Quando a paciente não é vista, o diagnóstico fica mais difícil
Há um desequilíbrio que a ciência começa a nomear com mais precisão: mulheres que fazem sexo com mulheres desenvolvem vaginose bacteriana em proporção significativamente maior do que heterossexuais, segundo estudo brasileiro publicado em 2023. A descoberta não é apenas clínica — ela revela uma invisibilidade mais antiga, a de corpos e orientações que o sistema de saúde ainda não aprendeu a enxergar. Enquanto pesquisadores planejam estudos que podem redefinir como a condição é transmitida e tratada, milhares de mulheres navegam consultas médicas onde parte de quem elas são permanece não dita.
- Lésbicas e bissexuais apresentam prevalência de vaginose bacteriana de 35,6% e 34,3%, respectivamente — contra 23,8% entre heterossexuais, uma diferença que exige explicação.
- A hipótese mais promissora aponta para a troca de fluidos vaginais entre parceiras, mas ainda não há confirmação científica — e essa lacuna tem consequências reais para prevenção e tratamento.
- Quatro em cada dez mulheres lésbicas não revelam sua orientação sexual ao médico, e quase um terço das que revelam recebem atendimento apressado ou incompleto.
- Metade dos casos de vaginose bacteriana é assintomática, tornando o diagnóstico ainda mais dependente de um atendimento médico atento e acolhedor — justamente o que falta.
- Um estudo longitudinal com casais de mulheres está sendo planejado e pode provar que a vaginose é sexualmente transmissível entre mulheres, mudando protocolos de tratamento e prevenção.
A microbiota vaginal funciona como um escudo: lactobacilos mantêm o ambiente ácido e repelem infecções. Quando esse equilíbrio se rompe e bactérias como a Gardnerella vaginalis proliferam, surge a vaginose bacteriana — condição que abre caminho para infecções sexualmente transmissíveis, inflamação pélvica e complicações gestacionais.
Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista e da Universidade Federal do Paraná investigam desde 2014 por que mulheres que fazem sexo com mulheres desenvolvem a condição com frequência muito maior. Um estudo publicado em 2023, com 453 participantes, tornou os números visíveis: prevalência de 35,6% entre lésbicas, 34,3% entre bissexuais e 23,8% entre heterossexuais. Fatores de risco conhecidos — múltiplos parceiros, uso de acessórios sexuais, presença de clamídia — não explicam sozinhos a diferença. A coordenadora da pesquisa, enfermeira Marli Duarte, levanta uma hipótese: a troca de fluidos vaginais entre parceiras pode estar por trás do aumento. Mas reconhece que ainda é apenas uma hipótese.
O que já está documentado é a invisibilidade. Quarenta por cento das mulheres lésbicas não revelam sua orientação sexual ao médico. Entre as que revelam, 28% recebem atendimento apressado e 17% não obtêm os exames que consideram necessários. Quando a paciente não é plenamente vista, o diagnóstico fica mais difícil — e a doença avança em silêncio, já que metade dos casos não apresenta sintomas.
O próximo passo pode mudar esse cenário. Os pesquisadores planejam um estudo longitudinal acompanhando casais de mulheres ao longo do tempo. Se as mesmas bactérias encontradas na microbiota de uma parceira aparecerem na outra, haverá evidência de que a vaginose bacteriana é sexualmente transmissível entre mulheres — algo ainda não reconhecido oficialmente. Essa distinção importa: muda o tratamento, a prevenção e a forma como médicos orientam suas pacientes.
A microbiota vaginal funciona como um escudo natural. Lactobacilos mantêm o ambiente ácido, repelindo bactérias que causam infecções. Quando esse equilíbrio se quebra — quando os lactobacilos diminuem e bactérias como a Gardnerella vaginalis proliferam — surge a vaginose bacteriana. O problema não é apenas incômodo: abre caminho para infecções sexualmente transmissíveis, inflamação pélvica, complicações cirúrgicas e gestacionais.
Mas a vaginose bacteriana não afeta todas as mulheres igualmente. Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista e da Universidade Federal do Paraná vêm investigando desde 2014 por que mulheres que fazem sexo com mulheres desenvolvem a condição com frequência muito maior. Em 2023, publicaram um estudo que comparou 453 mulheres: 149 com práticas homossexuais, 80 bissexuais e 224 heterossexuais. Os números foram claros. Entre as lésbicas, a prevalência chegou a 35,6%. Entre as bissexuais, 34,3%. Entre as heterossexuais, 23,8%. A diferença é substancial — mulheres que fazem sexo com mulheres têm risco significativamente elevado.
Os fatores de risco identificados no estudo seguem padrões conhecidos: maior escolaridade reduz a prevalência; múltiplos parceiros nos últimos três meses a aumentam; o uso de brinquedos e acessórios sexuais também eleva o risco; a presença de clamídia duplica as chances. Nenhum desses fatores é exclusivo de mulheres lésbicas. Então por que elas apresentam números tão mais altos? Marli Duarte, enfermeira e coordenadora da pesquisa na Faculdade de Medicina de Botucatu, oferece uma hipótese: a troca de fluidos vaginais entre parceiras pode estar por trás do aumento. Mas ela mesma reconhece que é apenas uma hipótese — ainda não há certeza.
O que há certeza é de outra coisa: a invisibilidade. Duarte aponta que a sexualidade de mulheres lésbicas é constantemente apagada, inclusive nas salas de consulta. Um relatório técnico de 2023 mostrou que 40% das mulheres lésbicas escolhem não revelar sua orientação sexual ao médico. Entre as que revelam, 28% recebem atendimento apressado e 17% não recebem os exames que julgam necessários. Quando a paciente não é vista, o diagnóstico fica mais difícil. Quando o diagnóstico é difícil, a doença avança.
O próximo passo da pesquisa pode mudar isso. Os pesquisadores planejam um estudo longitudinal acompanhando casais de mulheres ao longo do tempo. Se conseguirem demonstrar que as mesmas bactérias encontradas na microbiota de uma parceira aparecem na outra, terão prova de que a vaginose bacteriana é, de fato, sexualmente transmissível entre mulheres — algo que hoje não é reconhecido oficialmente. Atualmente, a condição é entendida como um desequilíbrio da flora vaginal que pode ser desencadeado por relações sexuais, mas não transmitido por elas. Essa distinção importa. Se for transmissível, muda o tratamento, a prevenção, a forma como médicos orientam pacientes.
Muitas mulheres com vaginose bacteriana não sentem nada. Outras notam odor desagradável, corrimento branco-acinzentado ou esverdeado, às vezes dor pélvica ou durante o sexo. O silêncio de metade dos casos torna a invisibilidade ainda mais profunda — mulheres que não sabem que têm a doença não podem procurar ajuda. E mulheres cuja orientação sexual é invisibilizada para seus médicos têm ainda menos chance de receber diagnóstico e cuidado adequados. A pesquisa em andamento pode ser o começo de uma mudança nesse cenário.
Citas Notables
A troca de fluidos é o que causa esse aumento da prevalência de vaginose bacteriana— Marli Duarte, coordenadora do estudo
Nós queremos compreender melhor como elas apresentam essa maior prevalência— Marli Duarte
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que mulheres lésbicas especificamente? O que há de diferente biologicamente?
Ainda não sabemos ao certo. A hipótese mais forte aponta para a troca de fluidos vaginais entre parceiras, mas é só uma hipótese. Por isso estão planejando acompanhar casais ao longo do tempo.
E se não for biologia? E se for só que ninguém está olhando para essas mulheres?
Exatamente. Quarenta por cento não revelam sua orientação sexual ao médico. Entre as que revelam, muitas recebem atendimento apressado ou não ganham os exames que pedem. É difícil diagnosticar o que você não está procurando.
Mas a vaginose bacteriana não é sexualmente transmissível, certo? Por que isso importaria?
Importa porque se for transmissível entre mulheres, muda tudo — o tratamento, como os médicos orientam as pacientes, como casais entendem o que está acontecendo. Hoje ninguém sabe se é ou não.
Metade das mulheres não tem sintomas?
Sim. Então você pode ter a doença, não saber, e passar para sua parceira sem perceber. Se ninguém está perguntando sobre sua vida sexual, ninguém descobre.
Qual é o risco real se não tratar?
Infecções sexualmente transmissíveis, inflamação pélvica, complicações em cirurgias ginecológicas e na gravidez. Não é trivial.