O progresso é real, mas frágil. Sem compromissos renovados, corremos o risco de um ressurgimento.
Na sede das Nações Unidas em Nova York, líderes globais se reuniram para negociar uma nova Declaração Política sobre o HIV — talvez a última grande oportunidade antes de 2030, prazo para eliminar a aids como ameaça à saúde pública. Décadas de progresso real, conquistado com esforço coletivo e luta social, estão agora sob ameaça direta de cortes históricos no financiamento internacional. O Unaids alerta que o destino de milhões de pessoas vulneráveis depende da disposição dos países em honrar, neste momento, os compromissos que fizeram ao mundo.
- O financiamento global ao desenvolvimento caiu 23% em 2025 — a maior queda já registrada —, ameaçando desfazer décadas de avanços contra o HIV.
- Programas de testagem foram cortados em 22% e a distribuição de preservativos foi reduzida em até 90% em alguns países, deixando populações vulneráveis sem proteção básica.
- Quase 9 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não têm acesso ao tratamento, e a criminalização de populações-chave cresce pela primeira vez desde que o Unaids começou a monitorar o indicador.
- Líderes da ONU tentam reafirmar a resposta ao HIV como modelo de cooperação internacional, enquanto ativistas alertam que os serviços liderados pela comunidade estão desaparecendo.
- A declaração política de 2026 é a última negociação global antes do prazo de 2030, e o que for decidido agora orientará a resposta mundial pelos próximos cinco anos.
A sede das Nações Unidas em Nova York foi palco, nesta segunda-feira, de um encontro que o Unaids considera um dos mais delicados dos últimos anos para a resposta global ao HIV. Chefes de Estado, diplomatas, ativistas e lideranças comunitárias se reuniram para negociar uma nova Declaração Política sobre a epidemia, enquanto a organização fazia um apelo urgente: os países precisam renovar seus compromissos agora, antes que décadas de progresso sejam perdidas.
Os avanços são reais e expressivos. Desde 2010, as mortes por aids caíram 56% globalmente, as novas infecções diminuíram 43%, e 78% dos portadores de HIV no mundo estão em tratamento antirretroviral. Para Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids, esses números provam que eliminar a aids até 2030 é uma meta alcançável — desde que os compromissos sejam mantidos.
Mas o cenário financeiro ameaça reverter esse caminho. Em 2025, a ajuda global ao desenvolvimento registrou sua maior queda histórica, de 23%. As consequências são imediatas: cortes de 22% nos programas de testagem e redução de até 90% no financiamento para distribuição de preservativos em alguns países. Quase 9 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não têm acesso ao tratamento. Populações historicamente mais vulneráveis — mulheres jovens, homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo — enfrentam barreiras crescentes, ao mesmo tempo em que a criminalização dessas comunidades aumenta pela primeira vez desde que o indicador passou a ser monitorado.
Há sinais de resiliência: o financiamento doméstico ao HIV saltou de 28% para 52% do total dos recursos entre 2010 e 2024, e iniciativas regionais buscam fortalecer respostas nacionais. Avanços científicos, como medicamentos de longa duração para prevenção, surgem como ferramentas promissoras. Mas a ativista Sandra Thurman resumiu o peso do momento: as gerações futuras julgarão os líderes de hoje pela coragem de cruzar a linha de chegada quando ela finalmente estava à vista. A reunião de 2026 é a última grande negociação política global antes do prazo de 2030.
A sede das Nações Unidas em Nova York recebeu nesta segunda-feira um encontro que a organização considera talvez o mais delicado dos últimos anos para a resposta global ao HIV. Enquanto chefes de Estado, diplomatas, ativistas e lideranças comunitárias se reuniam para negociar uma nova Declaração Política sobre a epidemia, o Unaids fazia um apelo contundente: os países precisam renovar seus compromissos financeiros e políticos agora, porque o mundo está em risco de perder décadas de progresso conquistado a duras penas.
Os números que o Unaids divulgou antes da reunião contam uma história de avanço real. Desde 2010, as mortes relacionadas à aids caíram 56% globalmente. As novas infecções por HIV diminuíram 43%. Hoje, 32,1 milhões de pessoas — 78% de todos os portadores de HIV no planeta — estão em tratamento antirretroviral. Esses números representam vidas salvas, famílias preservadas, comunidades que respiram. Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids, chamou esses resultados de prova de que eliminar a aids até 2030 é uma meta alcançável, desde que os compromissos sejam mantidos e fortalecidos.
Mas há um porém que pesa como uma pedra. Em 2025, a ajuda global ao desenvolvimento caiu 23% — a maior queda já registrada. Essa redução não é um número abstrato em um relatório. Ela tem consequências concretas e imediatas. Entre 2024 e 2025, os programas de testagem para HIV sofreram corte de 22% em regiões onde a infecção é mais prevalente. Em alguns países, o financiamento para distribuição de preservativos foi reduzido em mais de 90%. Quase 9 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não têm acesso ao tratamento, e esse número tende a crescer se os cortes continuarem.
O impacto recai desproporcionalmente sobre as populações mais vulneráveis. Mulheres e meninas jovens, homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, pessoas que usam drogas injetáveis — grupos historicamente mais expostos ao HIV — estão enfrentando barreiras crescentes para acessar serviços essenciais. Paralelamente, pela primeira vez desde que o Unaids começou a monitorar o indicador, cresce a criminalização dessas populações-chave. Keren Dunaway, representante da Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV, alertou que os serviços liderados pela comunidade estão desaparecendo e que os programas de prevenção estão sendo reduzidos em muitas partes do mundo. Ela lembrou que essas conquistas não foram dadas de graça — foram resultado de décadas de luta social intensa.
Durante a abertura do encontro, lideranças da ONU tentaram enquadrar a resposta ao HIV como um modelo de cooperação internacional bem-sucedido. Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral, chamou a trajetória da epidemia de uma das maiores histórias de sucesso das Nações Unidas e uma das conquistas mais notáveis da história da saúde pública global. Amina Mohammed, secretária-geral adjunta, enfatizou que mesmo em tempos difíceis a comunidade internacional pode se unir em torno da ciência, da dignidade humana e da responsabilidade compartilhada.
Há sinais de que nem tudo está perdido. O financiamento doméstico destinado ao HIV aumentou significativamente — passou de 28% do total dos recursos em 2010 para 52% em 2024. Iniciativas regionais como o Accra Reset e o Roteiro da União Africana para 2030 buscam fortalecer a sustentabilidade das respostas nacionais. Avanços científicos, especialmente medicamentos de longa duração para prevenção, surgem como ferramentas com potencial para acelerar a redução das infecções, desde que haja implementação em larga escala e ampliação do acesso.
Mas o apelo final vem de Sandra Thurman, ativista histórica que vivenciou a crise da aids desde seus primeiros anos. Ela pediu que governos e organismos internacionais mantenham a mobilização diante do que considera um momento decisivo. "As gerações futuras nos julgarão pela nossa capacidade de, quando a linha de chegada finalmente estivesse à vista, termos nos esforçado ao máximo e encontrado a coragem para cruzá-la", disse. A reunião de 2026 é a última grande negociação política global antes de 2030, o prazo estabelecido para eliminar a aids como ameaça à saúde pública. O que os países decidirem nos próximos dias orientará a resposta global pelos próximos cinco anos.
Citas Notables
Esta Declaração Política é a nossa oportunidade de consolidar 25 anos de compromisso e apontar o caminho para 2030, demonstrando que o multilateralismo pode alcançar resultados— Winnie Byanyima, Diretora Executiva do Unaids
O progresso é real, mas frágil. Sem compromissos e ações renovadas, corremos o risco de um ressurgimento da epidemia— Keren Dunaway, representante da Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV
Agora não é hora de desistir. É hora de terminar o trabalho— Sandra Thurman, ativista histórica
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que essa reunião em junho de 2026 é considerada tão decisiva? Não há outras oportunidades antes de 2030?
É a última grande negociação diplomática global antes do prazo final. Depois disso, o mundo entra em modo de implementação. As decisões tomadas aqui definem as metas e os compromissos que guiarão todos os países pelos próximos cinco anos.
Os números de progresso são impressionantes — 56% de redução em mortes, 78% em tratamento. Por que há tanta preocupação?
Porque esses números podem virar para trás rapidamente. Quando o financiamento cai 23% em um ano, você não vê o impacto imediatamente nos números de mortes. Você vê em programas de testagem reduzidos em 22%, em preservativos que desaparecem das comunidades. Seis meses depois, você vê novas infecções subindo.
A queda no financiamento internacional é o problema central?
É o mais urgente, mas não é o único. Há também o aumento da criminalização de populações vulneráveis e o enfraquecimento de políticas de direitos humanos. O financiamento doméstico cresceu, mas não consegue substituir a cooperação internacional — especialmente em países mais pobres.
Então o que precisaria acontecer nessa reunião para que o mundo não perca o progresso?
Os países precisam renovar seus compromissos financeiros e políticos. Manter o investimento internacional enquanto mobilizam recursos domésticos. Proteger os direitos de pessoas vivendo com HIV. Deixar as comunidades liderarem. E impulsionar a ciência para que inovações cheguem a quem mais precisa.
Parece simples quando você lista assim.
É simples em teoria. Mas exige coragem política em um momento em que muitos governos estão cortando gastos com saúde global. É mais fácil cortar do que manter o compromisso quando ninguém está morrendo na sua porta.
E se não conseguirem renovar esses compromissos?
Interrupções nos tratamentos. Aumento de novas infecções. Crescimento das mortes. Tudo que levou décadas para conquistar pode começar a desaparecer em poucos anos.