Trump recua de ameaça ao Irã e aceita trégua de duas semanas mediada pelo Paquistão

Ameaça de Trump de aniquilar civilização iraniana colocaria em risco milhões de civis iranianos, incluindo crianças e idosos, conforme alertado pelo Papa.
Ameaça cometer crimes de guerra e ofende nossos aliados
Líder democrata no Senado critica ameaça de Trump contra o Irã durante celebrações de Páscoa.

Trump recuou de ameaça de ataque sem precedentes ao Irã após pressão diplomática do Paquistão, aceitando cessar-fogo bilateral de duas semanas. Irã declara vitória, concorda em reabrir Estreito de Ormuz se hostilidades cessarem, e apresenta proposta de 10 pontos incluindo enriquecimento de urânio.

  • Trump recuou de ameaça de ataque ao Irã após pressão do Paquistão, aceitando cessar-fogo bilateral de duas semanas
  • Irã apresentou proposta de 10 pontos incluindo enriquecimento de urânio e suspensão de sanções
  • Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, é central nas negociações
  • Papa Leão XIV qualificou ameaça de Trump como inaceitável
  • Negociações começam em Islamabad na sexta-feira

Trump anuncia trégua de duas semanas com o Irã após ameaçar aniquilar a civilização persa, mediada pelo Paquistão. Teerã aceita reabrir o Estreito de Ormuz se ataques cessarem e apresenta plano de 10 pontos para negociações.

Na manhã de terça-feira, Donald Trump postou no Truth Social uma ameaça que fez o mundo conter a respiração: uma civilização inteira desapareceria naquela noite, nunca mais ressurgiria. Ele falava do Irã. Mas pouco mais de uma hora antes do prazo que havia estabelecido, o presidente americano recuou. O Paquistão havia conseguido o que parecia impossível — convencer Trump a aceitar uma trégua de duas semanas mediada por seu premiê, Shehbaz Sharif, e pelo marechal de campo Asim Munir.

O recuo foi anunciado da mesma forma que a ameaça: em uma postagem na rede social. Trump escreveu que havia concordado em suspender o bombardeio e os ataques ao Irã por um período de duas semanas, desde que Teerã abrisse completamente o Estreito de Ormuz, a via marítima vital por onde passa um quinto do petróleo mundial. Afirmou que os objetivos militares haviam sido cumpridos e superados, e que os EUA estavam muito próximos de um acordo definitivo sobre a paz.

Do outro lado, o Irã declarou vitória. Através do Conselho de Segurança Supremo Nacional, o regime confirmou o cessar-fogo e anunciou que, se os ataques contra o país fossem suspensos, suas forças armadas cessariam as operações defensivas — uma referência clara ao bloqueio do Estreito de Ormuz que havia imposto. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Seyed Abbas Araghchi, afirmou que por duas semanas a passagem segura através do estreito seria possível, mediante coordenação com as Forças Armadas iranianas e considerando limitações técnicas. O Irã também apresentou uma proposta de dez pontos para negociações, que incluía a aceitação americana do enriquecimento de urânio e a suspensão de sanções financeiras. As negociações estavam marcadas para começar em Islamabad na sexta-feira.

O contexto que levou a esse momento foi explosivo. Horas antes, Trump havia feito uma escalada retórica sem precedentes, falando sobre uma mudança de regime no Irã e sugerindo que algo "revolucionariamente maravilhoso" poderia acontecer. Essa ameaça veio em um momento de tensão extrema: o aiatolá Ali Khamenei havia sido morto em um bombardeio israelense em 28 de fevereiro, e seu filho, Mojtaba Khamenei, agora liderava o país. Temendo um ataque iminente, o Irã havia convocado correntes humanas em todo o território para proteger centrais elétricas, usinas nucleares, pontes e instalações energéticas. Segundo as autoridades iranianas, 14 milhões de pessoas atenderam à iniciativa.

Os especialistas ofereceram interpretações diferentes do recuo de Trump. Roberto Goulart Menezes, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, destacou que não foram os serviços de inteligência americanos que levaram Trump a mudar de ideia, mas um pedido direto do Paquistão — um país que não está entre os principais interlocutores do Irã. Menezes também observou que esse novo ultimato fazia parte de uma sequência de recuos desde 28 de fevereiro, e que Trump havia usado sua própria rede social para desfazer declarações feitas horas antes. A pressão era grande: a guerra carecia de legitimidade ante o Congresso, as Nações Unidas e a comunidade internacional. Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, não se surpreendeu com a decisão. Para ela, Trump havia seguido seu padrão habitual: fazer uma ameaça com grande impacto, começar a negociar e recuar. O Irã havia mostrado que não retrocederia, apesar das ameaças.

A reação internacional foi imediata e contundente. O Papa Leão XIV qualificou a ameaça como "inaceitável", lembrando que crianças e idosos iranianos totalmente inocentes seriam vítimas de uma escalada. Dentro dos EUA, a oposição democrata no Congresso passou à ofensiva. Chuck Schumer, líder democrata no Senado, escreveu que enquanto americanos se dirigiam para a igreja para celebrar a Páscoa, o presidente estava nas redes sociais como um "louco descontrolado". Bernie Sanders chamou a postagem de Trump de "delírio de um homem perigoso e desequilibrado". Chris Murphy invocou a 25ª emenda à Constituição, que permite declarar um presidente incapaz para o cargo.

Mas a crítica não veio apenas da oposição. Marjorie Taylor Greene, ex-deputada trumpista que havia rompido com o presidente, classificou a ideia de aniquilar uma civilização inteira como "maldade e loucura". Tucker Carlson, outro ex-aliado, definiu as ameaças como "o primeiro passo para uma guerra nuclear". Anthony Scaramucci, que havia sido porta-voz da Casa Branca brevemente em 2017, chamou Trump de "louco" e defendeu sua destituição. Enquanto isso, republicanos no Congresso guardavam silêncio constrangido. O que vinha pela frente era uma negociação delicada em Islamabad, com o Irã deixando bem claro que não queria apenas um cessar-fogo, mas o fim da guerra.

Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ressurgir
— Donald Trump, em postagem no Truth Social
Nossas mãos estão sobre o gatilho, e o mais leve erro cometido pelo inimigo será respondido com força total
— Conselho de Segurança Supremo Nacional do Irã
O Paquistão não está entre os principais países que dialogam com o Irã. Não foram os serviços de inteligência dos EUA que o levaram a mudar de ideia, mas um pedido do Paquistão
— Roberto Goulart Menezes, professor da UnB
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o Paquistão tinha alguma influência aqui? Não parecia ser um ator central nesse conflito.

Model

Exatamente. O Paquistão não está entre os principais países que dialogam com o Irã. Mas Shehbaz Sharif e o marechal Asim Munir conseguiram fazer algo que ninguém esperava — convencer Trump a recuar de uma ameaça que ele havia feito horas antes. Isso diz muito sobre como Trump funciona: ele responde a pedidos diretos, a pessoas que conseguem falar com ele.

Inventor

E o Irã realmente acreditava que seria atacado?

Model

Sim. Tanto que convocou 14 milhões de pessoas para formar correntes humanas ao redor de centrais elétricas e usinas nucleares. Eles estavam se preparando para o pior. O Irã havia perdido seu líder supremo apenas dois meses antes, em um bombardeio israelense. A tensão era real.

Inventor

Mas Trump recuou. O que isso significa para a negociação que vem agora?

Model

Significa que há espaço para diálogo, mas também muita desconfiança. O Irã deixou claro que quer o fim da guerra, não apenas um cessar-fogo. E Trump gosta de estar em uma posição de quem manda e decide tudo. Essa é uma dinâmica perigosa.

Inventor

Os especialistas acham que isso vai durar?

Model

Há um padrão aqui. Trump faz uma ameaça, negocia, recua. Alguns analistas acham que veremos o mesmo filme novamente em algumas semanas. Mas desta vez, o Irã mostrou que não retrocede diante das ameaças.

Inventor

E a comunidade internacional? Como reagiu?

Model

O Papa chamou de inaceitável. Democratas no Congresso pediram destituição. Até ex-aliados de Trump — como Marjorie Taylor Greene e Tucker Carlson — condenaram a ameaça. Republicanos ficaram em silêncio constrangido. A pressão sobre Trump era enorme.

Contact Us FAQ