Eles não falam disso de propósito. Foi tão mau que estava matando Biden.
Vinte anos após a invasão do Afeganistão, a retirada americana de 2021 continua a reverberar no debate político dos Estados Unidos. Donald Trump, em entrevista à Fox News, invocou a Base Aérea de Bagram como símbolo de um poder estratégico abandonado, alertando que a China preencherá o vácuo deixado pela saída americana. Por trás das críticas ao governo Biden, emerge uma questão mais profunda sobre o custo humano e geopolítico de encerrar guerras longas — e sobre quem, afinal, carrega o peso dessas decisões.
- Trump intensifica suas críticas à retirada do Afeganistão, afirmando que a administração Biden deliberadamente enterrou o assunto por seu custo político devastador.
- A Base Aérea de Bagram, centro nevrálgico da presença da Otan por duas décadas, tornou-se o símbolo central do debate: para Trump, abandoná-la foi entregar um trunfo estratégico à China.
- O ataque terrorista do EI-K no aeroporto de Cabul em agosto de 2021, que matou 13 militares americanos, permanece como ferida aberta e argumento recorrente contra a forma como a evacuação foi conduzida.
- Generais americanos recomendavam manter 2.500 soldados no país; Biden rejeitou a proposta, e agora Trump e os militares divergem publicamente sobre quem deve responder pelo caos da saída.
- As afirmações geográficas de Trump sobre a proximidade de Bagram com instalações nucleares chinesas não resistem à verificação factual, revelando que o debate mistura estratégia legítima com imprecisão retórica.
Donald Trump voltou à ofensiva contra a retirada americana do Afeganistão em entrevista à Fox News, desta vez centrando suas críticas na Base Aérea de Bagram — instalação que serviu como coração da presença da Otan no país por vinte anos. Para o ex-presidente, abandonar Bagram foi um erro estratégico grave, especialmente diante da proximidade geográfica com a China. Suas estimativas de distância, porém, não correspondem à realidade: a fronteira chinesa fica a 525 quilômetros, e a usina nuclear mais próxima está a mais de 4 mil quilômetros do Afeganistão.
Trump argumentou que a Casa Branca evita falar sobre a retirada porque o custo político foi devastador, sugerindo que o tema foi deliberadamente silenciado após os primeiros dias de repercussão. Ele afirmou que, se ainda estivesse na presidência, teria mantido Bagram e a Instalação de Detenção de Parwan — que abriga milhares de prisioneiros jihadistas — e conduzido a saída de forma radicalmente diferente, sem as baixas do ataque terrorista do EI-K no aeroporto de Cabul em agosto de 2021, que matou 13 militares americanos.
O contexto revela um desacordo profundo dentro do próprio establishment americano: os generais Kenneth McKenzie e Mark Milley recomendaram ao Congresso manter 2.500 soldados no Afeganistão, proposta que Biden rejeitou temendo retaliação do Talibã. A cronologia da saída também atravessa duas administrações — foi Trump quem assinou o acordo de Doha com o Talibã em fevereiro de 2020, prevendo a retirada até abril daquele ano, prazo que Biden posteriormente adiou para setembro de 2021.
Desde então, Trump mantém crítica consistente sobre a execução da operação, usando Bagram e o espectro da influência chinesa como eixo de uma visão geopolítica mais ampla sobre o vácuo deixado pela presença americana na região.
Donald Trump voltou a criticar a retirada americana do Afeganistão em entrevista à Fox News na sexta-feira, 7 de novembro, desta vez alertando que a China tomará controle da Base Aérea de Bagram, a instalação militar que serviu como centro nevrálgico da presença da Otan no país durante vinte anos de ocupação.
A base, que abrigou dezenas de milhares de militares atlânticos entre outubro de 2001 e agosto de 2021, representa para Trump um ativo estratégico que os Estados Unidos nunca deveriam ter abandonado. O ex-presidente argumentou que a administração Biden evita falar sobre a retirada porque o custo político foi devastador. "Eles não falam disso de propósito. Foi tão mau que estava matando [Joe Biden]. Dois, três dias depois de terminar, eles deixaram até de o mencionar", disse Trump, sugerindo que a Casa Branca tentou enterrar o assunto.
Se ainda estivesse na presidência, Trump afirmou que teria mantido a posse de Bagram e da Instalação de Detenção de Parwan, que funciona dentro da base e abriga milhares de prisioneiros jihadistas. Ele argumentou que a proximidade geográfica com a China tornava a base essencial para os interesses americanos na região. Suas estimativas de distância, porém, não correspondem à realidade: Trump sugeriu que Bagram fica a uma hora da instalação nuclear chinesa mais próxima, quando na verdade a fronteira com a China está a 525 quilômetros de distância, e a usina nuclear de Fangchenggang, a mais próxima, localiza-se mais de 4 mil quilômetros a sudeste do Afeganistão.
O ex-presidente reconheceu que a retirada era inevitável, mas insistiu que teria sido executada de forma radicalmente diferente. "Nós teríamos retirado todas as pessoas, teríamos levado todo o nosso equipamento, não teríamos soldados sem mãos e pés", comentou, referindo-se ao ataque terrorista de agosto de 2021 no aeroporto de Cabul que matou 13 militares americanos e feriu muitos outros. O ataque foi reivindicado pelo EI-K, um ramo do Estado Islâmico que opera no Afeganistão e Paquistão, durante a evacuação caótica de civis afegãos e tropas da Otan.
Trump culpou os generais militares americanos pela forma como a retirada foi conduzida, afirmando que eles "nunca deviam ter deixado isso acontecer". Sua crítica ocorre em contexto de desacordo significativo entre a liderança militar e a administração Biden sobre a estratégia. Em setembro, Kenneth McKenzie, comandante do Comando Central dos EUA, e Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, informaram ao Congresso que recomendavam manter um mínimo de 2.500 militares permanentemente no Afeganistão para garantir as operações militares americanas. Biden rejeitou a proposta, temendo que a presença contínua provocasse retaliação do Talibã.
A cronologia da saída reflete mudanças de estratégia entre administrações. Em fevereiro de 2020, sob Trump, os EUA e o Talibã assinaram um acordo em Doha prevendo a retirada das tropas americanas até o final de abril. Quando Biden assumiu em janeiro de 2021, adiou o prazo para 11 de setembro de 2021, data escolhida para coincidir com o vigésimo aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro que levaram à invasão do Afeganistão duas décadas antes.
Desde que as tropas americanas e da Otan deixaram o país em agosto, Trump tem mantido crítica consistente sobre a execução da operação. Sua preocupação com Bagram e com a possibilidade de controle chinês reflete uma visão geopolítica mais ampla sobre o vácuo deixado pela retirada americana e o papel que potências rivais podem assumir na região.
Citações Notáveis
Nós teríamos ficado com Bagram, pois se encontra junto da China, e está a uma hora de sua instalação nuclear, e a demos também. Agora a China vai tomar conta de Bagram, na minha opinião.— Donald Trump, ex-presidente dos EUA, à Fox News
Estava na hora de sair, mas a forma como [Biden] saiu foi um desastre tão grande.— Donald Trump
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Trump insiste que a China tomará Bagram? A base não está sob controle talibã agora?
Está, sim. Mas para Trump, o ponto não é quem controla hoje — é que os EUA abriram mão de um ativo estratégico que poderia ter mantido. Ele vê Bagram como um tabuleiro de xadrez geopolítico, não apenas como uma base militar.
Ele disse que fica a uma hora da China. Isso é verdade?
Não. A fronteira chinesa fica a 525 quilômetros de distância. A usina nuclear mais próxima da China está a mais de 4 mil quilômetros. Trump exagerou drasticamente a proximidade.
Então por que ele faria isso? Está mentindo ou apenas mal informado?
Provavelmente ambos. Ele está construindo uma narrativa — que Biden desperdiçou um trunfo estratégico — e os detalhes geográficos não importam tanto quanto a conclusão que quer que as pessoas tirem.
Mas os generais americanos queriam ficar. Biden os ignorou?
Queriam manter 2.500 soldados, sim. Biden recusou porque temia represálias do Talibã. Era uma aposta: sair completamente ou ficar indefinidamente. Ele escolheu sair.
E os 13 soldados que morreram? Isso muda a equação?
Muda tudo. Trump usa aquelas mortes para dizer que a retirada foi um desastre. Mas também é verdade que ficar teria significado mais risco, mais tempo, mais soldados em perigo. Não há resposta limpa aqui.
Então qual é realmente o argumento de Trump?
Que se ele estivesse no poder, teria saído melhor — sem deixar equipamento, sem deixar prisioneiros, sem aquelas mortes. É uma crítica tanto da decisão quanto da execução.