Os Estados Unidos reforçam laços com a direita regional enquanto mantêm distância de Brasília
Ao compartilhar uma coluna conservadora que posiciona o Brasil entre os quatro grandes obstáculos americanos na América Latina, Donald Trump sinalizou, nesta terça-feira, uma leitura geopolítica clara: Washington está tecendo alianças com governos de direita na região enquanto mantém Brasília fora do círculo de confiança. A eleição presidencial brasileira de 2026, descrita no texto como potencialmente a mais importante do hemisfério, torna-se assim não apenas uma disputa doméstica, mas um nó na reconfiguração da ordem regional.
- Trump amplificou um artigo que trata o Brasil como adversário geopolítico, não como parceiro — uma escolha que raramente é acidental na diplomacia de influência.
- O texto ecoa alegações desacreditadas sobre fragilidade do sistema eleitoral brasileiro, reativando uma narrativa que a família Bolsonaro utiliza como combustível político.
- A exclusão do Brasil do Escudo das Américas, coalizão militar e política lançada por Trump em março, torna concreta a distância entre Washington e Brasília.
- Enquanto Argentina, Chile, El Salvador e Equador são listados como aliados, o secretário Rubio coloca o Brasil na mesma frase que Nicarágua, Cuba e Venezuela ao enumerar exceções.
- O que está em jogo em 2026 ultrapassa o pleito interno: o resultado pode determinar se o Brasil retorna ao círculo de influência americana ou aprofunda seu isolamento estratégico.
Donald Trump compartilhou nesta terça-feira, 23 de junho, uma coluna publicada no portal conservador Newsmax, assinada por John Gizzi, que posiciona o Brasil como um dos quatro grandes obstáculos enfrentados pelos Estados Unidos na América Latina. O texto celebra oito vitórias da direita regional em sete anos e dedica atenção especial ao cenário eleitoral brasileiro, descrevendo as próximas presidenciais como potencialmente a disputa mais importante do hemisfério ocidental.
Gizzi escreve que apoiadores de Jair Bolsonaro se mobilizam em torno de seu filho para remover Lula do poder, e afirma que a eleição já gera debate sobre a integridade do processo eleitoral brasileiro. Essa alegação reproduz uma narrativa historicamente acionada pela direita bolsonarista — e amplamente contestada por estudiosos e pelas próprias instituições eleitorais do país.
O artigo lista os aliados declarados de Trump na região: Bukele, Milei, Noboa e outros líderes de direita recentemente eleitos. Essa lista tem peso concreto: em março, Trump lançou o Escudo das Américas, coalizão política e militar que já reúne Argentina, Chile, El Salvador e Equador. O secretário Marco Rubio anunciou que novos membros devem se somar nos próximos meses.
O Brasil, porém, está fora. Ao discursar no Senado, Rubio listou as exceções à amizade americana na região — e incluiu o Brasil ao lado de Nicarágua, Cuba e Venezuela. A combinação entre essa exclusão e o compartilhamento de Trump de um texto que trata Brasília como desafio geopolítico central revela uma estratégia deliberada. O que acontecer nas eleições brasileiras de 2026 pode redefinir — ou aprofundar — esse distanciamento.
Donald Trump repassou uma coluna nesta terça-feira, 23 de junho, que posiciona o Brasil como um dos quatro grandes obstáculos enfrentados pelos Estados Unidos na América Latina. O texto, publicado no portal conservador Newsmax e assinado pelo colunista John Gizzi, celebra o que chama de oito vitórias da direita e extrema direita em eleições regionais ao longo de sete anos — uma narrativa que reduz a complexa história política latino-americana a um arco de triunfo ideológico.
O artigo que Trump escolheu amplificar dedica atenção especial ao Brasil. Gizzi escreve que as próximas eleições presidenciais brasileiras podem se tornar a disputa mais importante do hemisfério ocidental. Ele observa que apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro estão se mobilizando em torno de seu filho com o objetivo de remover do poder o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A caracterização é direta: uma tentativa de destituição de um governo de esquerda por forças de direita.
O colunista também afirma que a eleição brasileira já gera intenso debate sobre a integridade do sistema eleitoral do país e se o processo será conduzido de forma livre e justa. Essa alegação ecoa narrativas que a direita brasileira, especialmente a família Bolsonaro, tem acionado repetidamente — a ideia de que o sistema eleitoral brasileiro é frágil ou comprometido. Estudiosos e instituições eleitorais brasileiras contestam essa caracterização, mas ela persiste como ferramenta política.
O artigo que Trump compartilhou lista seus aliados declarados na região: El Salvador sob Nayib Bukele, Argentina sob Javier Milei, Equador sob Daniel Noboa, Honduras sob Nasry Asfura, Bolívia sob Rodrigo Paz, Chile sob José Kast, e Colômbia sob Abelardo de la Espriella, eleito no domingo anterior. O texto também celebra a liderança de Keiko Fujimori no Peru, embora com 99,71% das urnas apuradas ela tivesse apenas 50,11% dos votos — uma margem que deixava espaço para mudanças.
Essa lista de aliados não é casual. Em março, Trump lançou o Escudo das Américas, uma coalizão política e militar voltada para o Hemisfério Ocidental. No início de junho, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou que essa iniciativa deveria ganhar novos membros nos meses seguintes. A coalizão, que já inclui Argentina, Chile, El Salvador e Equador, foi criada para ampliar a cooperação regional no combate ao terrorismo, ao tráfico de drogas e ao crime organizado transnacional.
Mas há uma exclusão notável. Quando Rubio falou ao Senado sobre a amizade dos Estados Unidos com países latino-americanos, ele listou as exceções: Nicarágua, Cuba, Venezuela — e Brasil. Rubio reconheceu que o Brasil está em meio a um ciclo eleitoral, mas ainda assim o colocou fora do círculo de aliados e amigos. Essa exclusão deliberada, combinada com o compartilhamento de Trump de um artigo que posiciona o Brasil como um desafio geopolítico central, sinaliza uma estratégia clara: os Estados Unidos estão reforçando laços com governos de direita na região enquanto mantêm distância de Brasília. O que acontece nas eleições brasileiras de 2026 pode redefinir essa dinâmica.
Notable Quotes
A próxima eleição presidencial poderá se tornar a disputa mais importante do hemisfério. Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro estão se unindo em torno de seu filho na tentativa de destituir o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva— John Gizzi, colunista do Newsmax, conforme compartilhado por Trump
É fantástico que, tirando Nicarágua, Cuba, Venezuela e, claro, Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, temos uma região cheia de aliados e amigos dos Estados Unidos— Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, ao Senado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Trump escolheria compartilhar especificamente este artigo agora, meses antes das eleições brasileiras?
Porque sinaliza apoio a uma mudança de poder no Brasil. Ao amplificar um texto que fala de mobilização bolsonarista contra Lula, Trump está validando essa narrativa para sua base e para atores políticos na região.
O artigo menciona "integridade do sistema eleitoral brasileiro". Isso é uma preocupação genuína ou uma tática?
É uma tática que ganhou força. A direita brasileira tem usado essa alegação repetidamente, mas instituições eleitorais e estudiosos contestam. Trump amplificando isso dá peso político a uma narrativa contestada.
Por que o Brasil está excluído do Escudo das Américas enquanto Argentina e Chile estão dentro?
Porque esses países têm governos alinhados com Trump ideologicamente. O Brasil, sob Lula, não está. É uma escolha geopolítica clara — cooperação com aliados ideológicos, distância de quem não o é.
Isso significa que Trump quer que Bolsonaro vença em 2026?
Não é tão simples quanto querer que alguém vença. É mais: Trump está sinalizando que um Brasil governado por alguém alinhado com sua visão seria preferível. O que seus apoiadores fazem com esse sinal é outra questão.
Qual é o risco para o Brasil nessa dinâmica?
Que eleições se tornem um proxy de conflito geopolítico maior. Quando potências externas sinalizam preferências claras, polarizam ainda mais disputas internas e podem deslegitimar resultados que não correspondem a essas preferências.