Não espere a doença; busque a prevenção agora
Em Porto Alegre, a vacina contra a gripe foi aberta a toda a população acima de seis meses, num momento em que os grupos mais vulneráveis — crianças, gestantes e idosos — permanecem perigosamente distantes da proteção coletiva. A decisão, orientada pelo Estado, transforma 132 unidades de saúde em portas abertas para a prevenção, mas revela uma tensão antiga entre a oferta do cuidado público e a hesitação humana diante dele. É no intervalo entre o que está disponível e o que é buscado que a saúde de uma cidade se decide.
- A cobertura vacinal entre crianças até seis anos chegou a apenas 33%, enquanto a meta é de 90% — um abismo que preocupa autoridades às vésperas do inverno.
- O medo de febre e dor no braço afasta pais das unidades de saúde, enquanto a gripe não tratada pode evoluir para internações em UTI.
- Com 19 unidades abertas até as 22h e funcionamento nos fins de semana durante a Operação Inverno, a cidade tenta alcançar quem trabalha e não consegue ir durante o dia.
- A vacina leva duas semanas para fazer efeito completo — cada dia de espera é um dia a menos de proteção real durante o pico de circulação dos vírus respiratórios.
A partir desta segunda-feira, qualquer porto-alegrense com mais de seis meses de idade pode se vacinar contra a gripe nas 132 unidades públicas de saúde da Capital, sem restrição de bairro. A liberação seguiu orientação da Secretaria Estadual da Saúde e amplia um acesso que antes era reservado aos grupos de risco.
O problema, porém, está justamente nesses grupos. Crianças, gestantes e idosos — os mais vulneráveis à doença — apresentam adesão de apenas 51% no geral, muito abaixo da meta de 90%. Entre as crianças, a situação é crítica: apenas um terço foi vacinado. Vânia Frantz, diretora da Atenção Primária à Saúde, aponta o medo de efeitos colaterais leves como principal barreira, lembrando que a gripe pode evoluir para complicações graves e que a vacina precisa de duas semanas para agir plenamente.
Na Unidade de Saúde Santa Marta, no Centro Histórico, a segunda-feira começou com movimento. Entre os presentes estava um estudante da UFRGS que buscava se proteger antes de visitar a irmã e seus filhos pequenos em Passo Fundo — um gesto simples de cuidado coletivo. Com horário estendido até as 22h em 19 unidades e abertura nos fins de semana durante a Operação Inverno, a Secretaria Municipal faz um apelo direto: não espere adoecer para buscar a vacina.
A partir desta segunda-feira, qualquer pessoa com mais de seis meses de idade pode se vacinar contra a gripe nas unidades públicas de saúde de Porto Alegre. A liberação chegou após orientação da Secretaria Estadual da Saúde, abrindo o acesso que antes era restrito aos grupos considerados de risco. As doses estão distribuídas nas 132 unidades de saúde espalhadas pela Capital, sem qualquer restrição de bairro — um morador pode procurar a unidade mais próxima de sua casa, independentemente de onde mora.
Mas há um problema que preocupa os gestores de saúde. Os grupos que mais precisam da vacina — crianças até seis anos, gestantes e idosos acima de 60 — não estão comparecendo em número suficiente. A taxa geral de imunização entre esses públicos prioritários está em torno de 51%, muito distante da meta de 90% que as autoridades de saúde estabeleceram. Entre as crianças, a situação é ainda mais crítica: apenas um terço delas foi vacinado. Os idosos foram o grupo mais responsivo, mas mesmo assim ficaram aquém do esperado.
Vânia Frantz, diretora da Atenção Primária à Saúde da Secretaria Municipal da Saúde, atribui parte da resistência ao medo de efeitos colaterais. Pais hesitam em levar os filhos para a vacinação por receio de febre ou dor no local da injeção — reações leves e passageiras. O que muitos não consideram, segundo Frantz, é que a gripe pode evoluir para algo muito mais grave: infecções que exigem aspiração de secreções, internações em unidade de terapia intensiva. A vacina, ela ressalta, leva duas semanas para fazer efeito completo, o que torna a antecipação ainda mais importante durante o período de maior circulação de vírus respiratórios.
Na manhã de segunda-feira, a Unidade de Saúde Santa Marta, no Centro Histórico, já apresentava movimento. Trinta pessoas aguardavam atendimento, segundo relato dos funcionários, embora o fluxo se processasse com relativa rapidez. Entre os que buscavam a vacina estava Hendrew da Luz Marth, estudante de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua motivação era prática: viajaria para Passo Fundo naquela semana para visitar uma irmã que tem filhos pequenos e um bebê. Não queria correr o risco de transmitir o vírus para eles.
O cronograma de funcionamento foi expandido para facilitar o acesso. Dezenove das 132 unidades funcionarão até as 22h, estendendo o horário para quem trabalha durante o dia. Com o início da Operação Inverno neste final de semana, haverá abertura de unidades também aos sábados e domingos. Por enquanto, não há previsão de um novo Dia D de vacinação em massa, mas as doses continuarão sendo aplicadas enquanto houver estoque disponível. A Secretaria Municipal faz um apelo direto à população: não espere ficar doente. Procure a vacina agora, enquanto o vírus circula e enquanto há tempo para a imunidade se estabelecer.
Citações Notáveis
A família fica reticente de levar as crianças para a vacina por medo de efeito colateral, mas depois a criança adoece e pode precisar de internação em UTI— Vânia Frantz, diretora da Atenção Primária à Saúde da SMS
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a adesão entre crianças é tão baixa se a vacina está tão acessível?
Muitos pais têm medo dos efeitos colaterais — uma febre, uma dor no braço. Veem isso como um risco desnecessário, sem considerar que a gripe pode levar a criança para a UTI.
Mas a vacina é segura, certo?
Sim, extremamente. Os efeitos colaterais leves são raros e passageiros. O que é perigoso é deixar a criança desprotegida durante uma epidemia.
E por que os idosos tiveram melhor adesão?
Provavelmente porque viveram mais gripes, viram pessoas próximas ficarem graves. Têm menos ilusão sobre o risco.
Duas semanas para fazer efeito — isso muda a estratégia?
Completamente. Significa que você precisa se vacinar agora, não quando os primeiros casos aparecem. É prevenção, não tratamento.
A Operação Inverno vai mudar os números?
Pode ajudar com acesso, mas o desafio real é convencer as pessoas de que vale a pena se proteger antes de adoecer.