Não conseguem falar com humanos, apenas com robôs
No Brasil, milhões de entregadores e motoristas de aplicativo constroem o cotidiano de uma economia digital que, em troca, oferece remuneração abaixo do salário mínimo e ausência de proteções básicas. Um estudo do Fairwork Brasil, vinculado a centros de pesquisa de Oxford e Berlim, avaliou seis grandes plataformas — Uber, UberEats, 99, Rappi, iFood e GetNinjas — e concluiu que nenhuma delas atinge padrões mínimos de trabalho decente. O levantamento, publicado em março de 2022, chega num momento em que o crescimento acelerado dessas empresas durante a pandemia tornou ainda mais urgente a pergunta sobre quem, afinal, paga o custo humano da conveniência digital.
- Trabalhadores de plataformas no Brasil recebem menos de R$ 5,50 por hora e vivem sem saber quanto ganharão ao fim do mês, enquanto as empresas cobram taxas e comissões que corroem ainda mais seus rendimentos.
- A ausência de infraestrutura básica — água potável, banheiros, áreas de descanso — expõe esses profissionais a riscos diários de saúde que vão de acidentes de trânsito e agressões a estresse crônico e sofrimento mental.
- Contratos inexistentes e algoritmos opacos deixam os trabalhadores sem explicação quando são penalizados ou suspensos, forçando-os a negociar com robôs em vez de pessoas reais.
- O estudo do Fairwork Brasil foi entregue às plataformas e ao poder público como um mapa de falhas e possibilidades, na esperança de que sirva de base para regulação e políticas que transformem a precariedade em proteção.
Os entregadores e motoristas que sustentam a economia de aplicativos no Brasil recebem menos de R$ 5,50 por hora — abaixo do salário mínimo — e frequentemente ignoram quanto terão no bolso ao final do mês. Essa é a conclusão central de um levantamento inédito do Fairwork Brasil, projeto global ligado ao Oxford Internet Institute e ao WZB Berlin Social Science Centre, que avaliou seis plataformas — Uber, UberEats, 99, Rappi, iFood e GetNinjas — em cinco dimensões de trabalho decente, numa escala de zero a dez. Nenhuma atingiu a nota máxima. Apenas três pontuaram em algum critério.
No quesito remuneração justa, somente a 99 demonstrou que seus trabalhadores superam o piso mínimo. As demais carecem de políticas salariais estruturadas e cobram comissões elevadas, tornando a renda imprevisível e insuficiente. A proteção à saúde é igualmente precária: apenas Uber e 99 oferecem algum equipamento de proteção e cobertura de seguro. Nas outras plataformas, os pontos de retirada de equipamentos ficam tão distantes que se tornam inacessíveis na prática. Os trabalhadores relatam acidentes, agressões, exposição ao sol, dores crônicas e sofrimento mental — agravados pela falta de banheiros, áreas de descanso e água potável.
No campo dos contratos, apenas o iFood criou termos e condições acessíveis após diálogo com os pesquisadores. As demais plataformas não formalizam acordos nem avisam os trabalhadores sobre mudanças com antecedência razoável. Quanto à voz dos trabalhadores, somente o iFood instituiu um Fórum de Entregadores como canal formal de comunicação. Nas demais, quem tenta resolver um problema encontra apenas respostas automatizadas e desconhece os motivos de penalizações ou suspensões.
Rafael Grohmann, coordenador do Fairwork no Brasil, sublinha que o estudo não é um fim em si mesmo: o objetivo é fornecer instrumentos concretos para que as plataformas melhorem e para que governos construam regulações capazes de proteger esses trabalhadores. Com a demanda por serviços de entrega e transporte tendo crescido significativamente durante a pandemia, o Brasil se tornou um laboratório central para entender — e, espera-se, transformar — as condições do trabalho digital. As plataformas foram contatadas para comentar os resultados, mas não se manifestaram.
Os entregadores e motoristas que trabalham para as grandes plataformas digitais do Brasil ganham menos de R$ 5,50 por hora — abaixo do salário mínimo — e frequentemente não sabem quanto receberão ao final do mês. Pior ainda: muitos não têm acesso a água potável nos locais onde trabalham, nem a banheiros adequados. Essas descobertas saíram de um levantamento inédito do Fairwork Brasil, um projeto global vinculado ao Oxford Internet Institute e ao WZB Berlin Social Science Centre, que avalia como as principais plataformas se relacionam com os princípios de trabalho decente.
O estudo examinou seis empresas: Uber, UberEats, 99, Rappi, iFood e GetNinjas. Os pesquisadores usaram cinco critérios para avaliar cada uma delas numa escala de zero a dez. Nenhuma plataforma recebeu a nota máxima. Apenas três conseguiram pontuar em alguma dimensão. Quando o assunto é remuneração justa — ganhar pelo menos o salário mínimo — apenas a 99 demonstrou que seus trabalhadores ultrapassam esse piso. As demais não atingem o mínimo porque não possuem políticas de remuneração estruturadas e cobram taxas ou comissões elevadas dos trabalhadores. Como os valores variam constantemente e as horas de trabalho são incertas, esses profissionais vivem com alta insegurança financeira.
A proteção contra acidentes e riscos à saúde é praticamente inexistente. Apenas Uber e 99 mostraram algum tipo de ação nessa área, fornecendo equipamento de proteção individual e oferecendo alguma cobertura de seguro. Nas outras plataformas, quando o equipamento é fornecido, os locais para retirá-lo ficam tão distantes que se torna impraticável. Os trabalhadores relatam uma série de problemas de saúde: acidentes de trânsito, agressões, exposição excessiva ao sol, dores nas costas, estresse crônico e sofrimento mental. A falta de infraestrutura básica — banheiros, áreas de descanso, água potável — agrava ainda mais essas condições.
Quanto aos contratos de trabalho, apenas o iFood conseguiu demonstrar padrões básicos após diálogo com a Fairwork. A plataforma criou termos e condições acessíveis aos seus entregadores. As demais não fornecem contratos formais e não notificam os trabalhadores sobre mudanças nas condições de trabalho com antecedência razoável. Nenhuma plataforma conseguiu estabelecer canais de comunicação eficientes com seus trabalhadores. Os entregadores e motoristas reclamam que não conseguem falar com pessoas reais nas empresas — apenas com robôs — e frequentemente desconhecem os motivos pelos quais são penalizados ou suspensos.
Apenas o iFood criou um espaço formal para que os trabalhadores tivessem voz: um Fórum de Entregadores que funciona como canal de comunicação com as lideranças desse grupo. Rafael Grohmann, coordenador do Fairwork no Brasil, enfatiza que o objetivo não é apenas produzir um levantamento acadêmico. "Queremos dar subsídios às plataformas para melhorar e aos governos para que tenham regulação e políticas públicas que possam proteger esses trabalhadores", afirma. Ele também observa que o Brasil se tornou um dos países centrais para compreender o trabalho nessas empresas, especialmente porque a demanda por esses serviços cresceu significativamente durante a pandemia. As plataformas foram procuradas para comentar os resultados, mas ainda não se manifestaram.
Notable Quotes
Não é apenas um levantamento acadêmico. Queremos dar subsídios às plataformas para melhorar e aos governos para que tenham regulação e políticas públicas que possam proteger esses trabalhadores— Rafael Grohmann, coordenador do Fairwork no Brasil
O Brasil tornou-se um dos países centrais para compreender o trabalho nessas empresas. Cresceu a demanda por esses serviços durante a pandemia— Rafael Grohmann, coordenador do Fairwork no Brasil
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que esse levantamento importa agora, em 2022, quando essas plataformas já existem há anos?
Porque a pandemia acelerou tudo. Mais pessoas precisavam de renda, mais pessoas pediam comida e transporte online. As plataformas cresceram, mas as condições de trabalho não melhoraram — pioraram. Agora temos dados que provam isso.
Mas a 99 conseguiu cumprir o salário mínimo. Isso não mostra que é possível?
Mostra que uma empresa conseguiu. Mas cinco não conseguiram. E mesmo a 99 não oferece segurança total — não tem canais de comunicação reais, não tem contratos justos. É melhor que as outras, mas ainda está longe do ideal.
O que mais choca você nesses dados?
A falta de água potável e banheiros. Isso não é um detalhe — é infraestrutura humana básica. Um entregador passa oito, dez horas na rua e não tem onde beber água ou usar um banheiro. Isso revela como essas empresas veem seus trabalhadores.
E por que nenhuma plataforma conseguiu estabelecer comunicação eficiente?
Porque comunicação eficiente custa dinheiro e exige responsabilidade. É mais barato usar robôs. Quando um trabalhador é suspenso ou penalizado, ele não sabe por quê. Não há recurso, não há diálogo. É uma relação completamente assimétrica.
O que muda agora que esse estudo existe?
Depende. Se os governos usarem isso para regular, pode mudar muito. Se as plataformas ignorarem, como fizeram até agora, muda pouco. O Fairwork está oferecendo um mapa — cabe aos outros seguir.