Números extremamente enganadores baseados em pressupostos irrealistas
Numa era em que a tecnologia promete redefinir os limites da segurança humana, a Tesla enfrenta acusações de ter apresentado às autoridades reguladoras europeias estatísticas construídas sobre pressupostos irrealistas para justificar a aprovação da sua condução autónoma. Investigadores independentes alertam que os números apresentados — que afirmam ser até dez vezes mais seguros do que condutores humanos — assentam em comparações inválidas que distorcem a realidade. O que está em jogo não é apenas a reputação de uma empresa, mas a confiança que sociedades inteiras depositam nos dados que moldam decisões regulatórias de enorme consequência.
- A Tesla afirmou às autoridades holandesas e suecas que a sua condução autónoma é até dez vezes mais segura que condutores humanos — uma afirmação que investigadores independentes consideram profundamente enganadora.
- Os números apresentados baseiam-se no pressuposto de que todos os veículos americanos, incluindo camiões e motociclos, seriam substituídos por Teslas com condução autónoma, tornando a comparação estatisticamente inválida.
- A autoridade holandesa aprovou o sistema em Abril e está agora a tentar obter aprovação a nível europeu em nome da Tesla, apesar de não ter esclarecido que dados específicos validou.
- Para a Tesla, a aprovação europeia é uma questão de sobrevivência comercial numa região onde os fabricantes chineses de veículos eléctricos ganham terreno e as vendas da marca caíram drasticamente.
- Nos próximos meses, representantes de Estados-Membros que cubram 55% do bloco terão de votar favoravelmente para que a condução autónoma com supervisão humana se torne legal em toda a União Europeia.
A Tesla apresentou às autoridades reguladoras europeias estatísticas de segurança que, segundo investigadores independentes ouvidos pela Reuters, exageram significativamente os benefícios do seu sistema de condução autónoma. A empresa tem afirmado, através de Elon Musk e outros dirigentes, que a sua funcionalidade de assistência à condução é até dez vezes mais segura do que condutores humanos — mas a análise da agência revelou que os dados subjacentes assentam em pressupostos irrealistas.
No final de 2024, a Tesla contactou a autoridade de trânsito dos Países Baixos para iniciar o processo de aprovação. Numa apresentação enviada posteriormente às autoridades suecas, a empresa afirmava que os seus veículos com condução autónoma percorrem uma distância mais de sete vezes superior entre acidentes face a um condutor humano médio nos EUA, e que o sistema poderia ter salvado 32 mil vidas. Investigadores descreveram estes números como extremamente enganadores, uma vez que pressupõem a substituição de todos os veículos americanos — incluindo camiões e motociclos — por Teslas equipadas com o sistema.
A autoridade holandesa, que aprovou o sistema em Abril e procura agora estender essa aprovação à União Europeia, afirmou realizar os seus próprios testes e não depender de alegações de marketing. Contudo, não revelou que dados específicos recolheu ou mediu.
Para a Tesla, a aprovação europeia é crucial. As vendas caíram drasticamente no último ano, em parte devido a protestos contra as actividades políticas de Musk, enquanto os fabricantes chineses de veículos eléctricos ganham terreno na região. Nos próximos meses, representantes de Estados-Membros que cubram 55% do bloco e 65% da população europeia terão de votar favoravelmente para que a condução autónoma com supervisão humana se torne legal em toda a União Europeia.
A Tesla apresentou às autoridades reguladoras europeias estatísticas de segurança que exageram significativamente os benefícios do seu sistema de condução autónoma, de acordo com investigadores independentes de segurança rodoviária ouvidos pela Reuters. A fabricante de veículos eléctricos tem vindo a afirmar, através do seu CEO Elon Musk e outros dirigentes, que a sua funcionalidade de assistência à condução autónoma é até dez vezes mais segura do que os condutores humanos. Porém, uma análise da agência noticiosa revelou que as comparações subjacentes a estas estatísticas assentam em dados inválidos e pressupostos irrealistas.
No final de 2024, a Tesla contactou a autoridade de trânsito dos Países Baixos para iniciar o processo de aprovação da condução autónoma. Numa carta enviada em Novembro, a empresa forneceu um link para o seu relatório de segurança, argumentando que o aumento da utilização de condução automatizada contribuiria para estradas mais seguras. O sistema em questão, comercializado como "capacidade de condução automatizada total", funciona mediante uma subscrição mensal e permite condução autónoma em determinadas circunstâncias, embora exija que o condutor humano mantenha atenção na estrada. Após mais de um ano de testes e discussões, a autoridade holandesa aprovou, em Abril, a utilização da condução autónoma nos Países Baixos e está agora a procurar obter aprovação a nível da União Europeia em nome da Tesla.
Pouco depois desta aprovação holandesa, um gestor de políticas da Tesla enviou um email às entidades reguladoras suecas solicitando uma aprovação semelhante. O email incluía uma apresentação que mostrava a afirmação de que os veículos Tesla equipados com condução autónoma conseguem percorrer uma distância mais de sete vezes superior entre acidentes do que um condutor humano médio nos EUA. A mesma apresentação afirmava ainda que a condução autónoma poderia ter salvado 32 mil vidas e evitado 1,9 milhões de feridos. Investigadores entrevistados pela Reuters descreveram estes números como extremamente enganadores, uma vez que se baseiam no pressuposto de que todos os veículos dos EUA, incluindo camiões de mercadorias e motociclos, seriam substituídos por um automóvel Tesla equipado com o sistema de condução autónoma, e que cada Tesla seria de facto pelo menos sete vezes mais seguro do que o veículo que substituiria.
A autoridade holandesa recusou-se a comentar as questões identificadas pela Reuters relativamente às estatísticas de segurança da Tesla, mas afirmou num comunicado que não se baseia em alegações de marketing nem em estatísticas externas para tomar decisões. A RDW declarou que realiza os seus próprios testes, análises e verificações do sistema em vias públicas e pistas de treino, e que validou, testou e auditou todos os dados recolhidos pela Tesla. Contudo, a agência não revelou que tipo de dados a Tesla recolheu nem o que mediu especificamente.
Para a Tesla, a aprovação europeia da condução autónoma é fundamental para o crescimento das vendas de veículos na região. A fabricante continua a tentar recuperar quota de mercado depois de as vendas terem descido drasticamente no ano passado, num contexto de protestos contra as actividades políticas de Musk, incluindo o seu apoio a partidos políticos europeus de extrema-direita. Caso o sistema não seja aprovado, será mais difícil para a Tesla competir numa região onde os fabricantes chineses de veículos eléctricos estão a ganhar terreno de forma constante.
Nos próximos meses, os representantes de 55% dos Estados-Membros, que representam 65% da população do bloco, terão de votar favoravelmente para que a condução autónoma, embora com supervisão humana, passe a ser legal em toda a União Europeia. Entretanto, cada Estado-Membro pode aprovar a tecnologia por conta própria, como já fizeram os Países Baixos.
Citações Notáveis
A condução autónoma poderia ter salvado 32 mil vidas e evitado 1,9 milhões de feridos— Apresentação da Tesla às autoridades suecas
Não se baseia em alegações de marketing nem em estatísticas externas para tomar decisões e realiza os seus próprios testes, análises e verificações— Autoridade de trânsito dos Países Baixos (RDW)
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que a Tesla apresentaria dados que sabe serem questionáveis a reguladores que têm poder de rejeição?
Porque a aprovação europeia é existencial para a empresa neste momento. As vendas caíram drasticamente, a concorrência chinesa está a crescer, e Musk precisa de uma vitória regulatória para recuperar credibilidade e mercado.
Mas os reguladores holandeses dizem que fizeram os seus próprios testes. Isso não deveria ter apanhado o problema?
Teoricamente sim. Mas a correspondência sugere que a RDW aceitou os dados da Tesla como ponto de partida, e depois validou-os internamente. Se começar com premissas enviesadas, a validação interna não as corrige.
Os números sobre vidas salvas — 32 mil — parecem absurdos à primeira vista.
São. Porque assumem que todos os camiões, motos, tudo, seria substituído por uma Tesla. É como dizer que se toda a gente tivesse um coração perfeito, não haveria doenças cardíacas. Tecnicamente verdade, mas completamente desligado da realidade.
E agora o que acontece? A Suécia vai aprovar também?
Provavelmente. A aprovação holandesa criou um precedente. Mas há uma votação europeia nos próximos meses que pode travar tudo — ou deixar cada país decidir sozinho, o que é ainda mais caótico.
Isto parece um padrão com Musk — apresentar números que soam bem mas não resistem a escrutínio.
É. E funciona porque a maioria das pessoas não lê a letra miúda. Os reguladores, porém, deveriam.