Único brasileiro em audiência defende Pix como ferramenta que beneficia EUA

As pessoas começam a se bancarizar com o Pix e a adquirir outros tipos de serviços
Sampaio explica por que o Pix beneficia não apenas o Brasil, mas também empresas estrangeiras de pagamento.

Gustavo Sampaio argumenta que o Pix funciona como infraestrutura de bancarização e estimula acesso ao crédito e comércio internacional, beneficiando empresas brasileiras e norte-americanas. Presidente do BC concorda que uso de cartões de crédito cresceu 9,4% no segundo semestre de 2025 com maior adesão aos serviços financeiros impulsionados pelo Pix.

  • Gustavo Sampaio é o único representante brasileiro inscrito na audiência de 6 de julho em Washington
  • Cartões de crédito cresceram 9,4% no segundo semestre de 2025 com a expansão do Pix
  • Governo brasileiro espera confirmação das tarifas de 25% com poucas chances de negociação
  • Casa Branca divulgou em 1º de abril de 2026 documento afirmando que Pix prejudica Visa e Mastercard

Economista da FGV é único representante brasileiro em audiência pública nos EUA sobre possíveis tarifas de 25%. Defende o Pix como infraestrutura que beneficia empresas estrangeiras e pede transparência do BC.

Gustavo Sampaio, economista e professor da Fundação Getulio Vargas, será o único representante brasileiro a comparecer à audiência pública marcada para 6 de julho em Washington. O encontro faz parte de uma investigação do USTR, o escritório comercial dos Estados Unidos, que estuda a possibilidade de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Até agora, não há confirmação de presença de integrantes do governo Lula.

Sampaio vai à audiência para defender o Pix não apenas como um meio de pagamento, mas como uma infraestrutura que transformou o acesso financeiro no Brasil. Segundo sua análise, o sistema acelerou transações, ampliou a bancarização da população e estimulou tanto o acesso ao crédito quanto ao comércio internacional. Ele argumenta que isso beneficia não só empresas brasileiras, mas também operadoras estrangeiras de cartão de crédito e companhias norte-americanas. "É saudável para empresas brasileiras, norte-americanas e para o comércio em geral", disse ao Poder360. "As pessoas começam a se bancarizar com o Pix e a adquirir outros tipos de serviços."

Os números respaldam essa visão. Um relatório do Banco Central mostrou que o volume total de transações no mercado brasileiro cresceu 13%, atingindo 78,4 bilhões de operações. No segundo semestre de 2025, o uso de cartões de crédito avançou 9,4% e o de cartões pré-pagos subiu 2,2%, enquanto cartões de débito caíram 0,2%. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já havia feito observação semelhante, apontando que a maior adesão aos serviços financeiros impulsionados pelo Pix elevou o uso de crédito.

Mas Sampaio reconhece um problema real: falta de transparência do Banco Central e do governo federal sobre como o Pix funciona alimenta desconfiança no mercado. "Imagina, a implementação foi rápida e são milhões de transações, muita gente querendo usar e o BC tentando ajustar o sistema. Acaba se criando uma certa desconfiança", afirmou. Ele observa que o Banco Central foi historicamente desenhado para controlar inflação, mas ao criar e gerir o Pix com recursos do orçamento, assumiu o papel de formulador de política pública de Estado. Para ele, a autarquia precisa reforçar a transparência e demonstrar ao mercado privado que não existe preferência pelo Pix.

Os Estados Unidos, por sua vez, argumentam que o Banco Central adota práticas discriminatórias ao obrigar instituições financeiras a oferecerem o Pix gratuitamente. A investigação foi deflagrada após um documento divulgado pela Casa Branca em 1º de abril de 2026 afirmar que o Pix pode prejudicar empresas de pagamento dos EUA, como Visa e Mastercard, que operam no Brasil. Sampaio vê essas críticas como tendo caráter político, mas reconhece que o governo precisa mitigar as desconfianças.

A avaliação do Palácio do Planalto, conforme apurou o Poder360, é de que as tarifas de 25% devem ser confirmadas, com poucas chances de avanço nas negociações. Os temas usados pela administração Trump para justificar as medidas são considerados inegociáveis. O presidente Lula já rebateu as justificativas norte-americanas, afirmando que o país "mente" para taxar o Brasil. Recentemente, o ministro Márcio Elias Rosa teve uma reunião virtual inconclusiva com Jamieson Greer, representante comercial norte-americano.

A audiência segue um cronograma definido: 22 de junho é o prazo final para pedidos de participação, 1º de julho é o prazo para envio de comentários por escrito, e 6 de julho ocorre a audiência pública. As manifestações podem ser enviadas pelo site oficial do USTR e integram o processo formal, podendo influenciar a decisão final da investigação. Sampaio, ao participar como pesquisador e não como representante do governo ou do Banco Central, terá a oportunidade de "apresentar e desmistificar alguns pontos" sobre o sistema que transformou o mercado de pagamentos brasileiro.

É saudável para empresas brasileiras, norte-americanas e para o comércio em geral. As pessoas começam a se bancarizar com o Pix e a adquirir outros tipos de serviços.
— Gustavo Sampaio, economista e professor da FGV
O BC tem que mostrar para o mercado privado que não existe uma preferência pelo Pix
— Gustavo Sampaio
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um economista acadêmico comparece sozinho em nome do Brasil a uma audiência tão importante?

Model

Sampaio não representa o governo nem o Banco Central. Ele vai como pesquisador que estudou o tema profundamente e quer contribuir com fatos. É uma posição mais confortável porque não carrega o peso político de uma posição oficial.

Inventor

Mas o governo não deveria estar lá defendendo sua própria criação?

Model

Teoricamente sim. Mas há uma avaliação interna de que as tarifas serão confirmadas de qualquer forma. Os temas que Trump usa para justificar são considerados inegociáveis. Talvez o governo tenha decidido que não vale a pena gastar capital político.

Inventor

Sampaio diz que o Pix beneficia empresas norte-americanas. Como isso é possível se os EUA querem taxar o Brasil?

Model

Porque Visa e Mastercard ganham com mais transações de crédito. O Pix bancarizou milhões de pessoas que antes não usavam cartão. Mas essas mesmas empresas veem o Pix como uma ameaça ao seu modelo de negócio, porque é mais barato e mais rápido.

Inventor

Qual é o real problema que Sampaio identifica?

Model

A falta de transparência do Banco Central. Ele diz que o BC foi criado para controlar inflação, não para ser formulador de política pública. Quando assumiu o Pix, não comunicou bem suas intenções. Isso criou desconfiança, que os EUA exploram.

Inventor

O que o Banco Central deveria fazer?

Model

Mostrar ao mercado privado que não existe preferência pelo Pix, que as instituições financeiras têm liberdade. Mas isso é complicado porque o Pix é obrigatório e gratuito, o que realmente parece discriminatório para quem cobra por outros serviços.

Inventor

Então Sampaio está criticando o próprio governo que criou o Pix?

Model

Não exatamente. Ele defende o Pix como ferramenta. Mas reconhece que a forma como foi implementado e comunicada alimentou desconfianças que agora são usadas contra o Brasil. É uma crítica construtiva.

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