A população do Caiuá não pede privilégio, pede condição
Cidadãos ocuparam a tribuna para debater questões urbanas, desde população em situação de rua até infraestrutura de transporte e regularização fundiária. Participantes enfatizaram a necessidade de despolitizar debates municipais e focar em direitos, deveres e desenvolvimento coletivo da cidade.
- Doze cidadãos ocuparam a tribuna durante a quinta edição do Câmara Aberta
- Temas abordados incluem população em situação de rua, saúde mental, mobilidade, habitação e participação popular
- Moradores do Contorno Norte do Japinha aguardam regularização fundiária há mais de 40 anos
- Reajuste tarifário da Copel foi de 28,73%, reduzido para 20,51% por diferimento
Doze cidadãos apresentaram demandas à Câmara de Curitiba durante a quinta edição do Câmara Aberta, abordando temas como população em situação de rua, saúde mental, mobilidade, habitação e participação popular.
No sábado pela manhã, doze curitibanos subiram à tribuna do Plenário Palácio Rio Branco para falar diretamente à cidade. Cada um tinha dois minutos. O que emergiu foi menos um catálogo de reclamações e mais um retrato de uma população que sabe exatamente o que quer — e que está cansada de ver seus problemas transformados em disputa ideológica.
A quinta edição do Câmara Aberta, iniciativa que abre o Legislativo em dias alternativos ao expediente tradicional, reuniu manifestações sobre população em situação de rua, saúde mental, mobilidade urbana, empregabilidade de idosos, regularização fundiária, tarifa de energia e participação popular. Ellen Andreis, primeira a falar, estabeleceu o tom: não estava ali para defender partidos ou pautas, mas Curitiba. Ela pediu que o debate sobre população em situação de rua deixasse de ser uma disputa ideológica e se tornasse uma discussão sobre direitos e deveres — direito humano para quem está na rua e precisa de alimento e tratamento, mas também direito para moradores, trabalhadores e contribuintes.
Alexandre Pires, líder comunitário do Pinheirinho, descreveu os líderes comunitários como "vereadores sem mandato" e defendeu que a população fosse mais ouvida na definição das prioridades da cidade. Rafaela Roman de Faria, psicóloga e fundadora do Instituto Guia Profissional Social, trouxe a saúde mental à tribuna, alertando para o adoecimento da sociedade apesar da existência de recursos e projetos — pedindo maior atenção ao acolhimento de profissionais da saúde, educação e pessoas em ambientes de trabalho.
Os problemas de mobilidade ocuparam espaço significativo. Jhonatan Almeida Carvalho Olivio relatou que nos horários de pico, o trajeto entre o terminal e a travessia do viaduto do Caiuá pode levar cerca de trinta minutos, prejudicado pela conversão à esquerda mal sinalizada. "A população do Caiuá não pede privilégio, pede condição, direito de ir e vir, dignidade", disse. Vanderlei Silvério Cavalcante propôs estudos técnicos para implantação de VLT ou monotrilho em Curitiba, argumentando que a cidade recebeu o título de mais inteligente do mundo em 2023 e deveria estar à altura dessa distinção.
A regularização fundiária ganhou voz em Rodrigo De Pauli, presidente da Associação de Moradores do Contorno Norte do Japinha. Moradores estão há mais de quarenta anos na região aguardando regularização de terrenos entre as ruas Guido Dury Gar, Renato Linhares e Visconde de Chagas Andrade. Rodrigo mencionou que obras de asfalto ficaram bem colocadas no Fala Curitiba e que há previsão de implantação de esgoto em 2027 — mas os moradores só querem poder regularizar seus terrenos e pagar o IPTU corretamente. Luiz Carlos Nascimento, ex-policial militar aposentado, apresentou uma proposta para que empresas e comércios de Curitiba reservem vagas para contratação de pessoas idosas de baixa renda com capacitação.
Marco Antônio Floriani Burda, advogado e gestor, questionou por que a política municipal havia se perdido na dicotomia esquerda-direita, deixando de focar nas dicotomias entre certo e errado, justo e injusto. Ele defendeu que Curitiba fortalecesse mecanismos de participação direta, ampliasse a autonomia administrativa e orçamentária dos bairros e aproximasse os cidadãos da gestão pública. Ricardo Vidinich, engenheiro e representante dos consumidores residenciais no Ministério de Minas e Energia, tratou do reajuste tarifário da Copel — aumento médio de 28,73%, reduzido para 20,51% por diferimento, com impacto previsto para 2027.
No encerramento, o presidente da Câmara, Tico Kuzma, reforçou que a Tribuna do Povo existe para que as pessoas ocupem a Casa e apresentem suas demandas sem filtros. "É essa oportunidade para que as pessoas venham aqui, utilizem e falem o que quiserem, sobre o que quiserem", afirmou. O vereador Nori Seto garantiu que as demandas seriam encaminhadas, enquanto Mauro Bobato destacou a importância de transformar a participação popular em sugestões concretas. A Ouvidoria da Câmara permanece à disposição de quem não conseguiu se manifestar — e a próxima edição do Câmara Aberta já está no horizonte.
Citas Notables
Direito humano é para todos — tanto para pessoas em situação de rua que precisam de alimento e tratamento quanto para moradores, trabalhadores e contribuintes— Ellen Andreis
Os líderes comunitários realmente são os vereadores sem mandato— Alexandre Pires
É essa oportunidade para que as pessoas venham aqui, utilizem e falem o que quiserem, sobre o que quiserem— Tico Kuzma, presidente da Câmara Municipal
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que uma pessoa sobe à tribuna e fala sobre o viaduto do Caiuá em vez de apenas reclamar nas redes sociais?
Porque sabe que ali, naquele espaço, há gente que pode fazer algo mudar. Não é garantido, mas é possível. E há uma diferença entre gritar para o vazio e falar para quem tem poder de decisão.
Ellen Andreis pediu que o debate sobre população em situação de rua deixasse de ser ideológico. Mas como você despolitiza algo que é fundamentalmente político?
Ela não estava pedindo para remover a política. Estava pedindo para mudar o tipo de política — de uma disputa sobre quem tem razão para uma conversa sobre o que funciona. Direitos e deveres, não bandeiras.
Vários participantes mencionaram que suas demandas já estavam no Fala Curitiba ou em outros canais. Por que subir à tribuna então?
Porque estar na tribuna é diferente. É presença. É rosto. É impossível ignorar alguém que está ali na sua frente dizendo que espera há quarenta anos por regularização fundiária.
Marco Antônio perguntou em que momento a cidade se perdeu na dicotomia esquerda-direita. Você acha que essa pergunta foi respondida?
Não. Mas o fato de ele ter feito a pergunta na tribuna, e de vereadores estarem ouvindo, significa que a pergunta agora está no registro oficial. Está documentada. Não pode ser ignorada.
O que une essas doze pessoas tão diferentes — um ex-policial, uma psicóloga, um engenheiro, líderes comunitários?
Todos acreditam que Curitiba pode ser melhor, e que a Câmara é o lugar onde essa conversa precisa acontecer. Não é pouco.