Terceira dose de Covid: o que se sabe sobre eficácia e perda de imunidade

Anticorpos caem, mas o corpo tem outras formas de defesa
A queda de anticorpos meses após vacinação não significava vulnerabilidade total à infecção, segundo especialistas.

Em meados de 2021, enquanto bilhões de pessoas no mundo ainda aguardavam a primeira dose de uma vacina contra Covid-19, alguns países já ensaiavam uma terceira. A queda nos níveis de anticorpos meses após a imunização completa acendeu um debate que vai além da biologia: é uma questão de prioridades globais, equidade e do que significa, afinal, proteger a humanidade. As vacinas continuavam cumprindo seu propósito essencial — evitar mortes e hospitalizações —, mas a ciência, ainda incompleta, começava a apontar que certos grupos poderiam precisar de mais.

  • A queda de anticorpos após a segunda dose gerou alarme, mas especialistas alertam que o organismo possui outras linhas de defesa e que a proteção contra morte e hospitalização permanece elevada em toda a população vacinada.
  • Enquanto países ricos como Israel, Chile e Uruguai já aplicavam terceira dose em grupos específicos, a OMS denunciava a contradição: a maioria dos países africanos havia vacinado menos de 5% de sua população com a primeira dose.
  • Grupos vulneráveis — imunossuprimidos e idosos acima de 80 anos — emergem como prioridade real para o reforço, com dados mostrando eficácia significativamente menor das duas doses nessas populações.
  • No Brasil, testes com Pfizer, AstraZeneca e Coronavac estavam em andamento, enquanto o debate científico e ético sobre quando e para quem aplicar a terceira dose ainda buscava respostas definitivas.

No meio de 2021, enquanto o mundo ainda corria para vacinar sua população com duas doses, alguns países já debatiam uma terceira. A questão parecia simples, mas escondia uma tensão profunda: as vacinas protegiam bem contra doença grave e morte, mas os níveis de anticorpos caíam meses após a segunda dose. Isso era motivo suficiente para um reforço — ou desviaria recursos de um planeta onde a maioria ainda não tinha recebido nem uma injeção?

O pediatra Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Imunizações, apontava o dilema: enquanto países ricos discutiam terceira dose, o Haiti havia iniciado sua campanha de vacinação apenas um mês antes. A OMS pedia espera e equidade. Mas Israel, Chile e Uruguai já aplicavam o reforço em grupos específicos, ignorando o apelo.

A ciência disponível era promissora, mas incompleta. Estudos da Sinovac sugeriam que uma terceira dose de Coronavac poderia multiplicar por sete os anticorpos neutralizantes. Pesquisadores de Oxford mostraram aumento de até 18 vezes com um esquema ampliado da AstraZeneca. Em Israel, dados do ministério da saúde indicavam queda de um terço nos casos entre maiores de 60 anos após o reforço. Ainda assim, faltavam os estudos randomizados que dariam certeza científica plena.

O ponto central, porém, era que todas as vacinas seguiam protegendo contra o que mais importava. Nos EUA, 99% das mortes por Covid ocorriam em não vacinados. No Brasil, pessoas completamente vacinadas representaram apenas 3,68% das mortes entre fevereiro e julho de 2021. A proteção contra hospitalização e óbito permanecia robusta mesmo com a queda de anticorpos.

Dois grupos, no entanto, apresentavam vulnerabilidade real. Imunossuprimidos — pacientes oncológicos ou com doenças autoimunes — respondiam menos às vacinas, e estudos mostravam que uma terceira dose poderia induzir proteção em quase metade dos que não haviam respondido às duas primeiras. Já entre idosos acima de 80 anos, a eficácia da Coronavac contra hospitalização caía para 43%, sinalizando necessidade de reforço. A FDA americana aprovou em agosto uma terceira dose de vacinas de RNA para imunossuprimidos — não como reforço opcional, mas como parte necessária da imunização completa.

No Brasil, testes estavam em curso com Pfizer, AstraZeneca e Coronavac. A conversa sobre terceira dose, portanto, era menos sobre se as vacinas funcionavam — funcionavam — e mais sobre quem precisava dela, quando, e se o mundo tinha condições de oferecê-la enquanto bilhões ainda esperavam pela primeira.

No meio de 2021, enquanto grande parte do mundo ainda lutava para vacinar sua população com as duas doses recomendadas, alguns países já começavam a conversa sobre uma terceira. A questão era simples na aparência, mas complexa na prática: as vacinas contra Covid-19 continuavam protegendo bem contra doença grave, hospitalização e morte, mas estudos mostravam que os níveis de anticorpos caíam alguns meses após a segunda dose. Isso levantava uma pergunta incômoda: seria hora de reforço, ou isso desviaria recursos de um mundo onde a maioria ainda não tinha recebido nem uma dose?

O pediatra Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, apontava o dilema central. Enquanto países ricos debatiam terceira dose, a realidade global era outra: a maioria dos países africanos tinha vacinado menos de 5% de sua população com a primeira dose. O Haiti tinha iniciado sua campanha de vacinação apenas no mês anterior. A Organização Mundial da Saúde apelava para que os países ricos esperassem, priorizando a equidade global. Mas vários países já anunciavam ou começavam a aplicar a terceira dose mesmo assim.

O que a ciência dizia até então era ainda incompleto. Não havia estudos robustos — aqueles randomizados, duplo-cegos, o padrão-ouro da pesquisa clínica — demonstrando que uma terceira dose aumentava significativamente a eficácia. Mas evidências começavam a se acumular. A Sinovac, fabricante da Coronavac, divulgou estudos sugerindo que uma terceira dose seis a oito meses após o esquema tradicional poderia aumentar em até sete vezes a taxa de anticorpos neutralizantes. Cientistas de Oxford mostraram que um intervalo maior entre as duas doses da AstraZeneca, seguido de uma terceira, elevou os anticorpos até 18 vezes. Em Israel, dados do ministério da saúde apontavam uma queda para um terço nos casos em pessoas com mais de 60 anos após o reforço.

Mas havia nuances importantes. As vacinas foram desenvolvidas principalmente para prevenir hospitalização e morte, não infecção em si. Mesmo vacinados com duas doses, as pessoas podiam se infectar e disseminar o vírus, embora em proporção menor que os não vacinados. No Chile, com cerca de 75% da população vacinada, houve queda de mais de 80% nas hospitalizações e 86% nas mortes, mas o país enfrentou depois uma subida de casos, provavelmente por falsa sensação de proteção e relaxamento das medidas. A Pfizer divulgou que sua efetividade era de 91% seis meses após conclusão do ensaio, caindo para até 86% dependendo das variantes. Em Israel, a proteção da Pfizer contra infecção pela variante delta caiu de 64% para 39%, embora a proteção contra hospitalização e doença grave permanecesse acima de 90%. No Brasil, dados da pesquisa Vebra Covid-19 mostravam proteção de 77,9% contra casos sintomáticos com AstraZeneca e 50,7% com Coronavac em pessoas de 18 a 59 anos.

O ponto crítico era que, apesar da queda de anticorpos, todas as vacinas se mostravam bem-sucedidas em proteger contra agravamento, hospitalização e morte. Nos EUA, 99% das mortes por Covid ocorriam em pessoas não vacinadas. Uma pesquisa do Vebra Covid com mais de 60 mil moradores de São Paulo indicou proteção de 93,6% de duas doses da AstraZeneca contra morte e 87,6% contra internações. Com a Coronavac em Serrana, a proteção foi de 95% contra mortes e 86% contra hospitalização. Entre 28 de fevereiro e 27 de julho no Brasil, pessoas completamente vacinadas representaram apenas 3,68% das mortes por Covid.

A terceira dose, porém, não seria para todos. Grupos específicos começavam a emergir como prioridades. Pessoas imunossuprimidas — com doenças autoimunes ou em tratamento contra câncer — apresentavam eficácia mais baixa das vacinas. Um artigo na revista Jama mostrou que uma terceira dose da Moderna em pacientes com transplante de rim induzia boa proteção em 49% daqueles que não tiveram resposta imune após duas doses. Pesquisa do Hospital das Clínicas da USP apontou que a vacinação em imunossuprimidos era segura e produzia boa resposta, chegando a 70,4% de soroconversão após duas doses da Coronavac. Na quinta-feira 12 de agosto, a FDA aprovou uma terceira dose das vacinas de RNA para pessoas imunossuprimidas — não como reforço, mas como parte necessária da imunização completa.

Os idosos também mostravam padrão diferente. A proteção de duas doses da Coronavac em pessoas de 70 a 74 anos era de cerca de 80% contra hospitalizações e 86% contra mortes. Mas em maiores de 80 anos, caía para 43,4% contra hospitalizações e 49,9% contra mortes — números que sugeriam necessidade de reforço. Israel começou oferecendo terceira dose para maiores de 60 anos em julho, depois reduzindo para maiores de 50. A Indonésia aplicava reforço em profissionais de saúde vacinados com Coronavac, após mortes de médicos meses após as duas doses. O Chile começou a aplicar dose extra de AstraZeneca em idosos que receberam duas doses de Coronavac. O Uruguai, com 64% da população com esquema completo, aprovou reforço de Pfizer para quem recebeu duas de Coronavac. Inglaterra, França e Alemanha planejavam começar em setembro.

No Brasil, testes estavam em andamento. A Pfizer testava terceira dose com 1.160 voluntários, metade recebendo vacina e metade placebo. Oxford/AstraZeneca havia começado testes nas últimas semanas. O Ministério da Saúde e o Instituto Butantan anunciaram estudos de reforço com Coronavac. Quanto às novas variantes, o que se sabia era que elas não conseguiam driblar completamente o efeito das vacinas. Podiam diminuir um pouco a eficácia, mas não as tornavam obsoletas. A conversa sobre terceira dose, portanto, era menos sobre se as vacinas funcionavam e mais sobre quem precisava dela, quando, e se o mundo tinha recursos para oferecer enquanto bilhões ainda esperavam pela primeira.

A questão principal é qual seria a necessidade de começar a aplicação dessa injeção extra quando grande parte da população ainda está parcialmente imunizada ou não recebeu ainda nenhuma dose
— Renato Kfouri, pediatra e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações
Uma terceira dose seria uma necessidade para que pessoas imunossuprimidas sejam completamente imunizadas, e não é equivalente a uma dose reforço em pessoas saudáveis
— Renato Kfouri, SBIm
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que alguns países começaram a aplicar terceira dose se a OMS pedia para esperar?

Model

Porque tinham dados mostrando que certos grupos — idosos, imunossuprimidos — tinham proteção mais fraca. Israel viu quedas reais de casos em maiores de 60 anos após o reforço. Mas a OMS tinha razão em apontar a injustiça: enquanto isso, a maioria da África não tinha nem começado a vacinar.

Inventor

Se os anticorpos caem, as pessoas não ficam vulneráveis?

Model

Não é assim tão simples. Anticorpos são uma forma de defesa, mas o corpo tem outras. A proteção contra hospitalização e morte permanecia muito alta mesmo com anticorpos em queda. O problema real era com infecção leve — vacinados ainda pegavam Covid, só que em proporção menor.

Inventor

Os dados do Brasil mostravam algo diferente entre as vacinas?

Model

Muito. A Coronavac tinha efetividade menor contra casos sintomáticos — 50,7% em adultos, caindo para 28% a 62% em maiores de 60 anos. A AstraZeneca era melhor, 77,9%. Mas ambas protegiam bem contra morte e hospitalização.

Inventor

Por que imunossuprimidos precisavam de tratamento diferente?

Model

Porque o sistema imune deles não responde bem aos imunizantes. Uma terceira dose não era reforço para eles — era parte da imunização completa. Metade dos transplantados não tinha resposta após duas doses, mas uma terceira ajudava 49% deles.

Inventor

A variante delta mudou tudo?

Model

Diminuiu a efetividade contra infecção, sim. Em Israel, a Pfizer caiu de 64% para 39% contra delta. Mas hospitalização e morte continuavam protegidas acima de 90%. As vacinas não ficaram obsoletas, só menos perfeitas.

Inventor

O Brasil estava preparado para terceira dose?

Model

Estava testando. Pfizer, AstraZeneca e Coronavac em estudos. Mas a pergunta real era: enquanto isso, quantas pessoas ainda não tinham recebido nem duas doses?

Quieres la nota completa? Lee el original en O Tempo ↗
Contáctanos FAQ