O improviso mata. Ninguém sabe quando virá o sismo, mas sabemos que é evitável sofrer.
Sobre uma das regiões sísmicas mais ativas da Europa, Portugal continua a viver como se o tempo fosse infinito. Adalberto Campos Fernandes, coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde, alertou esta semana em Almada que um grande sismo na Grande Lisboa e no Algarve não é hipótese, mas certeza adiada — e que os modelos preditivos apontam para um número de mortes que a preparação poderia evitar. O que está em causa não é apenas a engenharia dos edifícios, mas a arquitetura moral de um Estado que ainda prefere improvisar a planear.
- Portugal enfrenta risco sísmico elevado e iminente em duas das suas regiões mais populosas, com modelos matemáticos a preverem um número significativo de mortes evitáveis.
- O país inverte a lógica dos países mais resilientes: gasta 10% do esforço a planear e 90% a improvisar quando a crise já chegou — um padrão que, segundo o especialista, literalmente mata.
- A pandemia revelou as fragilidades da cooperação interinstitucional portuguesa, mostrando que hospitais bem equipados e bombeiros treinados não chegam se o Estado não funcionar como organismo coeso.
- O modelo japonês surge como referência urgente: cidadãos que não esperam um SMS de alerta, mas que aprenderam, praticaram e interiorizaram a autoproteção como parte da vida quotidiana.
- O apelo é triplo e sem margem para ambiguidade: Estado inteligente e antecipador, instituições sem rivalidades, e população transformada em agente ativo da sua própria sobrevivência.
Portugal está assente sobre uma falha sísmica que pode despertar sem aviso. Foi com esta clareza que Adalberto Campos Fernandes, coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde e ex-ministro da Saúde, se dirigiu esta semana a uma conferência em Almada organizada pela CNN Portugal em parceria com a Egas Moniz School of Health & Science. A mensagem era direta: um grande sismo atingirá a Grande Lisboa e o Algarve. Os modelos matemáticos não dizem quando, mas dizem que será devastador — e que muitas das mortes previstas são evitáveis.
O problema, na visão de Campos Fernandes, não é apenas de infraestruturas. É de cultura de governação. Enquanto países anglo-saxónicos e nórdicos investem 90% do esforço em planeamento e apenas 10% em execução, Portugal faz o inverso: planeia pouco e improvisa muito. Quando chega uma crise real — um sismo, uma vaga de calor, um incêndio de grande escala — esse improviso converte-se em vidas perdidas.
A pandemia deixou uma lição que o coordenador considera ainda por aprender: a necessidade de cooperação interinstitucional genuína, de uma cadeia de comando clara e de governação capaz de unir sem fronteiras ideológicas. Não basta que os hospitais estejam preparados ou que os bombeiros tenham equipamento. O Estado inteiro tem de funcionar como um organismo coeso, sem desperdiçar energia em recriminações enquanto a crise decorre.
O elemento que Campos Fernandes considera mais crítico é, porém, a população. O Japão oferece aqui o modelo: não um governo que distribui informação em gotas, mas uma sociedade onde cada cidadão aprendeu, praticou e interiorizou a autoproteção. Em Portugal, a população continua a ser tratada como destinatária passiva de alertas de última hora. O apelo final é de responsabilidade partilhada: que o Estado planeie com inteligência, que as instituições cooperem sem rivalidades, e que os cidadãos sejam envolvidos como agentes ativos da sua própria proteção — enquanto ainda há tempo de paz para o fazer.
Portugal está sentado sobre uma falha sísmica que pode despertar a qualquer momento. É assim que Adalberto Campos Fernandes, coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde, descreve a situação do país — não como metáfora, mas como realidade geológica. Numa conferência realizada esta quinta-feira em Almada, organizada pela CNN Portugal em parceria com a Egas Moniz School of Health & Science, o médico e ex-ministro da Saúde foi direto: Portugal enfrentará um grande sismo na Grande Lisboa e no Algarve. Ninguém sabe quando. Os modelos matemáticos preditivos indicam que será devastador. Mas há uma boa notícia embutida nesta previsão sombria — o número de mortes que esses modelos apontam é evitável, se o país se preparar agora.
O que Campos Fernandes defende não é apenas reforço de infraestruturas ou protocolos de emergência. Ele fala de um Estado resiliente, algo muito mais amplo e exigente do que eficácia setorial. A resiliência, na sua visão, depende da capacidade de mobilizar a inteligência estratégica de um país, de aprender com quem fez melhor — e aqui aponta para o Japão como referência incontornável. Um país que vive com risco sísmico constante e que transformou esse risco numa oportunidade de construir uma sociedade preparada.
O problema português, segundo o coordenador, está na forma como o país planeia e executa. Os países anglo-saxónicos e nórdicos investem 90% do tempo em planeamento e apenas 10% em execução. Portugal faz o inverso: gasta 10% a planear e depois 90% a improvisar. O improviso, diz Campos Fernandes, mata. Não literalmente em todos os casos, mas quando chega uma crise real — um sismo, uma onda de calor, um incêndio em larga escala — a falta de preparação transforma-se em vidas perdidas.
Durante a sua intervenção, o médico insistiu que a pandemia deixou uma lição valiosa: a necessidade de cooperação entre instituições, de uma cadeia de comando clara, de governação eficaz e de união política sem fronteiras ideológicas. Não é suficiente que os hospitais estejam preparados ou que os bombeiros tenham equipamento. É preciso que o Estado inteiro funcione como um organismo coeso, capaz de adaptar respostas em tempo real, de não culpabilizar os operacionais que trabalham em condições de esforço extremo, de não desperdiçar energia em recriminações quando a crise está em curso.
Mas há um elemento que Campos Fernandes considera ainda mais crítico: a população. Não pode haver país que sobreviva a um risco major se os cidadãos forem mantidos na ignorância e receberem apenas um SMS no momento da catástrofe. O modelo japonês oferece uma lição diferente. No Japão, cada cidadão é, de facto, um especialista em autoproteção e em proteção da comunidade. Não porque o governo seja paternalista e distribua informação em gotas, mas porque há um investimento sistemático em educação, em treino, em capacitação. As pessoas sabem o que fazer porque aprenderam, praticaram, interiorizaram.
O apelo de Campos Fernandes é, portanto, triplo: que o Estado se prepare com inteligência e tempo; que as instituições trabalhem em conjunto sem rivalidades; que a população seja envolvida como agente ativo da sua própria proteção. Não é um apelo para o pânico. É um apelo para a responsabilidade. Os modelos matemáticos dizem que um grande sismo virá. Dizem também que muitas das mortes que preveem são evitáveis. A questão que fica é se Portugal conseguirá fazer em tempo de paz o que deveria ter feito há anos: planear, capacitar, unir-se.
Citas Notables
Nós vamos ter um grande sismo na Grande Lisboa e no Algarve, só não sabemos quando— Adalberto Campos Fernandes, coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde
Não há país que sobreviva ao risco se a população for tratada com o mínimo de informação e no momento da crise receber um SMS— Adalberto Campos Fernandes
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Quando ele diz que Portugal vive "em cima de um barril de pólvora", está a falar de certeza ou de probabilidade?
De certeza geológica. A falha sísmica existe, está documentada. O que é incerto é o momento. Os modelos dizem que virá, mas não dizem quando — pode ser amanhã ou daqui a 50 anos.
E por que é que o Japão é o exemplo que ele escolhe?
Porque o Japão vive com risco sísmico constante e transformou isso numa vantagem. Cada cidadão sabe o que fazer. Não é paternalismo, é educação sistemática. Eles gastam 90% do tempo a preparar-se.
Qual é o erro que Portugal comete?
Inverte a proporção. Gasta 10% a planear e 90% a improvisar quando a crise chega. O improviso mata porque não há tempo para pensar, para coordenar, para proteger quem precisa.
Ele fala de "modelos matemáticos preditivos". Quantas mortes é que esses modelos apontam?
Não diz o número específico. Mas diz que é grande e que é reduzível. Essa é a parte importante — não é um destino inevitável. É uma previsão que pode ser alterada com preparação.
O que mudou depois da pandemia?
Aprendemos que a cooperação funciona, que a cadeia de comando clara salva vidas, que a união política sem fronteiras ideológicas é possível quando há risco real. A questão é se conseguimos manter essa lição em tempo de paz.
E se nada mudar?
Então quando o sismo vier, Portugal responderá como sempre respondeu — com improviso, com culpabilização, com falta de coordenação. E muitas das mortes que eram evitáveis não serão.