Universidade de Lisboa publica genoma de referência do priolo para sua preservação

A pobreza genética pode comprometer a sobrevivência futura
Investigadores alertam que a reduzida diversidade genética do priolo, resultado do isolamento extremo, representa um risco existencial para a espécie.

Nas florestas de Laurissilva dos Açores vive uma das aves mais raras da Europa — o priolo, que quase desapareceu no século passado e hoje sobrevive em apenas cerca de mil indivíduos. A Universidade de Lisboa publicou esta semana o primeiro genoma de referência da espécie, construído a partir de uma amostra guardada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, oferecendo à ciência um mapa completo do seu código genético. Este passo inscreve-se num esforço europeu mais amplo de catalogação da biodiversidade e representa, para os investigadores, uma bússola com que orientar a conservação de uma espécie cuja fragilidade não é apenas numérica, mas inscrita no próprio ADN.

  • O priolo carrega no seu genoma as marcas de décadas de isolamento extremo — uma pobreza genética que ameaça a sobrevivência da espécie mesmo depois de a população ter recuperado para mil indivíduos.
  • Pela primeira vez, investigadores dispõem de um mapa cromossoma a cromossoma do ADN do priolo, publicado esta semana pela Universidade de Lisboa após duas décadas de recolha de amostras genéticas.
  • O genoma foi sequenciado a partir de uma amostra de sangue já existente, depositada no Museu Nacional, garantindo que o património genético da biodiversidade portuguesa permanece em mãos nacionais.
  • O trabalho integra o European Reference Genome Atlas e foi cofinanciado pelo projeto Biodiversity Genomics Europe, ancorando a conservação do priolo numa rede científica continental.
  • A SPEA Açores e o Governo Regional dos Açores passam a ter uma ferramenta científica concreta para orientar o restauro do habitat e as decisões de gestão da espécie nos próximos anos.

Há duas décadas que investigadores recolhem amostras genéticas do priolo, ave rara das florestas de Laurissilva de São Miguel, nos Açores. Esta semana, a Universidade de Lisboa publicou o primeiro genoma de referência da espécie — um mapa completo do seu código genético que permitirá monitorizar como a diversidade da população muda ao longo do tempo e compreender os processos históricos que a conduziram ao estado crítico atual.

O priolo (Pyrrhula murina) esteve praticamente extinto no início do século XX, vítima da destruição do seu habitat. A recuperação foi lenta: hoje existem cerca de mil indivíduos, mas a espécie mantém-se classificada como "vulnerável" pela IUCN. O problema mais profundo não é o número reduzido de aves — é a escassa diversidade genética que herdou do isolamento extremo que sofreu, e que pode comprometer a sua sobrevivência futura.

O genoma foi sequenciado a partir de uma amostra de sangue de uma fêmea adulta depositada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa. Ricardo Jorge Lopes, coordenador do trabalho e curador da Coleção Ornitológica do museu, sublinha que usar uma amostra já existente garante que os recursos genómicos da biodiversidade portuguesa ficam em instituições nacionais. A reconstrução detalhada do ADN, organizada cromossoma a cromossoma, abre novas possibilidades para perceber como o priolo evoluiu e como pode ser preservado.

O projeto integra o European Reference Genome Atlas e foi cofinanciado pelo Biodiversity Genomics Europe, num esforço coordenado para catalogar geneticamente a biodiversidade europeia. A recolha das amostras contou com o apoio da SPEA Açores, organização com longa experiência na conservação da espécie.

Nos próximos anos, este genoma de referência deverá apoiar estratégias mais eficazes de gestão e restauro do habitat, orientando decisões da SPEA Açores e do Governo Regional. Não é uma solução definitiva — o priolo continua vulnerável e a sua diversidade genética continua reduzida. Mas é um passo concreto para compreender o que se perdeu, o que ainda pode ser recuperado, e como manter viva uma das espécies mais frágeis da Europa.

Há duas décadas que investigadores recolhem amostras genéticas do priolo, uma ave rara que habita as florestas de Laurissilva na ilha de São Miguel, nos Açores. Agora, pela primeira vez, têm em mãos uma ferramenta que lhes permite ler completamente o código dessa espécie — o seu genoma de referência, publicado esta semana pela Universidade de Lisboa. Ricardo Jorge Lopes, coordenador do trabalho científico no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências, explica que este mapa genético vai permitir monitorizar como a diversidade genética da população muda ao longo do tempo, e compreender os processos históricos que a levaram ao estado crítico em que se encontra hoje.

O priolo (Pyrrhula murina) é uma das aves mais raras da Europa. No início do século XX, estava praticamente extinto — décadas de destruição do seu habitat natural quase a eliminaram completamente. A recuperação foi lenta. Hoje estima-se que existam cerca de mil indivíduos, o que representa um progresso, mas a espécie continua classificada como "vulnerável" pela União Internacional para a Conservação da Natureza. O problema não é apenas o número reduzido de aves. É a falta de diversidade genética dentro da população — um legado direto do isolamento extremo que sofreu. Essa pobreza genética, alertam os investigadores, pode comprometer a sua sobrevivência futura.

O genoma foi sequenciado a partir de uma amostra de sangue de uma fêmea adulta, recolhida há anos e agora depositada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa. A escolha de usar uma amostra já existente garante que os recursos genómicos da biodiversidade portuguesa permanecem em instituições nacionais. Lopes, que é também curador da Coleção Ornitológica do museu, defende que este novo recurso assume um papel crucial no conhecimento e na conservação da espécie. A reconstrução detalhada do código do ADN, organizado cromossoma a cromossoma, abre novas possibilidades para compreender como o priolo evoluiu e como pode ser preservado a longo prazo.

O trabalho não é isolado. Integra a iniciativa European Reference Genome Atlas (ERGA), um esforço coordenado para catalogar a biodiversidade europeia ao nível genético. Foi cofinanciado pelo projeto europeu Biodiversity Genomics Europe, dedicado à construção de uma biblioteca genética da biodiversidade do continente. A recolha das amostras biológicas contou com o apoio da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves nos Açores, uma organização que trabalha há anos na conservação da espécie.

Para os próximos anos, Lopes aponta que este genoma de referência vai apoiar estratégias de gestão mais eficazes, tanto da espécie como do restauro do seu habitat. A SPEA Açores e o Governo Regional dos Açores têm agora uma ferramenta científica sólida para orientar decisões sobre como proteger o priolo. Não é uma solução mágica — a ave continua vulnerável, a sua diversidade genética continua reduzida. Mas é um passo concreto para compreender melhor o que se perdeu, o que se pode recuperar, e como manter viva uma das espécies mais frágeis da Europa.

Esta ferramenta vai orientar a análise da informação genética recolhida ao longo das últimas duas décadas, permitindo monitorizar a diversidade genética da população ao longo do tempo
— Ricardo Jorge Lopes, coordenador do trabalho científico
Este novo recurso genómico assume um papel crucial no conhecimento e na conservação de uma das espécies mais raras da Europa
— Ricardo Jorge Lopes
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que o genoma de referência é tão importante para uma ave que já tem mil indivíduos?

Model

Porque esses mil indivíduos são geneticamente muito semelhantes entre si. Quando uma população quase desaparece, os sobreviventes reproduzem-se entre si, e a diversidade genética colapsa. O genoma permite ver exatamente o que se perdeu e o que ainda existe.

Inventor

E isso afeta a capacidade da ave sobreviver?

Model

Sim. Sem diversidade genética, a população é frágil. Uma doença, uma mudança ambiental — tudo isso afeta mais facilmente uma população geneticamente uniforme. É como ter um sistema imunitário enfraquecido.

Inventor

Então o genoma é mais um diagnóstico do que uma cura?

Model

Exatamente. É um diagnóstico muito preciso. Agora os conservacionistas sabem com exatidão qual é o estado de saúde genética da espécie. Podem tomar decisões sobre reprodução, sobre quais indivíduos cruzar, sobre como restaurar o habitat de forma mais inteligente.

Inventor

A amostra usada foi recolhida há quanto tempo?

Model

Não sabemos a data exata, mas foi recolhida há anos e está guardada no museu em Lisboa. O importante é que já existia — não foi necessário capturar uma ave nova.

Inventor

Isso importa?

Model

Muito. Significa que a pesquisa não perturbou a população selvagem. E significa que Portugal tem a capacidade de guardar e estudar a sua própria biodiversidade em instituições nacionais, em vez de depender de outros países.

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