A designação abre a porta para ações militares sem aprovação do Congresso
Num gesto que transcende o campo da segurança pública, os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais, decisão que entra em vigor em 5 de junho de 2026. A medida, parte de uma estratégia mais ampla que já rotulou 14 grupos latino-americanos sob a administração Trump, foi tomada deliberadamente contra a posição do governo Lula — e às vésperas de sua visita a Washington. Como tantas vezes na história das Américas, o que se apresenta como política de segurança carrega consigo o peso de disputas de soberania, alinhamentos ideológicos e a sombra de intervenções que o passado não deixa esquecer.
- Os EUA designaram PCC e CV como terroristas internacionais em 28 de maio, ignorando a oposição formal do governo brasileiro e criando uma crise diplomática às vésperas da visita de Lula a Washington.
- A classificação abre caminho para congelamento de ativos, sanções financeiras e criminalização de qualquer apoio material às facções — medidas que podem atingir o sistema financeiro brasileiro mesmo sem intenção ilícita dos bancos.
- O histórico recente é inquietante: antes de operações militares contra cartéis venezuelanos e mexicanos, os EUA usaram exatamente esse tipo de designação como passo preparatório, alimentando o temor de Brasília sobre o que pode vir a seguir.
- O senador Flávio Bolsonaro apoiou ativamente a designação, revelando que a decisão americana tem raízes também na política interna brasileira e no confronto entre oposição e governo Lula.
- O Itamaraty permanece em silêncio público, enquanto diplomatas alertam que o Brasil pode se tornar alvo colateral de sanções americanas pelo fluxo de dinheiro do crime organizado em seu sistema financeiro.
Na quinta-feira, 28 de maio, o governo americano formalizou o que vinha sendo sinalizado há meses: o PCC e o Comando Vermelho foram oficialmente classificados como organizações terroristas internacionais, com vigência a partir de 5 de junho. A decisão foi anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio, que argumentou que as duas facções possuem conexões ilícitas que ultrapassam as fronteiras do Brasil e alcançam os Estados Unidos.
A medida não é um ato isolado. Desde seu retorno à Casa Branca, Trump já aplicou a mesma classificação a 14 grupos criminosos da América Latina, construindo uma rede que abrange desde cartéis mexicanos até facções do Haiti, Venezuela e Colômbia. O PCC e o CV são os mais recentes a integrar essa lista — e os únicos brasileiros. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato de oposição, pediu expressamente e ofereceu apoio político para que a designação acontecesse, revelando a dimensão interna do episódio.
Para Brasília, os efeitos práticos são amplos e preocupantes. A classificação facilita congelamento de ativos, sanções financeiras, banimento de vistos e criminalização do apoio material às facções. Embora a lei americana não autorize ataques militares diretos a partir dessa designação, o histórico recente é revelador: antes de operações contra cartéis venezuelanos e mexicanos no Caribe e no Pacífico, os EUA usaram exatamente esse mecanismo como passo preparatório.
Interlocutores da diplomacia brasileira alertam ainda para outro risco: o sistema financeiro do país pode se tornar alvo de sanções americanas pelo fluxo de dinheiro do crime organizado, mesmo que bancos não tenham conhecimento da origem ilícita dos recursos. É um cenário que preocupa tanto o governo quanto o setor privado.
O que fica evidente é que a designação vai além de uma medida técnica de segurança. Ela chega num momento em que Lula se preparava para visitar Washington — uma viagem que deveria reafirmar laços bilaterais, mas que agora ocorre sob a sombra de uma decisão unilateral tomada deliberadamente contra a posição do governo brasileiro.
Na quinta-feira, 28 de maio, o governo americano formalizou uma decisão que já vinha sendo sinalizada há meses: o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, as duas maiores facções criminosas do Brasil, passaram a ser oficialmente classificadas como organizações terroristas internacionais. A medida entra em vigor no dia 5 de junho e marca um ponto de tensão crescente entre Washington e Brasília, justamente quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se preparava para uma viagem à capital americana.
Esta designação não é um ato isolado. Desde que retornou à Casa Branca, Donald Trump já rotulou 14 grupos criminosos da América Latina com a mesma classificação. O secretário de Estado Marco Rubio, um republicano com raízes familiares cubanas e base eleitoral latino-americana, tem liderado essa ofensiva. Em seu comunicado, Rubio argumentou que as duas facções brasileiras possuem influência e conexões ilícitas que ultrapassam as fronteiras do Brasil e chegam até o território dos Estados Unidos. A administração Trump, segundo ele, usará todas as ferramentas disponíveis para proteger a nação americana e seus interesses de segurança.
O que torna essa decisão particularmente delicada é o contexto político em que foi tomada. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato de oposição ao Palácio do Planalto, pediu expressamente e ofereceu apoio político para que a designação acontecesse. O Itamaraty, procurado para comentar, ainda não se manifestou publicamente. A diplomacia americana já havia alertado, em março deste ano, que o PCC e o CV representavam ameaças significativas à segurança regional, mas a formalização da designação ocorre deliberadamente contra a posição do governo Lula.
Os efeitos práticos dessa classificação são amplos e preocupantes para Brasília. A designação facilita o congelamento de ativos do narcotráfico, a investigação e monitoramento de membros das facções, a troca de informações de inteligência, a aplicação de sanções financeiras, o banimento de vistos e a criminalização do apoio material. Embora a lei americana não autorize ataques militares diretos a partir dessa designação, é prática comum que organizações tachadas de terroristas se tornem alvo de operações militares dos EUA fora de seu território.
Esse temor não é infundado. Nos últimos meses, o Comando Sul das Forças Armadas americanas atacou barcos supostamente pertencentes a cartéis venezuelanos e mexicanos no Caribe e no Pacífico. Antes de uma operação militar em Caracas para capturar Nicolás Maduro, os EUA designaram as facções venezuelanas Tren de Aragua e Cartel de Los Soles como terroristas. O Departamento de Justiça chegou a acusar formalmente Maduro de liderar Los Soles, mas depois recuou. O argumento do combate ao narcotráfico foi usado para posicionar embarcações e aeronaves no Mar do Caribe, bombardear barcos de pequeno porte acusados de transportar drogas, sem que tivessem demonstrado atividade ilegal ou violenta, e posteriormente serviu de base para o ataque que derrubou o ditador.
Interlocutores da diplomacia brasileira também alertam para um risco adicional: o sistema financeiro do Brasil pode se tornar alvo de sanções americanas por causa do fluxo de dinheiro do crime organizado, mesmo que bancos não tenham conhecimento da origem ilícita dos recursos. É um cenário que preocupa não apenas o governo, mas também o setor privado.
A lista de designações sob Trump revela a amplitude dessa estratégia. Desde fevereiro de 2025, quando foram designados seis cartéis mexicanos em um único dia, passando por grupos do Haiti, Equador, Venezuela, El Salvador e Colômbia, até chegar ao PCC e CV em maio de 2026, a administração Trump construiu uma rede de classificações que abrange praticamente toda a América Latina. Apenas Equador e El Salvador, cujos governos estão ideologicamente alinhados a Trump, são considerados parceiros diretos no combate à criminalidade organizada transnacional. Os demais países mantêm colaboração, mas seus governos divergem politicamente de Trump.
O que fica claro é que essa designação representa mais do que uma medida técnica de segurança. É um movimento que carrega peso diplomático, político e potencialmente militar, em um momento em que as relações entre Brasil e Estados Unidos já enfrentam outras tensões. A viagem de Lula a Washington, que deveria ser uma oportunidade de reafirmar laços bilaterais, agora ocorre sob a sombra dessa decisão unilateral.
Citações Notáveis
A administração Trump vai continuar a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger a nossa nação e os nossos interesses de segurança mantendo drogas ilícitas longe das nossas ruas— Marco Rubio, secretário de Estado americano
As duas facções possuem influência e conexões ilícitas que se estendem muito além das fronteiras do Brasil, da região e estão dentro do nosso País— Marco Rubio, em comunicado oficial
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o Brasil se opõe a essa designação se o PCC e o Comando Vermelho são de fato organizações criminosas violentas?
Não é que o Brasil negue a natureza criminosa dessas facções. O problema é que a designação como terrorista abre a porta para ações militares americanas sem aprovação do Congresso ou da ONU, como Trump já fez na Venezuela.
Mas isso não seria uma ferramenta útil para combater o crime organizado?
Seria, se usada de forma coordenada. O temor é que seja usada unilateralmente, como pretexto para operações que extrapolam o combate ao narcotráfico. Vimos isso acontecer com Maduro.
E quanto ao risco ao sistema financeiro brasileiro que mencionam?
Se bancos brasileiros são acusados de lavar dinheiro de organizações terroristas, mesmo sem saber, o sistema financeiro inteiro pode sofrer sanções. É um risco sistêmico.
Flávio Bolsonaro pediu essa designação. Isso não sugere que há apoio político doméstico?
Há apoio da oposição, sim. Mas o governo em exercício se opõe, e é com ele que os EUA devem negociar. Usar a designação como ferramenta política interna complica ainda mais as relações.
Qual é o precedente mais preocupante aqui?
A Venezuela. Os EUA designaram grupos como terroristas, depois usou isso para justificar operações militares contra Maduro. Se o mesmo padrão se repete com o Brasil, as consequências seriam muito maiores.
O que o Brasil deveria fazer agora?
Negociar bilateralmente, deixar claro que não aceita intervenções militares em seu território, e proteger seu sistema financeiro de possíveis sanções. A diplomacia é a única ferramenta que tem.