Vacina da Covid reduz risco de infarto e AVC em idosos em até 50%, mostra estudo

A vacina reduz os mecanismos de dano vascular ao diminuir a gravidade da infecção
Explicação do mecanismo biológico pelo qual a vacinação protege o coração contra complicações da Covid.

Análise de 1 milhão de veteranos americanos mostrou redução de 50,7% em eventos cardiovasculares para maiores de 75 anos vacinados contra Covid. Infecção por SARS-CoV-2 desencadeia processos inflamatórios e coagulação que danificam vasos sanguíneos; vacina reduz esses mecanismos ao diminuir gravidade da infecção.

  • Análise de mais de 1 milhão de veteranos americanos entre setembro e dezembro de 2024
  • Redução de 50,7% em eventos cardiovasculares para pessoas com mais de 75 anos
  • A cada 10 mil vacinados, 2 eventos cardiovasculares graves associados à Covid foram evitados
  • Benefício substancialmente maior em pessoas com doenças pré-existentes como diabetes e doença cardiovascular

Estudo publicado no JAMA Internal Medicine mostra que vacina atualizada contra Covid-19 reduziu em 38% o risco de eventos cardiovasculares graves em idosos, especialmente naqueles com mais de 75 anos.

Pesquisadores do Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos e da Universidade Washington em St. Louis analisaram os registros de mais de um milhão de veteranos americanos para entender como a vacina atualizada contra a Covid-19 afeta o risco de problemas cardíacos. O que encontraram, publicado segunda-feira passada na revista JAMA Internal Medicine, sugere um benefício significativo: a vacina reduziu em aproximadamente 38% o risco de eventos cardiovasculares graves — infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e morte de origem cardíaca — quando comparada a pessoas que receberam apenas a vacina da gripe.

O desenho do estudo foi cuidadoso. Entre setembro e dezembro de 2024, 349.085 dos veteranos tomaram a vacina contra Covid no mesmo dia em que receberam a vacina da gripe, enquanto o restante recebeu apenas a vacina da gripe. Essa abordagem foi deliberada: os pesquisadores queriam reduzir o que chamam de "viés do vacinado saudável", a tendência de pessoas que se vacinam terem hábitos de saúde melhores em geral. Os participantes receberam principalmente as formulações 2024-2025 das vacinas Moderna (65,4%) e Pfizer-BioNTech (34,1%), com pequenas proporções de outras marcas como Novavax. A idade média era de 70 anos, e o acompanhamento durou até oito meses.

O benefício não foi uniforme entre os grupos etários. Para pessoas com mais de 75 anos, a redução foi dramática: 50,7% de queda nos eventos cardiovasculares. Nos grupos mais jovens, os resultados não atingiram significância estatística — ou seja, não é possível afirmar com segurança que a vacina os protegeu contra complicações cardíacas. Quando os pesquisadores converteram esses números em escala populacional, descobriram que a cada 10 mil pessoas vacinadas, dois eventos cardiovasculares graves associados à Covid foram evitados. Quando incluíram todos os eventos cardiovasculares, não apenas aqueles comprovadamente ligados ao vírus, o número subiu para cerca de 24 eventos evitados por 10 mil pessoas.

Em uma população hipotética de um milhão de pessoas, os autores estimam que a vacinação poderia prevenir aproximadamente 1.580 mortes e 2.370 eventos cardiovasculares adversos em oito meses. O benefício foi particularmente robusto entre pessoas com condições pré-existentes — doença cardiovascular, doença renal crônica, doença pulmonar crônica, diabetes e imunossupressão. Nesses grupos, a proteção absoluta foi substancialmente maior do que em pessoas sem essas comorbidades.

O mecanismo por trás dessa proteção está enraizado na biologia da infecção. Quando o SARS-CoV-2 infecta o corpo, desencadeia processos inflamatórios e de coagulação que danificam os vasos sanguíneos e aumentam o risco de formação de trombos — coágulos que podem provocar infarto ou acidente vascular cerebral. Ao reduzir a gravidade da infecção, a vacina reduz esses mecanismos de dano vascular. Um achado intrigante do estudo é que o benefício observado em eventos cardiovasculares de outras causas foi muito maior do que o visto apenas nos casos comprovadamente associados à Covid, sugerindo que uma parcela significativa das complicações cardíacas provocadas pelo vírus ocorre em pessoas que nunca chegam a testar positivo.

Os pesquisadores enfatizam que essas descobertas devem ser interpretadas com cautela. O estudo é observacional, não um ensaio clínico randomizado, e foi realizado apenas com veteranos americanos — uma população predominantemente branca, masculina e com idade avançada. Além disso, a eficácia da vacina atual é menor do que a registrada nos primeiros anos da pandemia, uma mudança que os autores atribuem à evolução do vírus, à imunidade adquirida por infecções anteriores e à menor frequência de testes em um cenário onde a Covid se tornou endêmica. O estudo foi financiado pelo Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA, e os autores declararam não ter conflitos de interesse.

A infecção pelo SARS-CoV-2 desencadeia processos inflamatórios e de coagulação que danificam os vasos sanguíneos e aumentam o risco de formação de trombos
— Pesquisadores do estudo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que os pesquisadores compararam a vacina da Covid com a vacina da gripe e não com um grupo que não se vacinou?

Model

Porque queriam evitar o "viés do vacinado saudável". Pessoas que se vacinam tendem a ter melhores hábitos de saúde em geral. Comparando dois grupos de vacinados, eles isolam o efeito específico da vacina contra Covid.

Inventor

A redução de 38% parece impressionante, mas por que o benefício foi tão diferente entre grupos etários?

Model

O sistema imunológico envelhece. Pessoas com mais de 75 anos têm risco muito maior de complicações cardíacas pela Covid, então a proteção que a vacina oferece tem mais impacto neles. Nos mais jovens, o risco basal é menor, então a redução percentual é menos visível.

Inventor

O estudo menciona que mais eventos cardiovasculares foram evitados quando incluíram "todos" os eventos, não apenas os ligados à Covid. O que isso significa?

Model

Significa que muitas pessoas que sofrem complicações cardíacas pela Covid nunca testam positivo. Talvez tenham infecções leves ou assintomáticas. A vacina as protege mesmo sem elas saberem que foram expostas.

Inventor

Se a eficácia é menor agora do que nos primeiros anos da pandemia, a vacina ainda vale a pena?

Model

Para idosos, especialmente aqueles com doenças pré-existentes, sim. Uma redução de 50% em eventos cardíacos graves em pessoas com mais de 75 anos é clinicamente significativa. Mas o contexto mudou — o vírus evoluiu, as pessoas têm imunidade de infecções anteriores.

Inventor

Como os pesquisadores sabem que foi a vacina que fez a diferença e não algo sobre as pessoas que escolheram se vacinar?

Model

Não sabem completamente. É por isso que eles ressaltam que o estudo é observacional. Mas ao comparar dois grupos de vacinados no mesmo dia, reduzem muito esse risco. Ainda assim, é uma limitação real.

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