fatais enterradas em caixões de chumbo e sobreviventes enfrentando estigma social duradouro.
Um pó brilhava em azul radioativo no escuro
O momento em que a cápsula de Césio-137 foi aberta no ferro-velho, liberando o material que contaminaria a cidade.

Em setembro de 1987, Goiânia tornou-se palco do maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear, quando um aparelho de radioterapia abandonado liberou Césio-137 por bairros inteiros da capital goiana. Quase quatro décadas depois, a cidade carrega em sua geografia as marcas desse evento — alguns locais foram reconstruídos e devolvidos à vida cotidiana, enquanto outros permanecem como vazios proibidos, testemunhos silenciosos de uma tragédia que contaminou corpos, espaços e memórias. A reportagem percorre esses lugares para mostrar o que o tempo e a descontaminação transformaram — e o que ainda não puderam apagar.

  • Um pó que brilhava em azul no escuro espalhou-se por casas, ferro-velhos e espaços públicos antes que alguém compreendesse o perigo invisível que carregava.
  • Cerca de 112 mil pessoas foram submetidas a triagem no Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, enquanto o pânico e o estigma social se espalhavam tão rápido quanto a contaminação.
  • Demolições, remoção de solo e isolamento de áreas inteiras foram as respostas emergenciais de um país que aprendia, em tempo real, a lidar com um desastre sem precedentes em solo urbano.
  • Décadas de monitoramento contínuo no aterro de rejeitos radioativos em Abadia de Goiás revelam que a descontaminação é um processo que não tem data de encerramento.
  • Terrenos proibidos para construção e espaços permanentemente abandonados no coração da cidade funcionam hoje como cicatrizes cartográficas de um evento que a memória urbana recusa-se a deixar desaparecer.

Em setembro de 1987, um aparelho de radioterapia esquecido em uma clínica desativada no Centro de Goiânia desencadeou o maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear. Catadores de sucata, atraídos pelo valor do chumbo, levaram partes do equipamento para um ferro-velho no Setor Aeroporto. Quando a cápsula foi aberta, um pó brilhava em azul no escuro. Ninguém sabia o que era. A contaminação por Césio-137 já havia começado.

O rastro radioativo atravessou bairros inteiros. O ferro-velho de Devair Ferreira, epicentro da abertura da cápsula, foi demolido e seu solo removido — e permanece abandonado até hoje, com construções proibidas. O mesmo destino teve a casa do catador Roberto Santos Alves, primeiro endereço para onde o aparelho foi levado. O antigo Instituto Goiano de Radioterapia, origem de tudo, foi completamente destruído; no terreno descontaminado, ergueu-se o Centro de Convenções de Goiânia.

O Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira foi convertido em centro de triagem emergencial, onde aproximadamente 112 mil pessoas passaram por exames de radiação. As vítimas fatais foram enterradas em caixões de chumbo no Cemitério Municipal Parque, sob o peso do medo e do estigma que marcariam os sobreviventes por décadas.

Todo o material contaminado — solos, móveis, escombros — foi transportado para um aterro de rejeitos radioativos em Abadia de Goiás, que permanece sob monitoramento permanente. Alguns espaços de Goiânia foram reconstruídos e devolvidos à cidade. Outros continuam como vazios urbanos: lembretes de que a descontaminação pode ser rigorosa, mas a memória, essa, não se remove.

Em setembro de 1987, Goiânia vivenciou o maior desastre radiológico fora de uma usina nuclear. Tudo começou de forma quase banal: um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada no Centro da cidade. Ninguém havia percebido que o equipamento ainda continha Césio-137 em seu interior. Catadores de sucata, atraídos pelo valor do chumbo, removeram partes do aparelho e o levaram para um ferro-velho. Ali, a cápsula foi aberta. Um pó brilhava em azul radioativo no escuro. Ninguém sabia o que era.

O que se seguiu foi um rastro de contaminação que se espalhou por diversos bairros da capital goiana. O material radioativo passou por casas, ferro-velhos, espaços públicos. Deixou marcas que, quase quatro décadas depois, ainda fazem parte da memória urbana de Goiânia. Alguns desses locais foram completamente transformados. Outros permanecem como cicatrizes da cidade.

O antigo Instituto Goiano de Radioterapia, na Avenida Paranaíba, funcionava até 1985. Quando foi desativado, o prédio foi parcialmente demolido e abandonado, mas o aparelho permaneceu lá dentro. Após o acidente, o imóvel foi totalmente destruído. O terreno passou por um rigoroso processo de descontaminação. Hoje, nada resta da antiga estrutura. No lugar, foi construído o Centro de Convenções de Goiânia.

O ferro-velho de Devair Ferreira, no Setor Aeroporto, tornou-se um dos pontos mais contaminados do acidente. Foi ali que a cápsula foi aberta, liberando o pó radioativo. A área precisou ser isolada, demolida e teve o solo removido. Apesar de descontaminado e sem sinais aparentes do ocorrido, o espaço permanece abandonado. Construções no local seguem proibidas até hoje. A casa do catador Roberto Santos Alves, primeira residência onde o equipamento foi levado para desmontagem, também foi demolida. O solo, os móveis e os objetos foram removidos como rejeito radioativo. O terreno passou por descontaminação profunda. Permanece abandonado, com construções proibidas.

O Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, a principal praça esportiva da cidade, foi transformado em centro de triagem após a descoberta da contaminação. Aproximadamente 112 mil pessoas passaram por exames de radiação ali para identificar quem havia sido contaminado. Hoje, segue como espaço esportivo, mas é lembrado como ponto-chave da resposta emergencial ao desastre.

No Cemitério Municipal Parque, as vítimas foram enterradas em caixões de chumbo, sob forte comoção e medo da população. O local se tornou símbolo do impacto social e do estigma causado pela radiação. A Vigilância Sanitária, no Setor Aeroporto, foi para onde a cápsula foi levada, permitindo a descoberta do acidente. A partir desse momento, iniciou-se a operação de contenção e isolamento das áreas contaminadas.

Todo o material contaminado — casas demolidas, solo, objetos — foi levado para um aterro de rejeitos radioativos em Abadia de Goiás, na BR-060, quilômetro 174. O local permanece sob monitoramento até hoje. Alguns espaços da cidade foram reconstruídos e voltaram à vida. Outros permanecem como vazios urbanos, lembretes de um acidente que marcou Goiânia para sempre. A descontaminação foi rigorosa, mas a memória permanece.

O local se tornou símbolo do impacto social e do estigma causado pela radiação
— Sobre o Cemitério Municipal Parque, onde vítimas foram enterradas em caixões de chumbo
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que alguns locais foram completamente reconstruídos enquanto outros permanecem abandonados?

Model

A diferença está no valor econômico e na viabilidade de reuso. O terreno da clínica virou um centro de convenções porque havia demanda. Mas o ferro-velho e a casa do catador não tinham perspectiva de aproveitamento. Deixá-los vazios é, de certa forma, mais seguro que arriscar novos usos.

Inventor

E as pessoas que viviam nessas casas? Para onde foram?

Model

Foram deslocadas. Suas casas foram demolidas, seus pertences removidos como rejeito radioativo. Alguns receberam indenizações, mas a vida que tinham foi interrompida. O estigma social foi tão forte quanto a contaminação física.

Inventor

Como é possível que 112 mil pessoas tenham passado por triagem em um estádio?

Model

Foi uma operação de emergência. O governo precisava identificar rapidamente quem havia sido exposto. O estádio era o único espaço grande o suficiente. Depois, voltou a ser estádio, mas ninguém esquece o que aconteceu ali.

Inventor

O aterro de rejeitos ainda está sob monitoramento. Isso significa que o perigo não acabou?

Model

Não exatamente. É monitoramento de rotina, precaução. Mas sim, o Césio-137 tem meia-vida de 30 anos. Ainda há radiatividade lá. Será monitorado por décadas.

Inventor

A cidade conseguiu se recuperar?

Model

Fisicamente, sim. Mas emocionalmente? Há cicatrizes que não desaparecem. Os sobreviventes ainda enfrentam estigma. A memória urbana carrega o acidente. Goiânia se reconstruiu, mas nunca esqueceu.

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