Quando as coisas complicarem, vou precisar de você
Vata passou noite sem dormir com telefone a tocar constantemente, recebendo insultos e até ameaça de morte de adeptos franceses após o polémico golo. O avançado angolano insiste que meteu o ombro na bola ao tentar libertar-se da marcação de Di Meco, negando qualquer vantagem em mentir sobre o lance 34 anos depois.
- Vata marcou aos 83 minutos na segunda mão das meias-finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1989/90
- Recebeu insultos e ameaças de morte de adeptos franceses após o golo polémico
- Atualmente com 63 anos, vive na Austrália e dá aulas de futebol
- Benfica e Marselha defrontam-se novamente na Liga Europa em 2024
Antigo futebolista angolano Vata relata ter recebido insultos e ameaças após marcar golo com braço ao Marselha em 1990, mantendo 34 anos depois que não houve ilegalidade no lance.
Há 34 anos, uma noite em abril de 1990 roubou o sono a Vata. O avançado angolano estava em casa quando o telefone começou a tocar — uma vez, outra, outra ainda. Pessoas que de alguma forma tinham descoberto o seu número não paravam de ligar. Insultavam-o. Um adepto francês foi além das palavras: disse-lhe que, se soubesse onde ele morava, podia disparar contra ele. Tudo porque Vata tinha marcado um golo ao Marselha no Estádio da Luz, um golo que ainda hoje divide opiniões e que o próprio nunca deixou de defender.
Era a segunda mão das meias-finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus. O Benfica tinha perdido em França por 2-1 e precisava de vencer em casa. Aos 83 minutos, Vata apareceu para marcar. As imagens mostram o que parecia ser um braço — ou um ombro, como ele insiste em dizer. O golo foi dado. O Benfica apurou-se para a final. O Marselha, um clube que sonhava com a glória europeia, viu-se eliminado por um lance que ainda hoje gera controvérsia.
Agora com 63 anos, radicado na Austrália onde dá aulas de futebol, Vata não vê razão para mudar a sua versão dos factos. "Quando o Valdo bateu o canto, o Di Meco estava agarrado a mim, nas minhas costas. Eu não tinha outro jeito, tinha de meter o ombro", explica. A lógica é simples: porque mentiria agora? Que ganharia com isso? Nada. O que o antigo internacional reconhece é que a importância do jogo, a relevância que tinha para o Marselha e as declarações polémicas do então presidente Bernard Tapie criaram uma tempestade que nunca acalmou completamente.
Mas havia mais pressão naquele dia. Mozer, um defesa central brasileiro que tinha sido companheiro de Benfica e se tinha transferido para o Marselha, confrontou Vata logo quando este entrou em campo. Deu-lhe uma chapada e, juntamente com Franck Sauzée, apertou-o, dizendo-lhe que não vinha ali para estragar a festa. Vata não se deixou intimidar. Sven-Göran Eriksson, o treinador, tinha-lhe dito pouco antes que contava com ele quando as coisas se complicassem. Vata já tinha marcado ao Marselha nesse ano, num particular pela transferência de Mozer. Sabia que podia fazer a diferença.
A vida seguiu. O Benfica perdeu a final com o AC Milan. Vata continuou a sua carreira, representando o clube entre 1988 e 1991. Décadas depois, mudou-se para Melbourne, onde acompanha o crescimento dos filhos e segue os jogos do Benfica sempre que consegue, apesar da diferença horária de dez horas. Quando o Benfica e o Marselha se encontram novamente — e encontram-se, porque o futebol europeu tem destas coincidências — Vata vê uma oportunidade para que a história se repita de forma diferente.
O Marselha tem um trauma, acredita ele. Já perdeu para o Benfica nos quartos de final da Liga Europa em 2009/10. Agora, em 2024, defrontam-se novamente, com a primeira mão no Estádio da Luz. Vata está convencido: "O Benfica vai passar. O Marselha tem um trauma. Já no Estádio da Luz, eles não vão ter sossego." Prevê que o resultado de casa será decisivo, que o Benfica tem 60 ou 70% de probabilidade de vencer a eliminatória. Os franceses tentarão vingar-se, mas o passado pesa. E talvez seja esse o verdadeiro golo de Vata — não apenas o que marcou em 1990, mas a forma como continua a viver naquela noite, naquele lance, naquele telefone que não parava de tocar.
Notable Quotes
Não sei aonde que as pessoas descobriram o meu número de telefone. A chatear-me, a insultar-me. Um [adepto francês] disse que se soubesse onde eu morava, podia-me dar um tiro.— Vata, em entrevista à agência Lusa
Quando o Valdo bateu o canto, e antes de a bola chegar onde eu estava, o Di Meco estava a agarrar-me. Eu não tinha outro jeito, eu tinha de meter o ombro.— Vata, explicando o lance do golo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que acha que as pessoas ainda falam deste golo 34 anos depois?
Porque foi um momento que mudou tudo. Não era só um golo — era uma eliminatória, era um sonho europeu para o Marselha que desapareceu num segundo. Quando algo assim acontece, fica gravado.
Mas você diz que meteu o ombro, não o braço. Como é que consegue estar tão certo disso agora?
Porque estava lá. Senti o Di Meco a agarrar-me, senti o movimento que fiz para me libertar. Não preciso de mentir sobre isto — o que ganharia? A verdade é que ninguém quer ouvir a verdade quando o seu clube foi eliminado.
As ameaças de morte — como é que isso o afectou?
Naquela altura, era assustador. Mas também percebi que era a paixão pelo futebol. As pessoas estavam feridas. Eu tinha ferido o seu clube. Isso é futebol europeu.
Mozer, o seu antigo companheiro, deu-lhe uma chapada quando entrou em campo.
Sim. Ele estava do outro lado agora. Tinha de defender o Marselha. Mas falei com ele depois, já há pouco tempo. Entendemos-nos. No futebol, as coisas são assim.
Acredita mesmo que o Benfica vai eliminar o Marselha novamente?
Tenho a certeza. O Marselha carrega aquele jogo consigo. Quando chegam ao Estádio da Luz, já estão derrotados na cabeça. O Benfica tem isso a seu favor.