enquanto alguns viam oportunidade política, outros viam uma obrigação humanitária
Trump afirmou que a Venezuela está feliz e dançando nas ruas apesar dos dois terremotos de magnitude 7,5 que devastaram o país. Venezuela registra mais de 50 mil desaparecidos, 188 mortos confirmados e 1,5 mil hospitalizados após os tremores no litoral de Morón.
- Dois terremotos de magnitude 7,5 e 7,2 atingiram a Venezuela na quarta-feira (24)
- Mais de 40 mil pessoas desaparecidas, 188 mortes confirmadas, 1,5 mil hospitalizadas
- Brasil enviou avião KC-390 com 36 bombeiros, 9 toneladas de equipamentos e segundo voo no sábado com hospital de campanha
Donald Trump menosprezou a catástrofe dos terremotos na Venezuela, afirmando que o povo está feliz, enquanto Lula anuncia missão humanitária brasileira para auxiliar vítimas.
Na noite de sexta-feira, enquanto a Venezuela enfrentava uma das piores catástrofes de sua história recente, Donald Trump subia ao palco em um evento político americano para fazer uma afirmação que deixaria muitos atordoados: o país estava feliz, as pessoas dançavam nas ruas, e tudo corria bem. Isso acontecia dias depois que dois terremotos de magnitude 7,5 e 7,2 haviam devastado a região costeira de Morón, a 160 quilômetros de Caracas, no estado de La Guaira.
Os números da tragédia eram brutais. Até aquele momento, 188 mortes haviam sido confirmadas oficialmente. Mais de 1,5 mil pessoas estavam hospitalizadas. Mas o número que mais pesava era o dos desaparecidos: segundo um site criado pela sociedade civil para rastrear vítimas, havia mais de 40 mil pessoas cujo paradeiro era desconhecido. Prédios inteiros desabaram. Casas foram reduzidas a escombros. A infraestrutura da região entrou em colapso.
Trump, porém, via a situação de forma radicalmente diferente. Em seu discurso, ele mencionou que havia havido "uma guerra de um dia" contra a Venezuela — referência ao sequestro de Nicolás Maduro — e que agora os Estados Unidos estavam extraindo milhões de barris de petróleo do país. Sim, reconheceu, o terremoto havia sido "terrível", edifícios caíram. Mas, insistiu, apesar disso tudo, o país estava feliz novamente. As pessoas estavam dançando pelas ruas. Os governantes atuais estavam fazendo um bom trabalho.
Enquanto Trump falava, do outro lado do continente, Luiz Inácio Lula da Silva estava tomando medidas concretas. Na sexta-feira pela manhã, um avião KC-390 da Força Aérea Brasileira decolaria do Aeroporto de Guarulhos carregando uma missão de busca e resgate urbano. A bordo: 36 bombeiros vindos de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Quatro técnicos da Defesa Civil Nacional. Quatro técnicos da Agência Nacional de Telecomunicações. Nove toneladas de equipamentos especializados para ajudar a encontrar pessoas nos escombros e prestar socorro.
Lula havia conversado por telefone com Delcy Rodríguez, a presidenta encarregada da Venezuela, para expressar a solidariedade do Brasil e coordenar a melhor forma de apoio. O presidente brasileiro anunciou que um segundo voo sairia no sábado, desta vez carregando equipamentos para montar um hospital de campanha, 100 purificadores de água com painéis solares, medicamentos e material cirúrgico. O Ministério da Saúde brasileiro também já estava em contato direto com a Venezuela para enviar pessoal e insumos da área de saúde.
A diferença entre as duas respostas era gritante. De um lado, um presidente americano minimizando uma catástrofe humanitária enquanto celebrava ganhos geopolíticos e econômicos. Do outro, um presidente vizinho mobilizando recursos militares, pessoal especializado e equipamentos para tentar salvar vidas. Lula encerrou seu comunicado com uma promessa: o Brasil continuaria acompanhando os trabalhos de socorro para prestar todo o apoio necessário aos "irmãos venezuelanos". A mensagem era clara: enquanto alguns viam oportunidade política, outros viam uma obrigação humanitária.
Citações Notáveis
apesar do que aconteceu ontem, que foi terrível, foi terrível o que aconteceu, foi um grande terremoto, edifícios caíram, mas, apesar disso, o país está feliz novamente, as pessoas estão felizes, estão dançando pelas ruas— Donald Trump, durante evento político na sexta-feira
Seguiremos acompanhando o desenvolvimento dos trabalhos de socorro às vítimas para prestar todo o apoio necessário aos nossos irmãos venezuelanos— Luiz Inácio Lula da Silva, em comunicado sobre a missão humanitária
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como Trump consegue falar de dança nas ruas quando há 40 mil pessoas desaparecidas?
Porque para ele a Venezuela não é um país com pessoas — é um tabuleiro. Maduro saiu, os EUA ganham petróleo, logo a partida foi vencida. Os mortos são detalhes que não cabem na narrativa da vitória.
Mas ele reconheceu que o terremoto foi terrível. Isso não conta como empatia?
Reconhecer não é o mesmo que agir. É como dizer "que pena" e depois virar as costas. Ele mencionou a tragédia apenas para poder dizer que, apesar dela, tudo está bem. É uma forma de apagar o sofrimento.
Por que Lula enviou bombeiros e não apenas dinheiro?
Porque dinheiro é abstrato. Bombeiros são corpos que entram nos escombros. São pessoas que dizem: nós vamos procurar seus mortos. É a diferença entre solidariedade de discurso e solidariedade de ação.
Você acha que Trump sabe quantas pessoas estão desaparecidas?
Provavelmente sabe. Mas números grandes demais não cabem em um discurso político. Quarenta mil é uma abstração. Uma pessoa é uma história. Trump escolheu não contar histórias.
O que muda quando o Brasil envia essa missão?
Muda que alguém está procurando. Que as famílias dos desaparecidos sabem que não estão completamente sozinhas. Que há um país que diz: seus mortos importam. É pequeno diante da escala da tragédia, mas é real.