Tivemos uma química excelente em 20 segundos
Na margem de uma assembleia global, um aperto de mão de trinta segundos entre dois líderes de temperamentos opostos produziu o que meses de tensão diplomática não conseguiram: uma abertura. Donald Trump, que horas antes descrevia o Brasil como corrupto e incompetente, saiu do breve contato com Lula convencido de que havia encontrado alguém com quem podia negociar — e o mundo financeiro, sempre atento aos sinais, respondeu antes mesmo que os diplomatas processassem o ocorrido. O que esse gesto significa para a relação entre os dois maiores países das Américas ainda está por ser escrito.
- Trump reverteu em segundos um discurso de hostilidade, chamando Lula de 'pessoa muito agradável' logo após condená-lo publicamente na mesma sessão da ONU.
- A contradição foi tão abrupta que ministros brasileiros presentes na plateia chegaram a se agitar, sem saber se o que ouviam era retaliação ou reconciliação.
- O mercado não esperou por explicações: o dólar mergulhou abaixo de R$ 5,30 e a bolsa acelerou ganhos, lendo o gesto de Trump como sinal de distensão comercial.
- A reunião bilateral foi anunciada para a semana seguinte, mas data, formato e pauta real ainda dependem de negociação entre as equipes dos dois governos.
- Enquanto aliados de Lula celebravam seu talento de 'encantador de serpentes', opositores argumentavam que Trump havia, na verdade, colocado o presidente brasileiro numa armadilha diplomática.
Ninguém estava preparado. Minutos depois de descrever o Brasil como 'mais corrupto e incompetente' e de justificar tarifas pesadas contra o país, Donald Trump fez uma reviravolta na Assembleia Geral da ONU: anunciou que se encontraria com Lula na semana seguinte e o chamou de 'homem muito agradável'. O gatilho para essa mudança foi um aperto de mão de 20 a 30 segundos na passagem do púlpito — nada mais.
'Gosto dele e ele gosta de mim. Tivemos uma química excelente', declarou Trump, em palavras que ecoaram entre diplomatas e analistas. O contexto tornava a cena ainda mais surpreendente: Lula havia acabado de fazer críticas duras ao governo americano no mesmo plenário, e ministros brasileiros na plateia chegaram a se agitar com o discurso do presidente.
A reviravolta reforçou uma imagem que circula há tempos na política brasileira: a de Lula como 'encantador de serpentes', capaz de seduzir interlocutores com sua habilidade de ser, nas palavras do senador Ciro Nogueira, 'macio e jeitoso'. Desta vez, o efeito teria se produzido em menos de meio minuto.
O mercado reagiu de imediato. O dólar fez um movimento em V, chegando a ser cotado abaixo de R$ 5,30, e a bolsa registrou alta acima de 1% no início da tarde. O ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral interpretou a mudança como sinal de que Trump teria percebido que o que ouvia sobre o Brasil 'não era verdade' e estaria aberto à negociação econômica.
Nem todos leram a situação como vitória brasileira. Para Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro, Trump era o gênio da cena: havia forçado Lula à mesa de negociação numa posição de fragilidade. A reunião bilateral estava confirmada na agenda, mas data e formato seguiam indefinidos. A quebra de gelo era real — seu significado, ainda não.
Ninguém estava preparado para isso. Minutos depois de condenar o Brasil como "mais corrupto e incompetente", de justificar as tarifas gigantescas impostas ao país e de acusar o governo de censura e repressão, Donald Trump fez uma reviravolta que surpreendeu até observadores experientes. Na Assembleia Geral da ONU, o presidente americano anunciou que teria uma conversa com Luiz Inácio Lula da Silva — e não apenas isso. Ele o descreveu como "um homem muito agradável" e afirmou que os dois tinham combinado de se encontrar na semana seguinte.
O encontro que provocou essa mudança de tom durou entre 20 e 30 segundos. Foi um breve aperto de mão na passagem do bastão no púlpito, nada mais. Mas Trump saiu daquele contato convencido de que havia encontrado alguém com quem podia fazer negócios. "Gosto dele e ele gosta de mim. Gosto de fazer negócio com pessoas de que eu gosto. Quando não gosto, não gosto. Mas tivemos uma química excelente", disse o presidente americano, em declarações que ecoaram entre diplomatas e analistas.
O contexto tornava a reviravolta ainda mais dramática. Lula havia acabado de fazer críticas duras ao governo americano no mesmo plenário. Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, e Ricardo Lewandowski, ministro da Justiça, que estavam na plateia, chegaram a se agitar com o discurso do presidente brasileiro. Ninguém esperava que Trump responderia com elogios em vez de retaliação.
A cena reforçou uma caracterização que circula há tempos entre políticos brasileiros: a de que Lula é um "encantador de serpentes". O senador Ciro Nogueira, do PP de Piauí, já havia dito algo parecido em tom de brincadeira, afirmando que não conseguia conversar com Lula porque ele o seduzia em 15 minutos, com sua capacidade de ser "macio e jeitoso". Agora, em 20 ou 30 segundos, Lula parecia ter feito o mesmo com Trump.
O mercado reagiu imediatamente à declaração do presidente americano. O dólar, que já vinha em queda, fez um movimento em V logo após Trump falar. Chegou a ser cotado abaixo de R$ 5,30 por alguns minutos, embora tenha voltado ao patamar anterior mantendo uma tendência de baixa. A bolsa de valores subiu de forma moderada durante a manhã e acentuou os ganhos após o aceno de Trump, registrando alta acima de 1% no início da tarde.
Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, ofereceu uma interpretação para a mudança de postura. "Parece que Trump viu que o que estava ouvindo sobre o Brasil não era verdade e quer negociação econômica", arriscou, ainda visível sua surpresa com o desdobramento. A questão central agora era se esse gesto diplomático poderia levar a uma redução das tarifas americanas que Trump havia justificado momentos antes.
Mas nem todos viam a situação como uma vitória para o Brasil. Paulo Figueiredo, que forma dupla com Eduardo Bolsonaro em denúncias contra o governo, ofereceu uma leitura diferente. Para ele, Trump era o gênio da situação: havia colocado Lula numa posição impossível, obrigando o presidente brasileiro a ir para a mesa de negociação ouvir "verdades" e tentar negociar algo que ele não teria como cumprir.
No momento, integrantes do governo brasileiro confirmavam que a reunião estava na agenda, mas a data exata e o formato ainda precisavam ser definidos entre as duas equipes. A quebra de gelo era real, mas seu significado — se marcaria o início de uma nova relação bilateral ou apenas um interlúdio diplomático — permanecia em aberto.
Notable Quotes
Encontrei o líder do Brasil, falei com ele. Ele parece um homem muito agradável. Gosto dele e ele gosta de mim. Tivemos uma química excelente.— Donald Trump
Parece que Trump viu que o que estava ouvindo sobre o Brasil não era verdade e quer negociação econômica— Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como um encontro de 20 segundos consegue reverter semanas de críticas e ameaças tarifárias?
Porque Trump opera por impressão pessoal. Ele disse claramente: gosto de fazer negócio com pessoas de que gosto. Lula entendeu isso e agiu em consequência.
Mas Lula estava criticando duramente o governo americano naquele mesmo dia. Como isso não o prejudicou?
Porque Trump separou a crítica política da pessoa. Lula criticou as políticas, não Trump pessoalmente. E Trump respondeu à pessoa, não à crítica.
O mercado acreditou que isso muda as tarifas?
O mercado acreditou que abre a porta para negociação. Não é a mesma coisa. A queda do dólar reflete esperança, não certeza.
Qual é o risco para Lula nessa reunião que vem aí?
Estar numa posição de fraqueza. Se Trump o "seduziu" em 30 segundos, ele pode esperar fazer concessões em 30 minutos. Figueiredo viu isso claramente.
Então Lula caiu numa armadilha?
Ou abriu uma porta. Depende do que ele conseguir negociar. Mas sim, entrou num jogo onde Trump já marcou o primeiro ponto.