Provavelmente estamos caminhando para uma recessão
Em Washington, o governo Trump e os republicanos do Congresso avançam com um ambicioso projeto de cortes tributários, mesmo diante do rebaixamento histórico da nota de crédito americana pela Moody's — um sinal de que a dívida nacional, já em 36 trilhões de dólares, pode chegar a 134% do PIB até 2035. A tensão entre a promessa de prosperidade econômica e o peso crescente das contas públicas revela uma escolha que sociedades enfrentam em cada geração: quem paga o custo do presente, e quem herda o fardo do futuro.
- A Moody's rebaixou a classificação de crédito dos EUA exatamente quando o Congresso tentava aprovar cortes tributários que adicionariam até 5 trilhões de dólares à dívida nacional — uma coincidência que expõe a fragilidade fiscal do país.
- Republicanos linha-dura bloquearam a votação na sexta-feira, exigindo cortes ainda mais severos no Medicaid, o que retiraria cobertura de saúde de 8,6 milhões de americanos de baixa renda.
- A coalizão republicana na Câmara é tênue — 220 a 213 — e está rachada entre conservadores que querem cortar gastos sociais e moderados que temem pagar o preço eleitoral em 2026.
- O secretário do Tesouro Scott Bessent descartou o rebaixamento da Moody's ao vivo na televisão, mas economistas independentes alertam que taxas de juros mais altas podem encarecer crédito para famílias e empresas.
- Johnson aposta em aprovar o projeto antes do feriado de Memorial Day, mas o verdadeiro prazo crítico é o teto da dívida no final do verão — quando um impasse poderia desencadear um calote histórico.
Washington amanheceu sob tensão numa segunda-feira em que o Congresso republicano tentava ressuscitar um projeto de cortes tributários de Trump — justamente quando a Moody's rebaixava a nota de crédito dos Estados Unidos, alertando para uma dívida que pode chegar a 134% do PIB até 2035. O governo optou por ignorar o sinal.
A votação havia naufragado na sexta-feira. Conservadores linha-dura bloquearam o avanço, argumentando que o projeto não cortava gastos com profundidade suficiente. Na noite de domingo, a Câmara se reuniu novamente em sessão extraordinária, com o presidente Mike Johnson garantindo que as negociações seguiam em curso. O projeto pretendia estender os cortes tributários de 2017 — a grande vitória legislativa do primeiro mandato de Trump — e analistas apartidários estimavam que acrescentaria entre 3 e 5 trilhões de dólares à dívida nacional de 36,2 trilhões ao longo de uma década.
O secretário do Tesouro Scott Bessent minimizou o rebaixamento em entrevistas televisivas, afirmando que o crescimento econômico compensaria o endividamento. A Casa Branca ecoou a crítica, mas economistas independentes foram diretos: os EUA têm dívida demais, e o Congresso precisará eventualmente aumentar receitas ou cortar gastos de verdade.
A divisão interna era o maior obstáculo. Com margem de apenas sete cadeiras na Câmara, os republicanos discordavam sobre como financiar os cortes. Conservadores como Chip Roy e Ralph Norman exigiam reduções drásticas no Medicaid — o que retiraria cobertura de 8,6 milhões de americanos pobres. Moderados e senadores resistiam, preocupados com o custo eleitoral junto aos mesmos eleitores que elegeram Trump em novembro. Havia ainda o impasse sobre a dedutibilidade de impostos estaduais e locais, questão vital para legisladores de Nova York e Califórnia.
O rebaixamento da Moody's chegou num momento de incerteza ampliada pelas tarifas de Trump, que já agitavam mercados globais. O senador democrata Chris Murphy foi categórico: "Provavelmente estamos caminhando para uma recessão. Isso significa taxas de juros mais altas para quem quer abrir um negócio ou comprar uma casa." Johnson mirava a aprovação antes do feriado de Memorial Day, mas o prazo mais perigoso estava no final do verão — quando o Congresso precisaria enfrentar o teto da dívida, sob risco de um calote catastrófico.
Washington acordou para uma segunda-feira de tensão. O Congresso americano, sob controle republicano, estava pressionando para avançar um ambicioso projeto de lei de redução de impostos do presidente Donald Trump — exatamente no momento em que a agência de classificação de crédito Moody's havia rebaixado a nota dos Estados Unidos, citando uma dívida que caminhava para 134% do PIB até 2035. Era um sinal de alerta que o governo escolheu ignorar.
A votação havia fracassado na sexta-feira. Um grupo de republicanos conservadores bloqueou o avanço do projeto, argumentando que ele não cortava gastos com severidade suficiente. Agora, na noite de domingo, a Câmara dos Representantes se reuniria novamente em sessão extraordinária do comitê, determinada a levar a proposta adiante. O presidente da Câmara, Mike Johnson, afirmou que estavam no caminho certo. Havia conversas em andamento, disse ele, e haveria mais conversas naquele dia.
O projeto buscava estender os cortes de impostos de 2017, a vitória legislativa emblemática do primeiro mandato de Trump. Analistas apartidários calculavam que a medida adicionaria entre 3 e 5 trilhões de dólares à dívida nacional de 36,2 trilhões nos próximos dez anos. Scott Bessent, secretário do Tesouro, minimizou o rebaixamento da Moody's em entrevistas televisivas, argumentando que o crescimento econômico estimulado pelos cortes compensaria o aumento da dívida. "Não dou muita credibilidade ao rebaixamento da Moody's", disse ele à CNN. A Casa Branca ecoava essa crítica, mas economistas independentes alertavam que o rebaixamento era um sinal claro: os Estados Unidos tinham dívida demais, e legisladores precisavam aumentar receitas ou reduzir gastos.
O problema era que os republicanos estavam divididos. Controlavam a Câmara por uma margem apertada — 220 a 213 — e discordavam profundamente sobre como compensar o custo dos cortes de impostos. Os conservadores linha-dura, como os representantes Chip Roy, do Texas, e Ralph Norman, da Carolina do Sul, exigiam cortes drásticos no Medicaid, o programa de seguro saúde para americanos de baixa renda. O projeto de lei removeria 8,6 milhões de pessoas do programa. Mas republicanos moderados e alguns senadores rejeitavam essa abordagem, temendo alienar os mesmos eleitores que haviam levado Trump à vitória em novembro e cujo apoio seria essencial em 2026, quando o controle do Congresso voltaria a estar em jogo.
Havia também desacordo sobre a dedutibilidade de impostos estaduais e locais — uma questão crucial para um pequeno grupo de legisladores de estados como Nova York e Califórnia, cuja maioria era essencial para manter a frágil coalizão republicana na Câmara. O projeto também buscava eliminar impostos sobre gorjetas e algumas rendas de horas extras, ambas promessas da campanha de Trump, além de aumentar gastos com defesa e financiar a repressão na fronteira.
Em 2017, os republicanos haviam feito a mesma promessa: os cortes de impostos se pagariam sozinhos através do crescimento econômico. O Escritório de Orçamento do Congresso, órgão apartidário, havia estimado depois que as mudanças aumentaram o déficit federal em pouco menos de 1,9 trilhão de dólares ao longo de uma década, mesmo considerando efeitos econômicos positivos. Agora, oito anos depois, o governo Trump prometia novamente equilibrar o orçamento — mas suas tentativas de cortar gastos através do Departamento de Eficiência Governamental de Elon Musk haviam ficado muito aquém dos objetivos.
O rebaixamento da Moody's chegava em um momento de incerteza econômica. As tarifas de Trump já estavam afetando mercados globais, e quando Wall Street reabrisse na segunda-feira, o corte de classificação poderia abalar ainda mais os investidores. O senador democrata Chris Murphy, de Connecticut, advertiu que o rebaixamento sinalizava problemas à frente. "Isso é um grande problema. Provavelmente estamos caminhando para uma recessão", disse ele. "Provavelmente significa taxas de juros mais altas para quem está tentando abrir um negócio ou comprar uma casa."
Johnson esperava que o projeto fosse aprovado pela Câmara antes do feriado de Memorial Day, em 26 de maio. Mas legisladores enfrentavam um prazo muito mais longo e perigoso no final do verão, quando precisariam abordar o teto da dívida dos EUA ou desencadear um potencial calote catastrófico. Por enquanto, a questão era simples: conseguiriam os republicanos manter sua coalizão frágil unida o suficiente para passar pelos cortes de impostos?
Citações Notáveis
Não dou muita credibilidade ao rebaixamento da Moody's— Scott Bessent, secretário do Tesouro
Provavelmente estamos caminhando para uma recessão. Provavelmente significa taxas de juros mais altas para quem está tentando abrir um negócio ou comprar uma casa— Senador Chris Murphy, democrata por Connecticut
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a Moody's rebaixou a classificação dos EUA justamente agora?
A agência citou a dívida crescente e a trajetória insustentável — 134% do PIB até 2035. Mas o timing é importante: isso acontece enquanto Trump está pressionando por mais cortes de impostos que adicionariam trilhões à dívida.
E o governo está ignorando o aviso?
Não exatamente ignorando. Bessent diz que o crescimento econômico compensará. Mas economistas independentes discordam — em 2017, fizeram a mesma promessa e o déficit cresceu mesmo assim.
Qual é o verdadeiro conflito dentro dos republicanos?
Os conservadores querem cortar Medicaid drasticamente. Os moderados temem perder eleitores que precisam do programa. E há ainda a questão das deduções fiscais estaduais que alguns estados precisam.
Então é impossível passar?
Não é impossível, mas é frágil. Eles têm margem de apenas sete votos na Câmara. Um punhado de linha-dura pode bloquear tudo.
E se não conseguirem passar antes do Memorial Day?
Ainda terão que lidar com o teto da dívida no final do verão. Se não resolverem isso, os EUA poderiam entrar em calote.
Isso é realmente possível?
Tecnicamente sim. É por isso que o rebaixamento da Moody's é tão significativo — é um aviso de que os mercados estão começando a levar a situação a sério.