A família fica reticente, mas depois a criança adoece e precisa de UTI
Em Porto Alegre, a vacina contra influenza foi aberta a toda a população acima de seis meses, num gesto que transforma o acesso individual em responsabilidade coletiva. As 132 unidades de saúde da cidade recebem qualquer morador, independentemente do bairro, num momento em que o inverno aproxima as pessoas e os vírus. O paradoxo, porém, persiste: quanto mais ampla a oferta, mais visível se torna a hesitação — especialmente entre os que mais precisam de proteção.
- A liberação geral da vacina expõe uma contradição urgente: o acesso nunca foi tão fácil, mas a adesão dos grupos prioritários nunca esteve tão aquém da meta.
- Apenas um terço das crianças de até seis anos foi vacinado, e o receio de febre ou dor local pesa mais, para muitos pais, do que o risco real de internação em UTI.
- A Operação Inverno entra em campo neste fim de semana, ampliando o horário de atendimento para sábados e domingos em busca de reverter os números críticos.
- A diretora de Atenção Primária alerta que a vacina leva duas semanas para fazer efeito — cada dia de espera é um dia a menos de proteção no pico de circulação viral.
- Sem previsão de novo Dia D, a Secretaria Municipal aposta na persuasão contínua para converter acesso em ação, antes que as doses se esgotem ou a temporada de gripe se agrave.
Desde segunda-feira, qualquer pessoa com mais de seis meses de idade pode se vacinar contra a gripe em qualquer uma das 132 unidades de saúde de Porto Alegre, sem precisar respeitar divisão por bairro. Dezenove postos funcionam até as 22h, e com a chegada da Operação Inverno neste fim de semana, o atendimento se estenderá também aos sábados e domingos.
A abertura, porém, contrasta com uma realidade preocupante: apenas 51% dos grupos prioritários — crianças até seis anos, gestantes e idosos acima de 60 — se imunizaram até agora, muito abaixo da meta de 90%. Entre as crianças, o cenário é o mais crítico: somente um terço recebeu a dose. Os idosos foram os que mais procuraram os postos, mas ainda ficam distantes do esperado.
Vânia Frantz, diretora da Atenção Primária à Saúde, aponta o medo de efeitos colaterais como um dos principais freios. Pais hesitam diante da possibilidade de febre ou dor local, enquanto a diretora lembra que a gripe não tratada pode levar crianças à aspiração de secreções e, nos casos mais graves, à UTI. Como a vacina demora duas semanas para fazer efeito, antecipar a imunização é essencial no período de maior circulação de vírus respiratórios.
Na Unidade de Saúde Santa Marta, no Centro Histórico, a manhã de segunda-feira reuniu trinta pessoas na fila — entre elas Hendrew da Luz Marth, estudante da UFRGS, que se vacinou antes de viajar para visitar uma irmã com filhos pequenos. Ele não queria arriscar levar o vírus para crianças vulneráveis.
Sem previsão de um novo Dia D, a Secretaria Municipal mantém o apelo para que a população não espere adoecer. As doses estão disponíveis, mas o verdadeiro desafio agora é transformar esse acesso em proteção real — sobretudo para quem mais precisa dela.
A vacina contra gripe está disponível para qualquer pessoa com mais de seis meses de idade na rede pública de Porto Alegre desde segunda-feira, após orientação da Secretaria Estadual da Saúde. As 132 unidades de saúde da Capital oferecem o imunizante sem restrição de território — moradores de qualquer bairro podem se vacinar em qualquer posto. Dezenove dessas unidades funcionam até as 22h, e com o início da Operação Inverno neste fim de semana, haverá abertura aos sábados e domingos.
Apesar da liberação geral, a adesão entre os grupos prioritários permanece preocupantemente baixa. Crianças de até seis anos, gestantes e idosos acima de 60 anos deveriam ser os primeiros a se proteger, mas apenas 51% deles se imunizaram até agora — muito distante da meta de 90% para cada grupo. Entre as crianças, o cenário é ainda mais crítico: apenas um terço se vacinou. Os idosos foram o grupo que mais buscou os postos, mas mesmo assim ficam aquém do esperado.
Vânia Frantz, diretora da Atenção Primária à Saúde da Secretaria Municipal da Saúde, atribui parte da hesitação ao receio de efeitos colaterais. Pais relutam em levar os filhos por medo de febre ou dor local, mas a diretora aponta as consequências reais da gripe não tratada: crianças precisam de aspiração para remover secreção das vias aéreas, e em casos extremos há necessidade de internação em unidade de terapia intensiva. A vacina leva duas semanas para fazer efeito, o que torna a antecipação ainda mais importante durante o período de maior circulação de vírus respiratórios.
Na manhã de segunda-feira, a Unidade de Saúde Santa Marta, uma das referências no Centro Histórico, estava lotada. Trinta pessoas aguardavam atendimento, mas o fluxo era relativamente rápido. Entre eles estava Hendrew da Luz Marth, estudante de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que aproveitava o momento antes de viajar para Passo Fundo visitar uma irmã. Ele tinha razão em se preocupar: a irmã tem um sobrinho e um bebê pequeno, e ele não queria correr o risco de transmitir o vírus para crianças tão jovens.
Por enquanto, não há previsão de um novo Dia D de vacinação. A Secretaria Municipal mantém o apelo para que as pessoas não esperem adoecer e busquem se imunizar o quanto antes. A vacina será oferecida enquanto houver doses disponíveis, mas o desafio agora é converter esse acesso em adesão real — especialmente entre quem mais precisa.
Citações Notáveis
Fazemos um apelo muito grande para que as pessoas não esperem a doença e busquem seu atendimento mais breve possível para fazer a prevenção— Vânia Frantz, diretora da Atenção Primária à Saúde
Como ela tem sobrinho e bebê jovem, não quero correr o risco de passar para eles— Hendrew da Luz Marth, estudante de Políticas Públicas da UFRGS
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a adesão entre crianças é tão baixa se a vacina está tão acessível?
Muito tem a ver com a percepção do risco. Os pais veem a febre ou a dor local como um problema imediato, enquanto a gripe parece distante. Mas quando a criança adoece de verdade, aí vem a internação, a UTI.
E por que os idosos aderiram mais que as crianças?
Os idosos já vivenciaram gripes graves, já perderam amigos. Eles entendem o risco de forma visceral. As crianças são abstratas para os pais — ainda não viveram uma doença séria.
A liberação para todos acima de seis meses muda alguma coisa nessa dinâmica?
Teoricamente deveria facilitar. Mas sem um apelo claro sobre por que é urgente, vira só mais uma opção disponível. As pessoas não sentem pressão para agir.
E a Operação Inverno, abrindo postos nos fins de semana — isso ajuda?
Ajuda quem trabalha, quem tem dificuldade de sair durante a semana. Mas não resolve o problema de fundo: as pessoas precisam entender que a prevenção é melhor que a internação.
Dois meses depois, qual é o cenário mais provável?
Se a adesão não subir significativamente, vamos ver surtos de gripe em escolas e creches. Os idosos estarão mais protegidos, mas as crianças pagarão o preço.