O tanque acaba mais rápido, e você gasta mais dinheiro
Etanol deve custar no máximo 70% do preço da gasolina para ser vantajoso; atualmente está acima dessa proporção em muitos estados. Consumidores estão reduzindo deslocamentos e optando por transporte público em vez de trocar de combustível diante dos altos preços.
- Etanol deve custar no máximo 70% do preço da gasolina para ser economicamente viável
- Na semana de 13 a 19 de março, etanol estava a R$ 7,989 e gasolina a R$ 8,399 — proporção de 0,951, muito acima dos 0,7 necessários
- Vendas de etanol hidratado cresceram 26,20% entre janeiro e fevereiro
- Consumidores estão reduzindo deslocamentos e usando transporte público em vez de trocar de combustível
Apesar do aumento de 18,57% na gasolina, trocar para etanol pode não ser vantajosa economicamente. Especialista aponta que etanol equivale a apenas 70% da energia da gasolina, exigindo preço proporcionalmente menor.
A gasolina subiu 18,57% em poucas semanas, e muitos motoristas olharam para o etanol como saída. Mas um especialista em transporte da Universidade Federal do Rio de Janeiro tem uma mensagem clara: essa troca pode sair cara.
Entre janeiro e fevereiro, as vendas de etanol hidratado cresceram 26,20%, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria da Cana de Açúcar. O setor viu isso como sinal de recuperação. Mas Márcio D'Agosto, professor de Engenharia de Transporte da Coppe/UFRJ, explica o problema fundamental: um litro de etanol não contém a mesma quantidade de energia que um litro de gasolina. A diferença é significativa. O etanol fornece apenas cerca de 70% da energia da gasolina. Isso significa que para compensar economicamente, o preço do etanol precisa ser no máximo 70% do preço da gasolina. Se custar mais que isso, o motorista sai perdendo.
O cálculo é simples: divida o preço do etanol pelo preço da gasolina. Se o resultado for menor que 0,7, vale a pena. Se for maior, não. Na semana de 13 a 19 de março, a Agência Nacional do Petróleo registrou gasolina comum a R$ 8,399 por litro e etanol hidratado a R$ 7,989. Dividindo um pelo outro: 0,951. Muito acima dos 0,7 necessários. "Não vale a pena", disse D'Agosto. "Não dá 70%." O motorista que escolher etanol vai rodar menos quilômetros com cada abastecimento, precisará parar para reabastecer com mais frequência e, no fim das contas, gastará mais dinheiro. O tanque acaba mais rápido.
Os preços variam bastante entre estados. No Rio de Janeiro, a gasolina chegou a R$ 8,399, enquanto em São Paulo o mínimo foi R$ 5,899. Para o etanol, as máximas foram R$ 7,989 no Rio de Janeiro e R$ 7,899 no Rio Grande do Sul, mas em Mato Grosso e São Paulo caiu para R$ 3,979. Essa variação regional significa que em alguns lugares o etanol pode fazer mais sentido que em outros, mas mesmo assim, a maioria dos casos não atende à regra dos 70%.
Consumidores estão respondendo de forma prática. Romildo Guerrante, jornalista, costumava fazer passeios até Petrópolis ou Nova Friburgo. Parou. Não usa etanol porque não vê vantagem. Rômulo Cipriani Costa, microempresário, deixou de levar os filhos à escola de carro; agora vão de bicicleta. Cortou praticamente todos os passeios, exceto aqueles que consegue fazer de bike. José Paulo Zymmerman, gerente de banco, só usa o carro nos fins de semana; nos dias úteis, pega metrô e dirige com calma quando precisa, evitando acelerações que aumentam o consumo. Gilson Munhoz Ribeiro, aposentado, simplesmente evita passeios desnecessários. Nenhum deles trocou para etanol. Todos reconhecem que não compensa.
Há uma alternativa que D'Agosto considera mais promissora: o gás natural veicular. O GNV tem mantido um preço por metro cúbico mais baixo que gasolina e etanol, e sua eficiência energética é comparável à da gasolina. Mas há um porém: o motorista precisa investir em um kit de adaptação, já que nenhum carro sai de fábrica preparado para GNV. A questão então é quanto tempo levará para recuperar esse investimento. D'Agosto é claro: só vale a pena para quem roda muito. Taxistas, por exemplo, que rodam 250 a 300 quilômetros por dia, conseguem recuperar o investimento rapidamente. Para o motorista comum, que roda menos, o retorno é incerto. E há um risco: se o preço do GNV subir — algo que pode acontecer por pressões globais, como a guerra entre Rússia e Ucrânia — a vantagem desaparece. Se o gás ficar caro, o motorista fica preso a um investimento que não se paga mais.
A Agência Nacional do Petróleo informou que os preços dos combustíveis são livres no Brasil desde 2002. Não há tabelamento, não há preços máximos ou mínimos, e nenhum órgão público autoriza reajustes. O mercado decide. Os dados de preços são atualizados toda sexta-feira no site da ANP. Por enquanto, a realidade é que trocar de combustível não resolve o problema. Os motoristas estão fazendo o que conseguem: rodando menos, usando transporte público quando possível, e esperando que os preços caiam.
Citações Notáveis
O motorista vai rodar menos quilômetros com um litro de etanol, vai ter que abastecer com mais frequência e vai acabar gastando mais— Márcio D'Agosto, professor de Engenharia de Transporte da Coppe/UFRJ
O etanol aqui no Rio de Janeiro não compensa, mesmo em tempos normais— Gilson Munhoz Ribeiro, aposentado
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que exatamente o etanol tem menos energia que a gasolina? É uma propriedade química?
Sim. A molécula de etanol simplesmente contém menos energia potencial que a de gasolina. Quando você queima um litro de cada um, o etanol libera cerca de 70% da energia que a gasolina libera. Não é defeito do etanol; é só a realidade da química.
Então a regra dos 70% é uma lei física, não uma opinião?
Exatamente. É por isso que o professor foi tão categórico. Se o etanol custa mais de 70% do preço da gasolina, você está pagando mais por menos energia. A matemática não mente.
Os consumidores que você mencionou — o jornalista, o microempresário — eles sabem dessa regra dos 70%?
Provavelmente não em detalhes técnicos. Mas eles sentem na prática. Sabem que o etanol não compensa. Alguns até tentaram, outros simplesmente decidiram rodar menos em vez de trocar de combustível.
Por que ninguém está falando sobre GNV como solução?
Porque GNV exige um investimento inicial grande — um kit de adaptação — e só faz sentido se você roda muito. Para a maioria das pessoas, que rodam 50, 100 quilômetros por dia, o retorno é lento demais. E há o risco: se o preço do gás subir, você fica com um carro adaptado que não vale mais a pena.
A guerra na Ucrânia realmente pode afetar o preço do gás aqui no Brasil?
Sim. O gás natural é uma commodity global. Pressões internacionais afetam preços em todo lugar. Se o GNV ficar caro, aquele investimento em adaptação vira um peso morto.
Então qual é a saída real para o motorista comum agora?
Honestamente? Rodar menos. Usar transporte público quando dá. Dirigir com calma. Não há atalho químico ou econômico que resolva isso enquanto os preços estiverem assim.