Meu desejo mais fervoroso é não ser substituída até que um novo presidente seja empossado
Com a morte de Ruth Bader Ginsburg, ícone do progressismo jurídico americano, abre-se não apenas uma vaga na Suprema Corte dos Estados Unidos, mas uma fissura profunda no equilíbrio de poder que governa a vida de milhões. A seis semanas das eleições presidenciais de novembro de 2020, Donald Trump anunciou a intenção de nomear uma mulher para substituí-la ainda antes do pleito, enquanto os democratas invocam princípios de legitimidade democrática para exigir que a escolha aguarde o veredicto das urnas. O que começou como luto institucional tornou-se, em horas, o campo de batalha mais decisivo da política americana contemporânea.
- A morte de Ginsburg a apenas seis semanas das eleições transformou um momento de luto em uma crise constitucional de proporções históricas.
- Trump anunciou publicamente, em meio a um comício, que nomearia uma mulher na semana seguinte — citando Barbara Lagoa e Amy Coney Barrett como favoritas —, acelerando uma disputa que os democratas consideram ilegítima.
- A contradição de Mitch McConnell, que em 2016 bloqueou a nomeação de Obama alegando que o povo deveria decidir, agora defende ação imediata, expondo a fragilidade dos princípios quando confrontados com o poder.
- Uma terceira nomeação de Trump consolidaria maioria conservadora no tribunal, abrindo caminho para reverter decisões históricas sobre aborto, direitos reprodutivos e conquistas sociais das últimas décadas.
- O desejo expresso por Ginsburg — não ser substituída antes de um novo presidente — ecoa como apelo moral em meio ao cálculo político que domina Washington.
A morte de Ruth Bader Ginsburg, aos 87 anos, vítima de câncer no pâncreas, não foi apenas a perda de uma juíza — foi o estopim de uma crise política que expôs, em tempo real, as fraturas do sistema democrático americano. Com eleições presidenciais marcadas para 3 de novembro de 2020, a vaga aberta na Suprema Corte tornou-se imediatamente um campo de batalha entre Donald Trump e os democratas liderados por Joe Biden.
Trump não hesitou. No dia seguinte à morte de Ginsburg, em um comício na Carolina do Norte, anunciou que nomearia uma mulher ainda na semana seguinte. Dois nomes dominavam a especulação: Amy Coney Barrett, juíza conservadora e religiosa do 7º Circuito de Chicago, conhecida por suas posições contra o aborto; e Barbara Lagoa, cubano-americana que atuava no 11º Tribunal de Apelações de Atlanta e havia sido a primeira hispânica na Suprema Corte da Flórida. Uma terceira candidata, Kate Comerford Todd, conselheira-adjunta da Casa Branca, também figurava na lista com forte apoio interno.
O que tornava a disputa ainda mais explosiva era a memória recente. Em 2016, o senador republicano Mitch McConnell havia bloqueado a nomeação de Barack Obama para a mesma corte, argumentando que o povo americano deveria ter voz na escolha. Agora, com a situação invertida, McConnell defendia ação imediata. Chuck Schumer respondeu citando as próprias palavras de McConnell de quatro anos antes. Biden foi direto: os eleitores deveriam escolher o presidente, e o presidente deveria escolher o juiz.
Ginsburg, que serviu por 27 anos e se tornou símbolo do feminismo e do progressismo americano, havia deixado seu desejo registrado: não queria ser substituída antes que um novo presidente tomasse posse. Apoiadores se reuniram em vigília diante do tribunal, homenageando a mulher conhecida carinhosamente como 'Notorious RBG'. Mas o luto durou pouco antes de ceder espaço ao cálculo político.
O que estava em jogo era a alma jurídica do país. Uma maioria conservadora consolidada na Suprema Corte poderia reverter décadas de decisões progressistas — sobre aborto, direitos reprodutivos, proteção ambiental e muito mais. A corrida entre a nomeação e as eleições tornara-se, ela mesma, um dos maiores testes da democracia americana.
A morte de Ruth Bader Ginsburg na sexta-feira, aos 87 anos, vítima de câncer no pâncreas, abriu uma ferida política que se estende até o coração do sistema judiciário americano. Sua morte chegou em um momento de máxima tensão: apenas seis semanas antes das eleições presidenciais de 3 de novembro, com Donald Trump na Casa Branca e Joe Biden como seu rival democrata. O que poderia ter sido um momento de luto institucional transformou-se imediatamente em uma batalha sobre o poder e a ideologia que moldará decisões legais americanas por décadas.
Trump não esperou. No sábado, durante um comício em Fayetteville, na Carolina do Norte, anunciou que apresentaria uma nomeação na semana seguinte e que seria uma mulher. "Acho que deveria ser uma mulher porque, na verdade, gosto muito mais das mulheres do que dos homens", disse ele. Já mencionava dois nomes: Barbara Lagoa e Amy Coney Barrett. A promessa de ação rápida enfureceu os democratas, que veem nela uma tentativa de consolidar uma maioria conservadora na corte antes que os eleitores tivessem chance de falar.
As três mulheres na lista de favoritos representam diferentes perfis. Barbara Lagoa é cubano-americana, atua no 11º Tribunal de Apelações de Atlanta e foi a primeira juíza hispânica na Suprema Corte da Flórida. Amy Coney Barrett, membro do Tribunal de Apelações do 7º Circuito de Chicago, é a favorita dos conservadores religiosos, conhecida por suas posições contra o aborto e ex-professora de direito na Universidade de Notre Dame. Kate Comerford Todd trabalha como conselheira-adjunta da Casa Branca e tem apoio forte dentro do governo, tendo atuado como vice-presidente sênior e conselheira-chefe do Centro de Contencioso da Câmara dos Estados Unidos.
O que torna essa nomeação tão consequente é o equilíbrio ideológico da corte. Ginsburg era uma das quatro juízas liberais em um tribunal de nove membros. Se Trump conseguir indicar sua substituta, o poder penderia ainda mais para os conservadores, abrindo caminho para reverter decisões históricas sobre aborto e direitos reprodutivos. Trump já havia escolhido dois juízes durante sua presidência; uma terceira nomeação consolidaria sua marca no tribunal.
Os democratas apontam para a hipocrisia de Mitch McConnell, líder republicano no Senado. Em 2016, McConnell bloqueou a nomeação de Barack Obama para a Suprema Corte, argumentando que "o povo americano deve ter voz na escolha de seu próximo juiz", o que significava que a vaga não deveria ser preenchida até que houvesse um novo presidente. Agora, McConnell diz que o Senado tem o direito de agir porque é controlado pelos republicanos e Trump é presidente republicano. Chuck Schumer, líder democrata no Senado, respondeu tuitando a frase exata de McConnell de 2016. Biden foi mais direto: "Não há dúvida de que os eleitores devem escolher o presidente e o presidente deve escolher o juiz para o Senado considerar".
Ginsburg, que serviu por 27 anos e se tornou um ícone liberal e símbolo do feminismo americano, deixou claro seu desejo nos dias antes de sua morte. "Meu desejo mais fervoroso é não ser substituída até que um novo presidente seja empossado", escreveu ela em um comunicado à neta. Apoiadores se reuniram em frente ao tribunal na noite de sexta-feira para homenagear a mulher que ficou conhecida carinhosamente como "Notorious RBG", em alusão ao rapper Notorious B.I.G.
O que está em jogo vai além de nomes e votos. A Suprema Corte é a palavra final em leis altamente contenciosas, disputas entre Estados e o governo federal, e recursos finais para suspender execuções. Nos últimos anos, expandiu o casamento gay para todos os 50 Estados, permitiu a proibição de viagens de Trump e adiou um plano para cortar emissões de carbono. Uma corte com maioria conservadora consolidada poderia reverter muitas dessas decisões. Os próximos dias dirão se Trump conseguirá sua nomeação antes de novembro ou se os eleitores terão a chance de falar primeiro.
Notable Quotes
Estarei apresentando uma nomeação na próxima semana. Será uma mulher. Acho que deveria ser uma mulher porque, na verdade, gosto muito mais das mulheres do que dos homens.— Donald Trump, em comício em Fayetteville, Carolina do Norte
Não há dúvida de que os eleitores devem escolher o presidente e o presidente deve escolher o juiz para o Senado considerar.— Joe Biden, aos repórteres
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a morte de uma juíza, por mais importante que seja, virou uma crise política tão imediata?
Porque o timing é tudo em política. Seis semanas antes das eleições, essa vaga não é apenas sobre quem vai ocupar um assento. É sobre quem controla o tribunal pelos próximos 20 ou 30 anos.
Mas Trump tem o direito de nomear, não é?
Tem, tecnicamente. O presidente nomeia, o Senado confirma. O problema é que Mitch McConnell bloqueou a nomeação de Obama em 2016 dizendo que era ano de eleição. Agora ele quer fazer o oposto.
Então é só hipocrisia?
É mais que isso. É sobre poder. McConnell controla o Senado republicano. Se ele disser que vota, a nomeação passa. Os democratas não têm votos para bloquear.
E o que Ginsburg queria?
Ela deixou claro: não queria ser substituída antes de um novo presidente tomar posse. Mas seus desejos não vinculam ninguém legalmente.
Essas três mulheres que Trump está considerando — elas são diferentes?
Muito. Lagoa é cubano-americana, tem perfil mais moderado. Barrett é conservadora religiosa, fortemente contra aborto. Todd tem apoio interno na Casa Branca. Cada uma sinalizaria algo diferente sobre para onde Trump quer levar a corte.
E se a corte ficar conservadora, o que muda para as pessoas?
Tudo. Aborto, direitos reprodutivos, casamento gay — decisões que pareciam consolidadas podem ser revertidas. É por isso que os democratas estão em pânico.