Jamais tivemos conhecimento e nunca admitiríamos manobras contábeis
Quando uma empresa centenária revela um rombo de vinte bilhões de reais em seus registros contábeis, o silêncio dos que deveriam ter visto torna-se tão eloquente quanto o escândalo em si. Os três acionistas de referência da Americanas — Lemann, Telles e Sicupira — invocam esse silêncio coletivo de auditores e bancos como prova de sua própria inocência, enquanto milhares de trabalhadores e investidores carregam o peso de uma crise que ninguém, aparentemente, quis enxergar. A empresa enfrenta agora a quarta maior recuperação judicial da história do Brasil, e as perguntas sobre responsabilidade moral e legal permanecem suspensas no ar como uma dívida ainda por saldar.
- Um rombo de R$ 20 bilhões emergiu de forma abrupta em janeiro de 2023, derrubando o CEO recém-empossado em apenas nove dias e lançando a Americanas em colapso público.
- Os três bilionários mais associados à empresa negam qualquer conhecimento, mas sua defesa depende inteiramente da falha de outros — auditores e bancos que também não sinalizaram nada.
- O BTG Pactual e outros grandes bancos recorrem à Justiça, argumentando que fraude contábil não merece a proteção legal de uma recuperação judicial, mas punição criminal.
- A recuperação judicial foi aceita pelo tribunal do Rio de Janeiro, suspendendo execuções bilionárias e colocando milhares de empregos em estado de incerteza.
- Um comitê independente foi criado para apurar os fatos, mas a PwC se recusa a comentar o caso e as respostas sobre como tanto dinheiro desapareceu dos registros por tanto tempo ainda não chegaram.
No dia 11 de janeiro, a Americanas revelou inconsistências contábeis de cerca de vinte bilhões de reais em seus registros. Dois dias depois, o CEO Sergio Rial pediu demissão — ele havia assumido o cargo apenas nove dias antes e afirmou ter descoberto o problema ao tomar posse. Seu antecessor, Miguel Gutierrez, havia conduzido a empresa desde agosto de 2020.
Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, acionistas de referência e sócios fundadores da 3G Capital, emitiram nota pública negando qualquer conhecimento das irregularidades. Argumentam que sua trajetória foi sempre pautada por rigor ético e que jamais teriam tolerado manipulações contábeis.
O ponto central de sua defesa recai sobre a PwC, auditora independente da empresa desde outubro de 2019, que utilizava cartas de circularização junto aos bancos parceiros para confirmar a veracidade dos balanços. Nenhuma dessas instituições financeiras, segundo o trio, jamais apontou qualquer irregularidade. Se auditores e bancos não viram nada, argumentam, como poderiam eles ter visto?
O tribunal do Rio de Janeiro aceitou o pedido de recuperação judicial em 19 de janeiro — a quarta maior da história do Brasil, atrás apenas de Odebrecht, Oi e Samarco. O BTG Pactual, que havia obtido liminar para bloquear R$ 1,2 bilhão da empresa, viu a execução suspensa e contesta o processo, afirmando que fraude não merece proteção legal. Goldman Sachs, Bradesco, Bank of America e Banco Votorantim também acionaram a Justiça.
Um comitê independente foi designado para investigar as origens do rombo. Enquanto isso, milhares de empregados enfrentam incerteza, investidores e credores contabilizam perdas, e a PwC se recusa a comentar o caso. As perguntas sobre como vinte bilhões em inconsistências passaram despercebidas por tanto tempo seguem, por ora, sem resposta.
No dia 11 de janeiro, a Americanas revelou ao mercado algo que mudaria tudo: inconsistências contábeis de cerca de vinte bilhões de reais espalhadas por seus registros. Dois dias depois, o CEO Sergio Rial pediu demissão — ele havia chegado apenas nove dias antes e disse ter descoberto a situação ao assumir o cargo. Seu antecessor, Miguel Gutierrez, havia conduzido a empresa desde agosto de 2020.
Agora, três dos homens mais ricos do Brasil estão no centro da tempestade. Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, acionistas de referência da Americanas e sócios fundadores da 3G Capital, emitiram uma nota pública negando qualquer conhecimento das irregularidades. Eles afirmam que jamais teriam tolerado manipulações contábeis e que sua trajetória inteira foi marcada por rigor ético e legal — a base, segundo eles, da posição que alcançaram após décadas dedicadas ao empreendedorismo.
Mas há um detalhe que complica a narrativa que o trio tenta construir. A PwC, uma das maiores empresas de auditoria independente do mundo, vinha analisando os balanços da Americanas desde outubro de 2019. Ela usava regularmente cartas de circularização — documentos enviados a fontes externas, incluindo os bancos que operavam com a empresa, para confirmar se as informações contábeis estavam corretas. Nenhuma dessas instituições financeiras, afirma o trio, jamais denunciou irregularidade alguma. Portanto, concluem, assim como todos os demais acionistas, credores, clientes e empregados, eles acreditavam que tudo estava absolutamente correto.
O argumento é claro: se os auditores independentes e os bancos não viram nada, como poderiam eles? O trio reafirma seu compromisso com a transparência e oferece total colaboração para esclarecer os fatos. Lamentam profundamente as perdas dos investidores e credores e lembram que, como acionistas, também foram prejudicados. Prometem trabalhar pela recuperação da empresa com a maior brevidade possível e buscam um bom entendimento com os credores.
O tribunal de justiça do Rio de Janeiro aceitou o pedido de recuperação judicial da Americanas em 19 de janeiro. É a quarta maior recuperação judicial do Brasil — atrás apenas da Odebrecht, com oitenta bilhões em dívidas; da Oi, com sessenta e cinco bilhões; e da Samarco, com cinquenta e cinco bilhões. Mas a crise não é apenas uma questão de números. Milhares de empregados da empresa centenária enfrentam incerteza sobre seus postos de trabalho. Investidores e credores sofreram perdas significativas.
O BTG Pactual, que havia obtido uma liminar para bloquear 1,2 bilhão de reais da Americanas, agora vê essa execução suspensa pela recuperação judicial. O banco contesta o plano de recuperação, argumentando que fraude contábil não é uma função social legítima merecedora de proteção legal, mas um ato que deve ser punido severamente, com potenciais consequências criminais. Outros bancos — Goldman Sachs, Bradesco, Bank of America e Banco Votorantim — também acionaram a Justiça.
Um comitê independente da Americanas terá a responsabilidade de apurar os fatos que resultaram no rombo financeiro. Há também uma questão mais ampla que o trio menciona: a possível quebra de simetria no diálogo entre os auditores e as instituições financeiras. A PwC, quando contatada, disse não falar sobre casos de clientes. O espaço para respostas segue aberto, mas as perguntas sobre como vinte bilhões em inconsistências contábeis passaram despercebidos por tanto tempo permanecem sem resposta clara.
Citações Notáveis
Fraude contábil não é função social legítima merecedora de proteção legal, mas um ato que deve ser punido severamente— BTG Pactual, em contestação ao plano de recuperação judicial
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como três bilionários que construíram impérios empresariais não percebem vinte bilhões em fraude contábil em uma empresa que controlam?
Eles argumentam que não controlam diretamente — que confiam em executivos qualificados e em auditores independentes. A PwC estava lá desde 2019, revisando tudo regularmente.
Mas a PwC aprovou os balanços sem ressalvas em 2021. Como uma auditoria dessa magnitude falha?
Essa é a pergunta que ninguém está respondendo ainda. A PwC diz que não fala sobre clientes. O BTG Pactual está argumentando que houve fraude contábil deliberada, não apenas negligência.
E os bancos? Eles também não viram nada?
Segundo o trio, não. Usaram cartas de circularização para confirmar informações com os bancos. Ninguém sinalizou problemas. Mas agora vários bancos estão na Justiça contestando a recuperação judicial.
Então quem é responsável?
Essa é a questão que o comitê independente terá que responder. Mas há algo mais profundo aqui — uma possível quebra de comunicação entre auditores e instituições financeiras que ninguém está explicando bem.