Dezesseis por cento precisaram vender bens para quitar dívidas
Ao final de cada mês, um em cada quatro brasileiros se depara com uma aritmética cruel: as contas superam o que o salário pode cobrir. Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria revela que a inflação — sentida com mais força no gás de cozinha, nos alimentos e no combustível — está corroendo não apenas o poder de compra, mas a própria estrutura do cotidiano das famílias. O que se observa não é apenas uma crise de números, mas uma reconfiguração silenciosa de como milhões de pessoas comem, se movem e planejam o futuro. E ainda assim, mais da metade dos brasileiros guarda a esperança de que dezembro trará dias melhores.
- A inflação deixou de ser estatística e virou escolha: 40% dos brasileiros pararam de comprar certos alimentos, e 16% venderam bens para pagar dívidas.
- O corte chegou ao essencial — 34% atrasaram contas de luz ou água, e 19% abandonaram o plano de saúde, revelando um aperto que vai além do supérfluo.
- Com 69% da população sem capacidade de poupar, a margem de segurança financeira das famílias praticamente desapareceu, e um em cada cinco brasileiros recorreu a empréstimos no último ano.
- Para enfrentar a pressão, 68% passaram a pechinchar antes de comprar e três em cada dez recorreram ao 'fiado', sinais de uma população adaptando seus hábitos à sobrevivência.
- Apesar do cenário adverso agravado pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, sinais de recuperação no mercado de trabalho alimentam a expectativa de 56% dos brasileiros por uma melhora até o fim do ano.
Quando o mês termina, um em cada quatro brasileiros constata que o dinheiro não chegou para cobrir tudo. A pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria expõe com precisão o que a inflação está fazendo com o orçamento das famílias: mais da metade já cortou lazer, roupas e viagens, mas os sacrifícios foram além do conforto. Quarenta e cinco por cento pararam de comer fora, quarenta e três por cento reduziram gastos com transporte e quarenta por cento deixaram de comprar alguns alimentos — escolhas que tocam diretamente na qualidade de vida.
O quadro se aprofunda quando se olha para situações mais graves: 34% atrasaram contas de luz ou água, 19% abandonaram o plano de saúde e 16% venderam bens para quitar dívidas. Marcelo Azevedo, da CNI, aponta o gás de cozinha, os alimentos e o combustível como os principais vilões do orçamento doméstico. A percepção de alta nesses itens cresceu significativamente desde abril, com arroz, feijão e carne vermelha registrando aumentos de mais de dez pontos percentuais na comparação com pesquisa anterior.
A poupança tornou-se um privilégio de poucos: 69% não conseguem guardar nada. Para sobreviver, 68% passaram a pechinchar antes de comprar, 51% usaram cartão de crédito e três em cada dez recorreram ao crédito informal. O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, reconheceu o peso da pandemia e da guerra na Ucrânia sobre a recuperação econômica, mas destacou sinais positivos no mercado de trabalho, com queda do desemprego e aumento de renda.
Mesmo diante de tanta pressão, 56% dos brasileiros acreditam que estarão em situação melhor até dezembro. É uma esperança que mistura resiliência e necessidade — e que os próximos meses se encarregarão de confirmar ou desafiar.
Quando chega o final do mês, um em cada quatro brasileiros enfrenta o mesmo problema: o dinheiro não é suficiente para cobrir todas as contas. A Confederação Nacional da Indústria divulgou uma pesquisa que expõe essa realidade crua, revelando como a pressão econômica está remodelando o dia a dia das famílias em todo o país.
Os números contam uma história de retrenchimento progressivo. Mais da metade dos entrevistados já reduziram gastos com lazer, deixaram de comprar roupas ou cancelaram viagens. Mas as mudanças vão além do supérfluo. Quarenta e cinco por cento pararam de comer fora de casa. Quarenta e três por cento cortaram gastos com transporte público. Quarenta por cento deixaram de comprar alguns alimentos. São escolhas que tocam na qualidade de vida básica.
Quando a pesquisa perguntou sobre situações específicas enfrentadas ao longo do ano, o quadro ficou ainda mais preocupante. Trinta e quatro por cento já atrasaram contas de luz ou água. Dezenove por cento deixaram de pagar o plano de saúde. E dezesseis por cento precisaram vender bens para quitar dívidas — um indicador que mostra como as pessoas estão liquidando patrimônio para sobreviver financeiramente. Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, observou que o aumento de preços em gás de cozinha, alimentos e combustível impacta diretamente no orçamento das famílias, refletindo-se numa redução do consumo mais ampla.
A capacidade de poupar desapareceu para a maioria. Sessenta e nove por cento da população não conseguem guardar dinheiro. Apenas vinte e nove por cento conseguem poupar. Nesse cenário de aperto, sessenta e quatro por cento da população cortou gastos desde o início do ano, e um em cada cinco brasileiros pegou algum empréstimo ou contraiu dívidas nos últimos doze meses. Entre quem reduziu o consumo, sessenta e um por cento ainda acreditam que é uma situação temporária, mas apenas quatorze por cento pretendem aumentar os gastos até o fim do ano.
O gás de cozinha lidera o ranking de produtos cujos preços mais subiram na percepção da população — sessenta e oito por cento disseram que o valor está maior, contra cinquenta e seis por cento em abril. Alimentos, conta de luz e combustível vêm em seguida. A percepção de alta dos preços de itens como arroz, feijão e carne vermelha cresceu bastante, com aumentos de mais de dez pontos percentuais em relação à pesquisa anterior. Diante dessa realidade, sessenta e oito por cento da população pechincharam antes de fazer uma compra este ano, e cinquenta e um por cento utilizaram cartão de crédito. O "comprar fiado" fez parte da realidade de três em cada dez brasileiros.
Robson Braga de Andrade, presidente da CNI, contextualizou os desafios: a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia comprometeram a recuperação econômica. A aceleração da inflação levou a um novo ciclo de aumento de juros, desestimulando consumo e investimentos. Mas ele também apontou sinais de recuperação no mercado de trabalho, com redução do desemprego e aumento do rendimento da população.
Apesar de toda essa pressão, existe esperança. Cinquenta e seis por cento dos entrevistados acreditam que, até dezembro, estarão com uma situação econômica pessoal melhor ou muito melhor. É uma expectativa que reflete tanto a resiliência quanto a necessidade psicológica de acreditar que o pior já passou. O que virá nos próximos meses dirá se essa confiança é justificada ou se as famílias brasileiras continuarão apertando o cinto.
Citações Notáveis
O aumento de preços de produtos como gás de cozinha, alimentos e combustível impacta diretamente no orçamento das famílias e isso reflete na redução do consumo de uma forma mais ampla— Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI
A aceleração da inflação levou a um novo ciclo de aumento de juros, o que desestimulou o consumo e os investimentos. Ao menos, estamos diante de um cenário de recuperação do mercado de trabalho, com redução do desemprego e aumento do rendimento da população— Robson Braga de Andrade, presidente da CNI
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você acha que as pessoas ainda acreditam que as coisas vão melhorar até dezembro, mesmo com esses números tão duros?
Porque quando você está no fundo do poço, qualquer sinal de movimento parece esperança. E tem recuperação real no mercado de trabalho — menos desemprego, mais gente ganhando. Mas é gradual, sabe? Não é o suficiente para compensar o que as pessoas já perderam.
Vender bens para pagar dívidas — isso é um ponto de não retorno?
Não necessariamente, mas é um sinal de que as pessoas esgotaram outras opções. Quando você vende algo, está liquidando patrimônio. Depois não tem mais o quê vender. É quando as coisas ficam realmente apertadas.
O gás de cozinha subiu tanto assim? Parece estranho ser o número um.
Subiu mesmo — sessenta e oito por cento das pessoas percebem aumento. É um item essencial, não é luxo. Quando o gás fica caro, você sente no dia a dia. Não é como cortar uma viagem; é algo que você precisa para cozinhar.
E o "comprar fiado" — três em cada dez brasileiros fazendo isso. Isso não era mais comum em épocas piores?
Era, mas o fato de estar voltando agora é significativo. Mostra que o crédito formal — cartão, empréstimo — não está sendo suficiente. As pessoas estão voltando a relações de confiança com vendedores locais.
Se sessenta e um por cento acham que é temporário, eles estão certos?
Depende do que acontecer com a inflação e os juros. Se caírem, sim. Se não caírem, essas pessoas vão perceber que "temporário" virou permanente. E aí a esperança vira frustração.