Ficamos um pouco surpresos da maneira como foi
Encontro entre Lula e Trump ainda não confirmado, mas contatos diplomáticos seguem intensos para destravar impasse sobre tarifas e investigação comercial. Brasil enfrenta pressão dos EUA sobre Pix e serviços de pagamento, além de veto da UE a carnes, tripas, peixe e mel com vigência em setembro.
- Encontro entre Lula e Trump não confirmado, mas contatos diplomáticos seguem intensos
- EUA classificou facções criminosas brasileiras como Organizações Terroristas Estrangeiras
- União Europeia vetou importação de carnes, tripas, peixe e mel do Brasil a partir de 3 de setembro
- Primeira reunião confirmada é com primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi
- Lula participará de três sessões deliberativas do G7 nos dias 16 e 17 de junho
Lula participa da Cúpula do G7 na França em busca de negociações com Trump, líderes europeus e Japão, enfrentando impasses sobre tarifas, classificação de facções como terroristas e vetos a produtos brasileiros.
Luiz Inácio Lula da Silva decolou neste domingo rumo à Cúpula do G7 na França carregando uma agenda diplomática repleta de tensões comerciais não resolvidas. O presidente brasileiro chega em um momento em que as relações com Washington e Bruxelas estão sob pressão, e a possibilidade de um encontro com Donald Trump permanece em aberto — ainda que os contatos entre os dois governos prossigam de forma intensa, segundo o Itamaraty.
A questão das tarifas comerciais e de uma investigação comercial americana contra o Brasil segue travada desde a última reunião entre Lula e Trump na Casa Branca, no início de maio. Na ocasião, o presidente brasileiro pediu que as equipes dos dois países apresentassem uma proposta para desbloquear o impasse, algo que até agora não aconteceu. Paralelamente, os Estados Unidos passaram a classificar facções criminosas brasileiras como Organizações Terroristas Estrangeiras — uma designação que o governo brasileiro tentava evitar justamente porque poderia abrir caminho para sanções econômicas severas e afetar setores inteiros da economia.
Mas as dificuldades não vêm apenas de Washington. Um relatório do USTR, a agência de comércio americana, também levantou questões sobre o Pix e outros sistemas de pagamento brasileiros, argumentando que eles prejudicariam injustamente empresas norte-americanas de cartões de crédito e serviços como o WhatsApp Pay. Enquanto isso, a União Europeia oficializou a proibição de importação de carnes, tripas, peixe e mel do Brasil, com a medida entrando em vigor em 3 de setembro. A diplomacia brasileira planeja levar essa preocupação aos europeus durante a cúpula, ainda que encontros bilaterais com líderes da UE não estejam confirmados.
O embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores, reconheceu a surpresa do Brasil com a forma como os europeus procederam. "Ficamos um pouco surpresos da maneira como foi", disse ele a jornalistas, sinalizando que o tom das conversas, se ocorrerem, será marcado por essa preocupação com os desdobramentos recentes.
Nem tudo é incerteza, porém. Lula tem confirmado um encontro com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, empossada em outubro de 2025. Será a primeira conversa entre os dois, e abre a possibilidade de negociações para um futuro acordo entre o Japão e o Mercosul. Um encontro com o presidente francês Emmanuel Macron, anfitrião do evento, também é considerado provável.
Na cúpula propriamente dita, o Brasil foi convidado para participar de três sessões deliberativas. No dia 16, Lula falará sobre parcerias internacionais para o desenvolvimento e deve pressionar por aumentos nos repasses de países ricos para nações mais vulneráveis. No dia 17, o foco será crescimento econômico equilibrado, e o presidente deve defender reformas na governança global, citando a necessidade de mudanças em instituições como a ONU e a OMC. Também está previsto um almoço com foco em inteligência artificial.
A cúpula deste ano reúne, além do Brasil, líderes de Índia, Quênia, Coreia do Sul e Egito — uma expansão que reflete a tentativa de incluir vozes do Sul Global em discussões tradicionalmente dominadas pelas sete maiores economias desenvolvidas. Para Lula, a viagem representa uma oportunidade de tentar desbloquear negociações comerciais travadas e reposicionar o Brasil em um cenário internacional cada vez mais fragmentado.
Notable Quotes
Isso não está definido. Com os Estados Unidos os contatos seguem, por enquanto é o que eu posso dizer, e que estão em andamento de uma forma intensa— Embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty
Ficamos um pouco surpresos da maneira como foi. Nós estamos vendo algumas medidas da União Europeia que nos causam alguma preocupação— Philip Fox-Drummond Gough
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o encontro com Trump ainda não está confirmado, sendo que Lula está indo especificamente para uma cúpula onde ele estará presente?
Porque a relação está tensa. Há impasses sobre tarifas e investigações comerciais que não foram resolvidos desde maio. Confirmar um encontro agora, sem avanços concretos, seria admitir que nada mudou — ou pior, que as coisas pioraram, com a classificação das facções como terroristas.
E o Pix? Por que os EUA estão reclamando de um sistema de pagamento brasileiro?
Porque o Pix é eficiente e barato, e isso ameaça as margens de lucro das empresas americanas de cartão de crédito. É protecionismo disfarçado de preocupação comercial. O Brasil vê como injusto.
A União Europeia está fazendo algo parecido com o veto a produtos brasileiros?
Sim, mas com justificativa ambiental. Dizem que é sobre sustentabilidade. O Brasil acha que foi feito de forma surpresa e sem diálogo adequado. Por isso Lula quer conversar.
Então Lula está indo ao G7 basicamente para tentar consertar relacionamentos que se deterioraram?
Exatamente. Mas também para afirmar que o Brasil merece voz em decisões globais. Por isso os discursos sobre reforma da ONU e OMC. É diplomacia defensiva e ofensiva ao mesmo tempo.
E o Japão? Por que aquele encontro é importante?
Porque é uma abertura. O Japão nunca havia negociado com o Mercosul. Se conseguirem um acordo, é uma vitória diplomática e econômica para o Brasil em um momento difícil.