A água lançada pelas aeronaves evapora antes de atingir o solo
No coração do verão norte-americano de 2021, o Vale da Morte registou 54,4°C — uma temperatura que coloca a Terra diante do espelho da sua própria transformação. O que poderia parecer um fenómeno isolado revela-se, afinal, parte de uma crise climática mais ampla: junho tornou-se o mês mais quente alguma vez registado na América do Norte, centenas de pessoas morreram, e os incêndios florestais recusam-se a ceder. A ciência e o sofrimento humano convergem aqui para uma mesma mensagem — o aquecimento global não é uma abstracção futura, mas uma realidade que já cobra o seu preço.
- O Vale da Morte atingiu 54,4°C, igualando o recorde de 2020 e colocando a América do Norte no centro de uma crise climática sem precedentes modernos.
- Quase 700 pessoas morreram no Canadá e nos EUA em poucos dias, a maioria idosos e sem-abrigo apanhados sem acesso a ar condicionado ou meios de protecção.
- Os incêndios florestais tornaram-se incontroláveis: o ar está tão seco que a água lançada por aeronaves evapora antes de tocar o solo, forçando evacuações em massa.
- Milhões de norte-americanos vivem sob avisos de calor extremo, enquanto meteorologistas alertam que o recorde de Las Vegas de 47,2°C pode ser ultrapassado nos próximos dias.
- Cientistas do Copérnico confirmam que estes extremos são consequência directa do aquecimento global, com junho de 2021 a superar em 1,2°C a média histórica da região.
O termómetro do Vale da Morte na Califórnia marcou 54,4 graus Celsius numa sexta-feira de julho de 2021, igualando o recorde de agosto de 2020 e colocando esta região desértica entre os lugares mais quentes alguma vez medidos no planeta. O registo histórico de 1913, que apontava para 56,7 graus, permanece contestado entre especialistas, deixando em aberto a questão do verdadeiro pico máximo já alcançado na Terra.
Mas o Vale da Morte era apenas o epicentro de uma onda de calor muito mais vasta. Cidades espalhadas pelos Estados Unidos e Canadá viram as temperaturas ultrapassar os 40 graus Celsius, com consequências mortais: quase 500 mortes no Canadá e cerca de 200 nos EUA, sobretudo em Oregon e Washington. A maioria das vítimas pertencia às camadas mais vulneráveis — idosos, pessoas sem abrigo, aqueles sem acesso a ar condicionado.
Este evento não surgiu isolado. Junho de 2021 tornou-se o mês mais quente alguma vez registado na América do Norte, superando o anterior recorde de junho de 2012 em 0,15 graus Celsius. O Serviço Europeu de Mudanças Climáticas Copérnico confirmou os dados e o seu director associou directamente estes extremos ao aquecimento global em curso.
No terreno, a situação era caótica. Os incêndios florestais tornaram-se incontroláveis — o ar estava tão seco que a água lançada por aeronaves evaporava antes de atingir o solo. Populações inteiras foram evacuadas no norte de Nevada devido a incêndios provocados por raios na região de Sierra Nevada. Os meteorologistas alertavam ainda que o recorde de Las Vegas de 47,2°C poderia ser ultrapassado em breve. O que começara como uma onda de calor transformara-se numa crise de saúde pública, ambiental e de segurança que expunha a fragilidade de milhões de pessoas e dos ecossistemas perante um planeta em acelerada transformação.
O termómetro do Vale da Morte na Califórnia marcou 54,4 graus Celsius na sexta-feira passada — uma leitura que iguala o recorde registado em Agosto de 2020 e que coloca esta região desértica entre os lugares mais quentes alguma vez medidos no planeta. Esperam-se temperaturas semelhantes durante o fim-de-semana. O registo de 1913, que apontava para 56,7 graus, permanece contestado entre especialistas do clima, deixando em aberto a questão de qual é verdadeiramente o pico máximo já alcançado na Terra.
Mas o Vale da Morte é apenas o epicentro de uma onda de calor muito mais vasta que está a devastar a América do Norte. Na semana anterior, cidades espalhadas pelos Estados Unidos e Canadá viram as temperaturas ultrapassar os 40 graus Celsius. O impacto foi mortal. No Canadá, quase 500 pessoas morreram. Nos Estados Unidos, as autoridades contabilizam quase 200 mortes: 116 pessoas em Oregon e 78 em Washington. A maioria das vítimas pertence às camadas mais vulneráveis da população — idosos, pessoas sem abrigo, aqueles sem acesso a ar condicionado ou sem meios para se protegerem do calor extremo.
Este evento não surge isolado. Apenas semanas antes, o Noroeste da América do Norte tinha sido atingido por outra onda de calor perigosa, e Junho de 2021 tornou-se o mês mais quente alguma vez registado na região desde que existem dados. O Serviço Europeu de Mudanças Climáticas Copérnico (C3S) confirmou que Junho excedeu a média do período 1991-2020 em 1,2 graus Celsius, ultrapassando o anterior recorde de Junho de 2012 em 0,15 graus. Carlo Buontempo, director do C3S, associou directamente este recorde à onda de calor observada no Canadá e em partes dos Estados Unidos, vendo nestes dados uma prova clara do aquecimento global em curso.
A situação no terreno é caótica. Milhões de norte-americanos estão sob aviso de calor excessivo. O Serviço Meteorológico Nacional aconselha as pessoas afectadas a beber muita água e a permanecerem em edifícios com ar condicionado — um conselho que deixa à margem todos aqueles que não têm acesso a essas condições. Os incêndios florestais que lavram a região tornaram-se ainda mais intratáveis. Os bombeiros relatam que o ar está tão seco que a água lançada pelas aeronaves para conter as chamas evapora antes mesmo de atingir o solo. No norte de Nevada, perto da fronteira com a Califórnia, populações inteiras foram retiradas das suas casas devido aos incêndios provocados por raios que atingiram a região florestal de Sierra Nevada.
Os meteorologistas prevêem que o recorde de Las Vegas de 47,2 graus Celsius também pode ser ultrapassado nos próximos dias. As previsões indicam que o calor extremo continuará a afectar os estados da Califórnia e do Nevada. O que começou como uma onda de calor tornou-se numa crise de saúde pública, ambiental e de segurança que expõe as vulnerabilidades de milhões de pessoas e a fragilidade dos ecossistemas perante temperaturas que o planeta raramente tinha experimentado.
Notable Quotes
Junho de 2021 excedeu a média do período 1991-2020 em 1,2°C, ficando 0,15°C acima do mês de Junho mais quente até agora para esta região, em 2012— Carlo Buontempo, director do Serviço Europeu de Mudanças Climáticas Copérnico
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que uma temperatura de 54,4 graus se traduz em morte para centenas de pessoas?
Não é apenas o número no termómetro. É o que acontece quando esse calor persiste durante dias, quando as pessoas não têm ar condicionado, quando os hospitais ficam sobrecarregados, quando o corpo simplesmente não consegue regular a sua temperatura interna. As mortes concentram-se nos mais velhos, nos sem-abrigo, naqueles que já estão frágeis.
Mas o Vale da Morte é um deserto. As pessoas não vivem lá, certo?
Correcto. O Vale da Morte é um lugar extremo onde se medem recordes. O verdadeiro problema está nas cidades — Portland, Seattle, Vancouver — onde centenas de pessoas morreram porque o calor foi inesperado, intenso e prolongado.
E os incêndios? Como é que o calor causa incêndios?
O calor extremo seca tudo. A vegetação torna-se combustível. Um raio é suficiente. E depois, quando os bombeiros tentam combater as chamas, a água evapora no ar antes de chegar ao fogo. É um ciclo que se alimenta a si mesmo.
Isto é aquecimento global a acontecer em tempo real?
Sim. Junho foi o mais quente registado. Os especialistas dizem que isto é consistente com as projecções do aquecimento global. Não é uma anomalia — é uma tendência.
O que é que as pessoas podem fazer?
As autoridades aconselham água e ar condicionado. Mas isso pressupõe que as pessoas têm acesso a essas coisas. A verdade é que muitas não têm.