Quando o governo perde seu crédito, a economia se arrebenta
Em um momento de transição política delicada, três economistas que apoiaram Lula na campanha — Arminio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan — escolheram o espaço público para contestar a narrativa do presidente eleito sobre o teto de gastos. O gesto revela uma tensão antiga na história das democracias: a distância entre a promessa social e a disciplina que sustenta a moeda. Quando aliados precisam corrigir aliados, o debate deixa de ser técnico e se torna um espelho das escolhas que definem um governo antes mesmo de ele começar.
- Lula afirmou que o teto de gastos desmonta a área social e não toca o sistema financeiro — e o mercado respondeu com queda de ações e pressão sobre o câmbio.
- Três economistas que o apoiaram na campanha publicaram um artigo público rebatendo essas declarações, sinalizando uma ruptura incomum entre o presidente eleito e seus próprios aliados econômicos.
- A proposta da equipe de transição de deixar até 198 bilhões de reais fora do teto aprofundou a desconfiança dos mercados e acelerou o confronto sobre qual será a nova âncora fiscal do país.
- Fraga, Bacha e Malan argumentam que inflação e câmbio alto são impostos invisíveis que recaem sobre os mais pobres — exatamente os que Lula quer proteger.
- O debate sobre um mecanismo fiscal substituto ao teto permanece sem resposta concreta, deixando governo, mercado e sociedade em compasso de espera.
Na manhã de uma quinta-feira em que Lula participava de uma conferência climática no Egito, três nomes de peso da economia brasileira escolheram a Folha de S.Paulo para enviar uma mensagem ao presidente eleito. Arminio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan — todos apoiadores de Lula na campanha — publicaram um artigo defendendo o teto de gastos e contestando diretamente as críticas que ele vinha fazendo ao mecanismo.
Lula havia dito naquele mesmo dia que o teto tentava desmontar a área social sem tocar o sistema financeiro. Não era a primeira vez: uma semana antes, em discurso a parlamentares, levantara as mesmas objeções, e o mercado já havia reagido negativamente. Desta vez, a reação veio também de dentro do próprio campo que o elegeu.
Os três economistas argumentaram que responsabilidade fiscal e responsabilidade social não se opõem — ao contrário, se sustentam. Um dólar alto alimenta inflação que corrói salários. Um governo que perde credibilidade econômica transfere o custo dessa perda para os mais pobres. Não era teoria abstrata: eram consequências concretas que eles pediam que fossem levadas a sério.
O contexto tornava o artigo ainda mais urgente. A equipe de transição havia proposto uma emenda constitucional para deixar até 198 bilhões de reais fora do teto, e o mercado havia respondido com desconforto. Fraga, Bacha e Malan reconheciam o histórico fiscal positivo dos governos anteriores de Lula, mas expressavam, com franqueza declarada, preocupação com os sinais mais recentes — nos discursos e nas nomeações.
No fundo, o que estava em disputa era a identidade econômica do novo governo. Lula via o teto como um obstáculo aos investimentos em educação, saúde e cultura. Os três economistas viam a ausência de disciplina fiscal como o caminho mais curto para prejudicar exatamente quem o novo presidente prometia proteger. Qual âncora substituiria o teto — e se haveria alguma — seguia sem resposta.
Na manhã de quinta-feira, enquanto Lula participava de um evento sobre clima no Egito, três economistas que o apoiaram na campanha publicaram um artigo na Folha de S.Paulo com uma mensagem direta: o teto de gastos não é o vilão que o presidente eleito descrevia. Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, Edmar Bacha, diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica, e Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, assinaram juntos uma defesa da responsabilidade fiscal que funcionava como um contraponto público às falas recentes de Lula.
O presidente eleito havia dito naquele mesmo dia que o mecanismo fiscal em vigor "tenta desmontar tudo o que é da área social" e "não tira um centavo do sistema financeiro". Lula argumentava que se falasse isso, o mercado reagiria com queda de ações e alta do dólar, mas que isso seria culpa dos especuladores, não de pessoas sérias. Não era a primeira vez que ele fazia essa crítica. Uma semana antes, em discurso a parlamentares, havia levantado as mesmas objeções, e o mercado havia respondido com movimento negativo.
Os três economistas queriam deixar claro que essa visão era equivocada. Segundo eles, responsabilidade fiscal e responsabilidade social não são conceitos em conflito. Argumentavam que dólar alto traz consigo inflação que comprime salários. Quando um governo perde credibilidade econômica, a economia inteira sofre, e quem mais sofre são os pobres. Esses não eram pontos abstratos de teoria econômica, mas consequências concretas que afetavam a vida das pessoas.
O timing do artigo não era casual. Dias antes, a equipe de transição havia apresentado uma proposta de emenda constitucional que buscava deixar até 198 bilhões de reais fora do teto de gastos. A reação do mercado financeiro havia sido negativa, reforçando a tensão entre o que Lula queria fazer e o que os mercados estavam dispostos a aceitar. Os três economistas reconheciam que o histórico de disciplina fiscal de Lula em seus dois mandatos anteriores havia sido importante, mas sugeriam, com uma franqueza que pediam desculpas por expressar, que isso não era mais suficiente. Os discursos recentes e as nomeações indicavam uma mudança de rumo que os preocupava.
A questão de fundo era sobre qual seria a âncora fiscal do próximo governo. Durante a campanha, Lula e sua equipe econômica haviam sugerido a necessidade de substituir o teto de gastos, criado pelo governo Temer, por algum outro mecanismo. Nunca apresentaram detalhes sobre como seria esse novo sistema. O próprio Paulo Guedes, ministro da Economia de Bolsonaro, havia criticado o teto. Mas Fraga, Bacha e Malan argumentavam que o teto, apesar de suas limitações, havia funcionado como um instrumento para forçar o governo a organizar suas prioridades de forma disciplinada, evitando pressões sobre preços e juros.
O que estava em jogo era mais do que um debate técnico sobre mecanismos fiscais. Era uma disputa sobre como o novo governo equilibraria suas ambições sociais com a necessidade de manter a confiança dos mercados financeiros. Lula via o teto como um obstáculo que impedia investimentos em educação, saúde e cultura. Os três economistas viam a falta de disciplina fiscal como um risco que poderia prejudicar justamente os pobres que Lula queria beneficiar. O artigo deixava claro que essa tensão não seria resolvida facilmente nos próximos meses.
Citações Notáveis
O teto de gastos não tira dinheiro da educação, da saúde, da cultura, para pagar juros a banqueiros gananciosos— Arminio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan
Quando o governo perde o seu crédito, a economia se arrebenta. Quando isso acontece, quem perde mais? Os pobres!— Os três economistas
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que esses três economistas sentiram necessidade de responder publicamente a Lula naquele momento específico?
Porque o mercado havia reagido negativamente duas vezes seguidas. Não era apenas uma fala isolada. Era um padrão que sugeria uma mudança real de direção, e eles queriam sinalizar que havia economistas que o apoiavam mas que discordavam dessa direção.
Lula estava errado em dizer que o teto prejudica a área social?
Não exatamente. O teto limita quanto o governo pode gastar em tudo, inclusive em social. Mas Fraga, Bacha e Malan argumentavam que sem disciplina fiscal, a inflação e a desvalorização do câmbio prejudicam ainda mais os pobres do que o teto prejudica.
Então era um artigo pedindo para Lula manter o teto?
Não era bem assim. Era um pedido para que ele entendesse que responsabilidade fiscal não é inimiga de responsabilidade social. Se ele quisesse substituir o teto, tudo bem, mas precisava de algo que mantivesse a disciplina.
E por que o mercado reagia negativamente quando Lula falava essas coisas?
Porque investidores e especuladores temem que um governo sem âncora fiscal deixe a inflação disparar e o câmbio descontrolar. Lula culpava os especuladores, mas os economistas diziam que a culpa era também da falta de clareza sobre como o governo manteria a responsabilidade fiscal.
Qual era a aposta desses três economistas?
Que Lula, apesar de suas críticas ao teto, reconheceria que precisava de algum mecanismo de disciplina fiscal. Que ele não descartaria completamente a ideia de responsabilidade econômica.