O silêncio entre eles não era acidental
Na margem de uma cúpula dedicada ao equilíbrio econômico global, dois presidentes dividiram o mesmo enquadramento sem se tocar — gesto que, em diplomacia, diz tanto quanto qualquer discurso. O silêncio entre Lula e Trump na foto oficial do G7, na França, reflete semanas de atrito em torno de tarifas americanas de 25% propostas contra produtos brasileiros, justificadas por Washington com uma lista de queixas que vai do Pix à propriedade intelectual. A frieza visível é apenas a superfície de uma tensão comercial e política cujo desfecho aguarda julho.
- Trump passou por Lula na foto oficial do G7 sem um cumprimento sequer, transformando um protocolo rotineiro em declaração diplomática.
- Washington ameaça impor tarifas de 25% sobre exportações brasileiras, citando o Pix, políticas ambientais e decisões do Judiciário contra empresas de tecnologia americanas como práticas desleais.
- Brasília reagiu com indignação, classificando as medidas como inaceitáveis e unilaterais — mas a proposta ainda depende de consultas públicas antes de entrar em vigor.
- Lula se reuniu com Macron, Parmelin e a premiê japonesa Takaichi, mas nenhum encontro bilateral com Trump estava previsto, tornando o não-cumprimento a única interação entre os dois.
- A decisão final sobre as tarifas está marcada para julho, mantendo aberta uma janela de negociação — ou de aprofundamento do silêncio.
Na terça-feira, 16 de junho, Lula e Trump ocuparam o mesmo espaço para a foto oficial do G7 na França. Não trocaram cumprimentos. Logo depois, seguiram para a reunião ampliada como se aquela proximidade física nunca tivesse ocorrido.
O gesto — ou a ausência dele — tinha contexto. Semanas antes, o governo americano anunciara a intenção de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, alegando práticas comerciais desleais. A lista de queixas do Escritório do Representante de Comércio dos EUA era extensa: regras sobre o Pix, políticas ambientais, proteção de propriedade intelectual e ações do Judiciário brasileiro contra empresas de tecnologia americanas. O Brasil respondeu com indignação, rejeitando o que chamou de medidas unilaterais e inaceitáveis.
A proposta ainda não estava em vigor. Passaria por consultas públicas antes de uma decisão final prevista para julho — o que deixava aberta, ao menos formalmente, uma janela para negociação.
Lula participou de debates sobre crescimento econômico equilibrado e defendeu que modelos excludentes deixam países em situação de vulnerabilidade. Reuniu-se com o presidente suíço, com Macron e com a premiê japonesa Sanae Takaichi. Com Trump, não havia encontro bilateral previsto. O não-cumprimento na foto era, portanto, apenas a expressão visível de uma ausência muito maior — e o que viria em julho ainda permanecia em aberto.
Na terça-feira, 16 de junho, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump estiveram lado a lado para a foto oficial da cúpula do G7 na França. Não trocaram cumprimentos. Depois do clique, seguiram para a reunião ampliada do encontro como se aquele momento de proximidade física não tivesse acontecido.
O silêncio entre eles não era acidental. Semanas antes, o governo americano havia anunciado a intenção de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, acusando o Brasil de adotar práticas comerciais desleais. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA listou uma série de questões: regras sobre o Pix, políticas ambientais, combate à corrupção, proteção de propriedade intelectual e, ainda, ações do Poder Judiciário brasileiro contra empresas de tecnologia americanas. Cada item era um ponto de fricção, cada um justificava, na visão de Washington, a punição tarifária.
O Brasil respondeu com indignação. O governo Lula classificou o tratamento como inaceitável e rejeitou a ideia de medidas unilaterais impostas dessa forma. Mas a proposta ainda não havia entrado em vigor. Passaria por consultas públicas antes de uma decisão final prevista para julho. Havia, portanto, ainda tempo para negociação — ou para o silêncio se aprofundar.
Lula estava em solo francês em meio a essas tensões, participando de debates sobre crescimento econômico equilibrado. Na terça-feira, defendeu a ideia de que existe um modelo de crescimento excludente que deixa alguns países em situação de vulnerabilidade. Participaria também de sessões sobre parcerias internacionais e desenvolvimento global, temas que, naquele contexto, carregavam peso político. Havia expectativa de que membros do grupo discutissem redução de transferência de recursos para países emergentes e maior participação do capital privado no financiamento dessas economias — questões que afetavam diretamente o Brasil.
Antes daquele momento sem cumprimento com Trump, Lula já havia se reunido com outros líderes presentes. Conversou com o presidente suíço Guy Parmelin, com o anfitrião francês Emmanuel Macron e com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi. Com Trump, porém, não havia expectativa de encontro bilateral. A ausência de um aperto de mão na foto oficial era, portanto, apenas a manifestação visível de uma ausência maior.
O que aconteceria em julho, quando a decisão sobre as tarifas fosse anunciada, permanecia em aberto. Mas naquele momento, na França, a mensagem era clara: a relação entre Brasil e Estados Unidos estava tensa, e nem mesmo a formalidade de uma foto oficial conseguia disfarçar isso.
Notable Quotes
O governo brasileiro afirmou que o país não pode aceitar medidas unilaterais— Governo Lula
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Trump e Lula não se cumprimentaram se estavam lado a lado para a foto?
Porque a tensão comercial entre os dois países tinha chegado a um ponto em que até um gesto de cortesia se tornava politicamente carregado. O silêncio era intencional.
Mas eles não poderiam ter fingido cordialidade por alguns segundos?
Poderiam, claro. Mas escolheram não fazer. Isso diz algo sobre como cada um quer que o momento seja interpretado — que a frieza é real, que não há fingimento possível.
As tarifas de 25% são realmente sobre Pix e propriedade intelectual, ou há algo mais profundo?
Provavelmente há. Essas são as justificativas formais, mas conflitos comerciais dessa magnitude geralmente têm raízes em competição estratégica maior. O Brasil está crescendo em tecnologia, em influência global. Os EUA estão marcando território.
E o Brasil pode fazer algo para evitar essas tarifas?
Teoricamente sim, durante as consultas públicas até julho. Mas o tom do governo Lula — chamando as medidas de inaceitáveis e unilaterais — sugere que não há muito espaço para negociação. Ambos os lados já plantaram suas bandeiras.
Lula conseguiu algo útil naquele G7, então?
Provavelmente conversas com outros líderes, reafirmação de posições sobre desenvolvimento global. Mas o encontro que importava — com Trump — não aconteceu. Nesse sentido, foi um G7 onde o Brasil ficou um pouco mais isolado.