Foi uma sensação de extremo desespero até entendermos que não era algo exclusivo do prédio
Famílias em edifícios altos de Belém sentiram tontura e desconforto durante os tremores, com moradores descendo pelas escadas em situação de desespero. Apesar de distância superior a 1.700 km do epicentro, a energia dos terremotos foi suficiente para movimentar estruturas, afetando principalmente prédios altos com maior flexibilidade.
- Dois terremotos de magnitude 7,5 e 7,2 na Venezuela foram sentidos em Belém na quarta-feira
- Dez prédios foram evacuados em cinco bairros de Belém
- Epicentro estava a mais de 1.700 quilômetros de distância
- Nenhum dano estrutural ou vítimas foram registrados
- Prédios altos balançaram mais porque são estruturas mais flexíveis
Dois terremotos de magnitude 7,5 e 7,2 na Venezuela foram sentidos em Belém, provocando evacuação de dez prédios e pânico entre moradores, sem registros de danos estruturais ou vítimas.
Na quarta-feira à noite, enquanto famílias em Belém se acomodavam para assistir ao jogo do Brasil contra a Escócia, algo estranho começou a acontecer nos apartamentos mais altos da cidade. Não era visual. Era físico — uma sensação de instabilidade que tomou conta dos corpos antes mesmo que a mente conseguisse nomear o que estava acontecendo. Dois terremotos de magnitude 7,5 e 7,2 tinham ocorrido na Venezuela, a mais de 1.700 quilômetros de distância, mas a energia liberada foi suficiente para fazer prédios inteiros balançarem na capital paraense.
A médica Andréa Miranda, de 40 anos, estava no apartamento dos pais no edifício Île de Palais, no bairro Umarizal, quando o primeiro abalo chegou. Sua primeira reação foi pensar que algo não ia bem com ela — aquela tontura, aquele desequilíbrio que parecia vir de dentro. Mas quando olhou para a irmã e os pais, viu que todos compartilhavam o mesmo desconforto. Foi o lustre da sala balançando que transformou a confusão pessoal em certeza coletiva. A família desceu pelas escadas seguindo o protocolo de emergência, acompanhada por idosos com dificuldade de mobilidade e pessoas carregando animais de estimação. "Foi uma sensação de extremo desespero até entendermos que não era algo exclusivo do prédio", ela recordaria depois.
Cena semelhante se repetiu no edifício Athenas Future, no bairro Pedreira, onde a médica Bruna Fernandes estava visitando a mãe e a irmã. Bruna havia acabado de chegar e comentou que estava tonta, achando que era fome. Sua irmã gritou da cozinha que o lustre estava balançando. O pânico foi imediato. A família desceu 27 andares correndo pelas escadas enquanto, lá embaixo, na área de lazer, outras pessoas assistiam tranquilamente ao jogo — elas não tinham sentido nada. A distância vertical faz diferença. Quanto mais alto o apartamento, mais o prédio balança.
No total, dez prédios foram evacuados em cinco bairros diferentes de Belém — Umarizal, Nazaré, Pedreira, Cremação — além de estruturas na cidade de Santarém, no oeste do Pará. Equipes do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil Municipal realizaram vistorias em todas as construções afetadas. O resultado foi tranquilizador: nenhum dano estrutural, nenhuma vítima. Mas a experiência deixou marcas.
Para entender por que prédios tão distantes do epicentro sentiram tanto o abalo, é preciso compreender como a energia sísmica se comporta. Segundo Marcos Ferreira, geofísico do Serviço Geológico do Brasil, eventos de alta magnitude distribuem energia em todas as direções. Essas ondas viajam pela Terra e chegam a cidades como Belém. Apesar da distância grande reduzir o nível de vibração, ela é percebida nitidamente em prédios altos porque eles são estruturas mais flexíveis.
Fábio Leitão, professor doutor em engenharia civil com ênfase em estruturas e geotécnica pela Universidade Federal do Acre, explicou o conceito técnico por trás disso: o "período natural de vibração". Estruturas rígidas completam um movimento de ida e volta rapidamente. Prédios altos, projetados para ser flexíveis, demoram mais tempo para completar essa oscilação. É exatamente essa flexibilidade que faz com que eles balancem mais quando as ondas sísmicas chegam.
Mas há uma questão maior em jogo. Leon Lobo, engenheiro civil formado pela Universidade Federal do Pará, apontou que as construções no Brasil não são preparadas para resistir a ações sísmicas como terremotos. Elas são projetadas para resistir a cargas laterais — as rajadas de vento forte e as chuvas intensas da região amazônica — o que oferece certa proteção contra abalos, mas não é a mesma coisa. Leon fez um alerta importante sobre o que os engenheiros chamam de "estado de limite de serviço": se moradores começarem a ver rachaduras ou fissuras em pilares de garagem ou em outras estruturas, é necessário chamar um especialista. Os síndicos devem fiscalizar e reportar qualquer anomalia que afete a sensação de segurança dos residentes. O pânico desta noite pode ter passado, mas a vigilância precisa continuar.
Citas Notables
A impressão é que todo mundo estava com uma labirintite, aquela sensação de instabilidade, de tontura. Quando olhei para minha irmã e meus pais, percebi que todos estavam tendo aquele desconforto— Andréa Miranda, médica
Se as pessoas começarem a ver rachaduras ou fissuras em pilares de garagem, é necessário chamar um especialista técnico. O síndico deve fiscalizar e reportar qualquer anomalia que afete a sensação de segurança— Leon Lobo, engenheiro civil
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que as pessoas nos andares altos sentiram tanto o tremor enquanto quem estava na área de lazer não sentiu nada?
Tem a ver com como os prédios se comportam. Quanto mais alto você está, mais o edifício balança. É como estar no topo de uma árvore durante o vento — você sente muito mais movimento do que quem está perto da raiz.
Mas se o epicentro estava a 1.700 quilômetros de distância, como a energia chegou tão forte assim?
A energia de um terremoto de magnitude 7,5 é imensa. Ela se distribui em todas as direções e viaja pela Terra. Quando chega aqui, o nível de vibração é menor do que perto do epicentro, mas ainda é suficiente para fazer prédios altos balançarem de forma perceptível.
As construções em Belém não deveriam estar preparadas para terremotos?
Não. Os prédios aqui são projetados para resistir a ventos fortes e chuvas intensas, não a abalos sísmicos. É uma questão de risco regional. A Amazônia não é uma zona de alta atividade sísmica, então as normas de construção não exigem essa proteção.
Então o que as pessoas deveriam fazer se começarem a ver rachaduras nos prédios?
Chamar um especialista técnico imediatamente. O síndico precisa fiscalizar e reportar qualquer anomalia. Não é paranoia — é segurança. O pânico desta noite passou, mas a vigilância precisa continuar.
As famílias que desceram correndo pelas escadas estavam em perigo real?
Não havia risco estrutural imediato — as inspeções confirmaram isso. Mas o pânico era real. Quando você sente o chão se mover sob seus pés, especialmente em um prédio alto, o corpo reage antes da mente conseguir processar o que está acontecendo.