UFMG desenvolve repelente atóxico com proteção de até seis meses

Proteção contínua sem esforço do usuário, durante meses
O repelente impregnado em tecidos oferece uma abordagem radicalmente diferente dos produtos convencionais.

No cruzamento entre ciência aplicada e saúde pública, pesquisadores da UFMG criaram um repelente impregnado em tecidos capaz de proteger não apenas o indivíduo, mas o ambiente ao redor, por até seis meses. O Repeltex® nasce de quase uma década de pesquisa colaborativa internacional e desafia a lógica dos repelentes convencionais — que exigem reaplicação constante e alcançam apenas a pele de quem os usa. Em um país onde dengue, zika e malária seguem sendo ameaças cotidianas, a tecnologia aponta para um novo paradigma de proteção coletiva e acessível.

  • Mosquitos vetores de arboviroses continuam a representar uma ameaça persistente no Brasil, e os repelentes convencionais oferecem janelas de proteção de apenas algumas horas.
  • O Repeltex® rompe com essa limitação ao criar uma zona de repelência de até seis metros de raio a partir de tecidos impregnados, mantendo eficácia por quatro a seis meses.
  • Testes de campo em Belo Horizonte e Porto Velho confirmaram 74% de eficácia contra o Aedes aegypti e 84% contra o Anopheles darlingi, com fórmula atóxica e sem odor.
  • A escolha estratégica por calçados de sisal explora o comportamento dos mosquitos — que picam preferencialmente pernas e pés — e garante proteção contínua tanto durante o dia quanto à noite.
  • A startup InnoVec, spin-off da UFMG fundada em 2023, prepara a comercialização do produto com promessa de baixo custo, abrindo caminho para populações vulneráveis e pessoas com sensibilidade a repelentes tradicionais.

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais criaram um repelente de novo tipo: em vez de ser aplicado na pele por poucas horas, o Repeltex® fica impregnado em tecidos e libera seu princípio ativo no ambiente por quatro a seis meses, cobrindo um raio de dois a seis metros. A fórmula é atóxica nas concentrações utilizadas e não possui odor, tornando-a viável também para quem tem sensibilidade a produtos convencionais.

O projeto é liderado pelo pesquisador Álvaro Eiras, do Laboratório de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo em Controle de Vetores da UFMG, e tem raízes em uma colaboração internacional iniciada em 2016 com o Ifakara Health Institute da Tanzânia, com apoio da Usaid e do programa canadense Grand Challenges. Em 2023, o esforço gerou a startup InnoVec, responsável por levar a tecnologia ao mercado.

Os testes foram realizados em calçados feitos com sisal — fibra rígida, barata e de fácil obtenção. A escolha não foi aleatória: Aedes aegypti e Anopheles darlingi, vetores de dengue, zika, chikungunya e malária, concentram suas picadas nas pernas e pés. Cem pares de calçados foram fabricados em Belo Horizonte e Porto Velho, metade tratada e metade não. Os resultados mostraram 74% de repelência contra o Aedes aegypti e 84% contra o Anopheles darlingi.

Após três anos de pesquisa intensiva, a promessa de comercialização próxima e a expectativa de baixo custo posicionam o Repeltex® como uma alternativa concreta para populações em áreas de risco — especialmente aquelas com acesso limitado ou sensibilidade aos repelentes tradicionais.

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais desenvolveram um repelente que funciona de forma radicalmente diferente dos produtos convencionais. Em vez de proteger apenas quem o aplica na pele por algumas horas, este novo repelente fica impregnado em tecidos e libera seu princípio ativo no ambiente ao redor por quatro a seis meses seguidos.

O produto, chamado Repeltex®, é resultado de uma parceria entre a universidade mineira e a startup InnoVec, fundada em 2023 como desdobramento de pesquisas iniciadas em 2016. O trabalho começou como um projeto colaborativo envolvendo o Ifakara Health Institute da Tanzânia, com financiamento da agência americana de desenvolvimento internacional (Usaid) e da iniciativa canadense Grand Challenges. O pesquisador Álvaro Eiras, que lidera o Laboratório de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo em Controle de Vetores na universidade, coordena o esforço e é sócio-fundador da empresa que comercializará a tecnologia.

A diferença fundamental em relação aos repelentes tradicionais é dramática. Enquanto produtos convencionais oferecem proteção por no máximo doze horas e exigem reaplicação constante, o Repeltex® cria uma zona de proteção que se estende de dois a seis metros de raio, mantendo sua eficácia entre 120 e 180 dias. A fórmula é atóxica nas concentrações utilizadas e não possui odor, características que a tornam acessível também para pessoas com sensibilidade ou alergia a repelentes convencionais.

Os testes iniciais foram realizados em calçados, uma escolha estratégica baseada no comportamento dos mosquitos. Aedes aegypti e Anopheles darlingi, os principais vetores de dengue, chikungunya, zika e malária, concentram suas picadas nas pernas e pés. Os pesquisadores reconheceram que as pessoas usam sapatos durante o dia e os deixam ao lado da cama à noite, criando uma oportunidade de proteção contínua tanto da pessoa quanto do ambiente doméstico. Para a matéria-prima, escolheram tecido à base de sisal, uma fibra rígida de baixo custo e fácil obtenção no mercado, que absorve o produto e o libera de forma controlada.

Os ensaios de campo foram conduzidos em duas cidades com perfis epidemiológicos distintos: Belo Horizonte e Porto Velho. Em cada local, foram fabricados cem pares de calçados, metade tratada com o repelente e metade sem o produto, servindo como controle. Os resultados foram consistentes e promissores. Os calçados impregnados apresentaram 74% de repelência contra o Aedes aegypti e 84% contra o Anopheles darlingi, demonstrando eficácia significativa contra os principais transmissores de arboviroses no país.

O desenvolvimento da tecnologia levou três anos de pesquisa intensiva, desde a análise inicial do princípio ativo e seu efeito no comportamento dos mosquitos até a definição do tecido ideal para o protótipo. A promessa de comercialização em breve, combinada com o baixo custo esperado, posiciona o Repeltex® como uma possível mudança no paradigma de proteção contra doenças transmitidas por vetores. Para populações em áreas de risco, especialmente aquelas com acesso limitado a repelentes convencionais ou com sensibilidades a eles, a tecnologia representa uma alternativa genuinamente inovadora.

Nosso objetivo é proteger não apenas a pessoa, mas também o ambiente doméstico de forma contínua e segura, evitando picadas de mosquitos e, consequentemente, reduzindo o risco de transmissão de doenças
— Álvaro Eiras, pesquisador e sócio-fundador da InnoVec
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que escolher tecido de sisal especificamente? Parece uma decisão muito prática.

Model

Exatamente. O sisal absorve o princípio ativo e o libera de forma controlada ao longo do tempo. Não é só eficaz — é viável economicamente e está disponível no mercado. Isso importa quando você quer que uma tecnologia chegue de verdade às pessoas.

Inventor

E por que os testes foram em calçados e não em roupas ou outros tecidos?

Model

Os mosquitos vetores picam principalmente pernas e pés. Mas há algo mais: as pessoas usam sapatos durante o dia e os deixam ao lado da cama à noite. Você cria proteção contínua sem esforço do usuário.

Inventor

A eficácia de 74% a 84% é suficiente? Parece haver margem para falha.

Model

É proteção ambiental, não individual. O repelente cria uma zona de dois a seis metros. Mesmo com essa taxa, você reduz drasticamente o risco de picadas em um espaço. E para pessoas com alergia a repelentes convencionais, é uma mudança de jogo.

Inventor

Quanto tempo levou do conceito até os testes em campo?

Model

Três anos de pesquisa, de 2016 a 2019. Primeiro entenderam o princípio ativo, depois testaram tecidos, depois definiram o sisal. Só depois foram para Belo Horizonte e Porto Velho com cem pares em cada cidade.

Inventor

E agora? A startup vai começar a produzir em massa?

Model

Essa é a promessa. A InnoVec foi fundada em 2023 justamente para isso. O grande teste agora é se conseguem manter o baixo custo na escala comercial e se o mercado absorve uma solução tão diferente do que as pessoas estão acostumadas.

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