Quando a clientela aumenta, é inevitável ter que sair do MEI
Teto atual de R$ 81 mil subiria para R$ 110 mil (2027) e R$ 140 mil (2028), dando mais espaço para crescimento sem migrar de categoria. Projeto também autoriza contratação de até dois funcionários, contra um atualmente, ampliando capacidade operacional de pequenos negócios.
- Teto atual de R$ 81 mil subiria para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028
- Projeto permite contratação de até dois funcionários, contra um atualmente
- Guia DAS custa R$ 82,05 (comércio/indústria) ou R$ 86,05 (serviços) por mês
- Microempreendedor é isento de impostos federais (IR, PIS, Cofins, IPI, CSLL)
Proposta na Câmara prevê elevar o limite de faturamento do MEI de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, permitindo também contratação de dois empregados. Empreendedores veem oportunidade de crescimento, mas questionam impacto tributário.
A proposta que tramita na Câmara dos Deputados promete reescrever as regras do jogo para quem trabalha como microempreendedor individual. O teto de faturamento — aquele limite que funciona como uma corda invisível amarrada ao pescoço de quem cresce demais — subiria de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e chegaria a R$ 140 mil em 2028. Para muitos pequenos negociantes, é a chance de respirar fundo antes de ter que abandonar a categoria e enfrentar uma carga tributária muito mais pesada.
O projeto, que chegou recentemente à Câmara, também permite que o microempreendedor contrate até dois funcionários em vez de apenas um. É uma mudança que toca na realidade do dia a dia: mais gente para atender, mais braços para trabalhar, sem precisar virar empresa de verdade e pagar impostos de empresa de verdade. A comissão especial que analisa a proposta tem o deputado Jorge Goetten como relator, e ele defende uma revisão ainda mais ampla do Simples Nacional.
Na Rua Marquês de Pombal, no bairro Tiradentes, Cleide Menezes cuida de uma loja de maquiagem e vê a mudança com olhos realistas. Ela sabe que faturamento maior pode significar impostos maiores — a matemática é simples. Para quem já está perto do limite atual, a ampliação é um respiro. Para quem está começando, é tempo ganho para organizar o crescimento sem pressa. "Se aumenta o teto, automaticamente o imposto também pode aumentar", ela observa. Mas reconhece que a mudança abre espaço para investimentos que antes eram impensáveis: ampliar o negócio, comprar estoque, contratar ajuda.
Elvis Vinicius Ortiz, que comanda uma marmitaria no mesmo bairro, vive a urgência do limite todos os dias. Quando as vendas são no cartão de crédito, o dinheiro entra rápido nos números — R$ 700 em um dia vira R$ 7 mil em dez dias, R$ 21 mil em um mês. Em três ou quatro meses, o teto já foi atingido. Aí começa a burocracia, as complicações, o medo de estar faturando além do permitido. Para Elvis, o aumento do limite é "muito bom" porque permite que o comerciante cresça com tranquilidade. "Você vai até um certo limite, quando o pessoal conhece o comércio e a clientela aumenta, é inevitável, tem que partir do MEI para o ME. Então, até essa parte chegar, esse teto aumentado para nós é muito bom".
O sistema atual funciona assim: todo mês, até o dia 20, o microempreendedor paga a guia DAS — Documento de Arrecadação do Simples Nacional — que reúne impostos e contribuições previdenciárias. O custo é fixo: R$ 82,05 para quem vende produtos ou faz indústria, R$ 86,05 para quem presta serviços. Em troca, fica isento dos impostos federais grandes — Imposto de Renda, PIS, Cofins, IPI, CSLL. O que paga é um valor fixo composto por 5% do salário mínimo para o INSS, mais R$ 5,00 ao município (se for serviço) ou R$ 1,00 ao estado (se for comércio ou indústria). Para caminhoneiros, a alíquota do INSS sobe para 12% do salário mínimo, e o valor final varia conforme o tipo de transporte.
Ao se formalizar como MEI, o empreendedor ganha acesso a CNPJ, aposentadoria, auxílio-doença, salário-maternidade, facilidade para abrir contas bancárias e conseguir crédito, além da possibilidade de participar de compras públicas e emitir notas fiscais. Mas há regras: respeitar o limite de faturamento, contratar no máximo um funcionário (em breve, dois), não ser sócio ou administrador de outra empresa, e exercer uma das atividades previstas na tabela oficial da categoria.
A tensão que paira sobre a proposta é exatamente essa: crescimento sem punição tributária. Os empreendedores comemoram a chance de expandir, mas mantêm os olhos abertos para o que virá depois. Se o teto sobe, será que os impostos também sobem? A resposta ainda está sendo escrita na Câmara.
Citações Notáveis
Se aumenta o teto, automaticamente o imposto também pode aumentar. Para quem fatura bastante, para quem tem um comércio mais movimentado, pode ser que seja bom.— Cleide Menezes, proprietária de loja de maquiagem
Esse aumento é muito bom. Quando dá 3 meses, 4 meses, já atinge o teto. E é onde nos prejudica, porque aí tem que fazer um monte de burocracia.— Elvis Vinicius Ortiz, proprietário de marmitaria
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que esse aumento de teto importa tanto para quem trabalha como MEI?
Porque hoje, em três ou quatro meses de bom movimento, você já bate o limite de R$ 81 mil. Aí tem que sair da categoria, virar ME, e os impostos explodem. O teto maior dá tempo para crescer com tranquilidade.
Mas os empreendedores não estão preocupados com os impostos subirem também?
Estão, sim. Eles entendem que faturamento maior pode significar tributação maior. É um risco calculado — ganham espaço para crescer, mas sabem que pode custar mais caro.
E a questão de contratar mais gente? Como isso muda o jogo?
Hoje você só pode ter um funcionário. Com dois, consegue atender mais clientes, expandir operações sem virar uma empresa de verdade. É a diferença entre crescer devagar e crescer com alguma estrutura.
Quem se beneficia mais com essa mudança?
Quem já está perto do limite atual. Quem está começando ganha tempo. Mas quem já está grande demais vai ter que sair da categoria mesmo — o teto de R$ 140 mil ainda é pequeno para muitos negócios.
Qual é o risco real aqui?
Que o governo aumente os impostos junto com o teto, e aí o ganho fica só no papel. Os empreendedores querem crescer, mas não querem pagar mais para isso.