O tanque dele vai acabar mais rápido, e ele vai gastar mais
Etanol deve custar até 70% do preço da gasolina para ser economicamente viável, segundo especialistas da UFRJ. Preços atuais mostram etanol em R$ 7,989 e gasolina em R$ 8,399, resultando em relação de 95% — acima do limite recomendado.
- Etanol deve custar no máximo 70% do preço da gasolina para ser economicamente viável
- Preços atuais: gasolina a R$ 8,399 e etanol a R$ 7,989 — relação de 95%, acima do limite
- Vendas de etanol hidratado cresceram 26,20% entre janeiro e fevereiro de 2022
- GNV é viável apenas para quem roda 250-300 quilômetros por dia
Apesar da alta de 18,57% na gasolina, trocar para etanol pode não ser vantajoso economicamente. Especialistas alertam que o etanol deve custar no máximo 70% do preço da gasolina para compensar seu menor rendimento energético.
Quando a gasolina sobe 18,57% em poucos meses, o etanol parece uma saída óbvia. As vendas de etanol hidratado cresceram 26,20% entre janeiro e fevereiro deste ano, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria da Cana de Açúcar. Mas especialistas têm uma mensagem clara para motoristas: nem sempre vale a pena fazer essa troca.
O problema está na física do combustível. Um litro de etanol contém apenas cerca de 70% da energia de um litro de gasolina. Isso significa que o carro roda menos quilômetros com etanol, consome mais frequentemente e, no fim das contas, gasta mais dinheiro. Márcio D'Agosto, professor de Engenharia de Transporte da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica a matemática simples: o preço do etanol precisa ser no máximo 70% do preço da gasolina para que a troca faça sentido econômico. Para calcular, basta dividir o preço do etanol pelo preço da gasolina. Se o resultado for menor que 0,7, o etanol é viável. Se for maior, não compensa.
Os números atuais mostram o problema. Na semana de 13 a 19 de março, a Agência Nacional do Petróleo registrou gasolina comum a R$ 8,399 por litro e etanol hidratado a R$ 7,989. Dividindo um pelo outro, o resultado é 0,95 — bem acima do limite de 0,7. "Não vale a pena", disse D'Agosto. "Não dá 70%." Os preços variam bastante por estado. A gasolina chegou a R$ 8.399 no Rio de Janeiro, R$ 8.390 no Maranhão e R$ 8.299 em São Paulo, com mínima de R$ 5.899 também em São Paulo. O etanol oscilou entre R$ 7.989 no Rio de Janeiro e R$ 3.979 em Mato Grosso e São Paulo.
Diante dessa realidade, consumidores estão encontrando outras formas de lidar com os custos altos. Romildo Guerrante, jornalista, costumava fazer passeios até Petrópolis ou Nova Friburgo, mas parou. Rômulo Cipriani Costa, microempresário, deixou de levar os filhos à escola de carro e agora vão de bicicleta. Ele também cortou praticamente todos os passeios, mantendo apenas aqueles que consegue fazer de bike. José Paulo Zymmerman, gerente de banco, usa o carro apenas nos fins de semana e prefere o metrô nos dias úteis, além de adotar uma direção mais calma para economizar combustível. Gilson Munhoz Ribeiro, aposentado, simplesmente evita passeios desnecessários.
Há uma alternativa que D'Agosto considera mais promissora: o gás natural veicular, ou GNV. Ele é energeticamente equivalente à gasolina e, quando o preço por metro cúbico fica abaixo do preço da gasolina, pode ser mais econômico. O problema é que exige investimento inicial para instalar um kit no carro, algo que não vem de fábrica. A pergunta então é: em quanto tempo o motorista recupera esse investimento?
Para D'Agosto, a resposta é clara: só vale a pena para quem roda muito. Ele fala de motoristas que percorrem entre 250 e 300 quilômetros por dia — como taxistas. Para eles, o GNV pode oferecer retorno rápido sobre o investimento, já que mantém um preço por metro cúbico menor que gasolina e etanol. Mas há um risco. D'Agosto alerta que essa vantagem depende da estabilidade de preços. Se houver reajustes — algo possível diante da situação geopolítica global, como a guerra entre Rússia e Ucrânia — o GNV pode ficar caro demais. "Se esse preço sobe, eu não consigo pagar o kit que instalei", alertou. Por enquanto, para a maioria dos motoristas, a solução é mais simples: rodar menos.
Citações Notáveis
Não vale a pena. Não dá 70%.— Márcio D'Agosto, professor de Engenharia de Transporte da UFRJ
O etanol aqui no Rio de Janeiro não compensa, mesmo em tempos normais.— Gilson Munhoz Ribeiro, aposentado
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o etanol não é simplesmente mais barato se é feito aqui no Brasil?
Porque o preço não é determinado só pela produção. O etanol compete com a gasolina no mercado, e quando a gasolina sobe muito, o etanol sobe junto. Além disso, há a questão energética — o etanol rende menos, então o consumidor acaba pagando mais no fim.
Então o consumidor está preso. Não pode usar etanol porque não compensa, não pode usar gasolina porque está caro.
Exatamente. É por isso que você vê pessoas deixando de levar filhos à escola de carro, cortando passeios. Não é luxo que estão cortando — é deslocamento básico.
E o GNV? Por que não é a solução para todo mundo?
Porque exige investimento inicial que nem todo mundo tem, e só se paga rápido se você rodar muito. Um taxista que faz 300 quilômetros por dia recupera o investimento em meses. Uma pessoa que usa carro ocasionalmente nunca recupera.
Mas o GNV é mais barato que gasolina agora?
Sim, por metro cúbico é mais barato. Mas isso depende de o preço se manter estável. Se houver reajustes — e há risco disso acontecer por causa da guerra na Ucrânia — a vantagem desaparece.
Então qual é a solução real para o consumidor?
Não há uma solução fácil. A curto prazo, é reduzir deslocamentos, usar transporte público quando possível, dirigir de forma mais econômica. A longo prazo, depende de políticas que estabilizem os preços dos combustíveis.