A Europa vai ter que remodelar sua geopolítica econômica
Em meio ao turbilhão geopolítico provocado por Donald Trump, o Brasil encontra uma abertura improvável: a pressão americana sobre a Europa pode ser o catalisador que finalmente aproxima o Mercosul de um acordo comercial com a União Europeia. Jorge Viana, presidente da Apex, observa que a desordem tem sua própria lógica — quando velhas alianças se desfazem, novos parceiros ganham relevância. O que por décadas esteve emperrado pode, paradoxalmente, se mover com mais fluidez justamente porque o mundo ao redor se tornou menos estável.
- A tensão permanente entre Trump e a Europa está, segundo Viana, tornando o bloco europeu mais receptivo a acordos comerciais alternativos — e o Mercosul está na posição certa para aproveitar.
- A Comissão Europeia judicializou o acordo, criando um obstáculo formal que ameaça prolongar indefinidamente negociações que já duram décadas.
- O Brasil planeja um movimento em duas frentes: votar o acordo nos parlamentos do Mercosul para criar um fato consumado e, em seguida, enviar parlamentares à Europa com o texto já aprovado em mãos.
- A imagem do agronegócio brasileiro está desgastada na Europa, exigindo uma campanha 'quase educativa' para reposicionar os produtos brasileiros como complementares, não ameaçadores.
- Pequenos produtores de setores como mel podem ser os beneficiários menos esperados do acordo, com mercados europeus que não competem, mas absorvem esses produtos.
- Viana acredita que a janela de oportunidade é estreita e temporária — os próximos meses definirão se o Brasil soube agir no momento certo.
Jorge Viana, presidente da Apex, enxerga no caos geopolítico gerado por Donald Trump uma oportunidade inesperada para o Brasil. Falando na sede da agência, ele argumentou que a tensão constante entre o governo americano e a União Europeia está, paradoxalmente, desbloqueando um acordo comercial entre o Mercosul e a UE que vinha estagnado há anos. Pressionada por Washington, a Europa se vê obrigada a repensar suas alianças econômicas — e o Mercosul passa a ser uma alternativa estratégica, não mais um parceiro periférico.
Os obstáculos, porém, são concretos. A Comissão Europeia judicializou o acordo, uma manobra que Viana reconhece como dilatória. Para contorná-la, o Brasil prepara uma estratégia em duas etapas: primeiro, acelerar a votação do acordo nos parlamentos do Mercosul, transformando-o em fato consumado; depois, enviar uma missão de parlamentares brasileiros à Europa — possivelmente até março — com o texto já aprovado e argumentos renovados.
Viana sabe que os números estão do seu lado: 47% do comércio Brasil-UE envolve indústria de transformação e 23% é agropecuária, setores com muito a ganhar com a abertura europeia. Mas reconhece que a imagem do agronegócio brasileiro está desgastada no continente. Por isso, planeja uma campanha que reposicione os produtos brasileiros não como ameaça, mas como complemento — citando setores como o mel, onde pequenos produtores poderiam se beneficiar de mercados europeus que demandam, e não competem com, esses produtos.
Para Viana, o que está em jogo vai além de tarifas e cotas. É a capacidade do Brasil de se reposicionar num mundo em reconfiguração. A janela aberta pela instabilidade trumpiana não ficará aberta para sempre, e a urgência em votar, em mobilizar parlamentares e em recontar a história do Brasil na Europa reflete a consciência de que oportunidades geopolíticas têm prazo de validade.
Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, vê uma oportunidade inesperada no caos geopolítico que Donald Trump está criando na Europa. Falando na sede da Apex na quinta-feira, Viana argumentou que a tensão permanente entre o presidente americano e a União Europeia está, paradoxalmente, abrindo caminho para que o Brasil e seus parceiros do Mercosul fechem um acordo comercial que vinha emperrado há anos.
"O presidente dos Estados Unidos está ajudando muito nisso, porque ele tensiona muito com a Europa, o tempo inteiro", disse Viana. Sua lógica é simples: pressionada por Trump, a Europa precisará repensar sua estratégia econômica global, e isso a torna mais receptiva a novos acordos comerciais. O Mercosul, nesse contexto, deixa de ser um parceiro periférico e passa a ser uma alternativa estratégica.
Mas há obstáculos reais. A Comissão Europeia judicializou o acordo — uma manobra que Viana reconhece como legítima, ainda que claramente dilatória. Para contornar isso, o Brasil está preparando um movimento duplo. Primeiro, acelerar a votação do acordo nos parlamentos do Mercosul, transformando-o em fato consumado. Depois, enviar uma missão de parlamentares brasileiros à Europa armada com argumentos frescos e com o acordo já aprovado em casa. Viana estima que essa missão ocorra até março, caso o Congresso brasileiro vote rapidamente.
O presidente da Apex é otimista de que uma solução será encontrada ainda em 2026. Ele conhece os números que sustentam seu argumento: 47% do comércio Brasil-UE é indústria de transformação, e 23% é agropecuária. Esses setores têm muito a ganhar com a abertura de mercados europeus. Mas sabe também que a imagem do Brasil — particularmente a do agronegócio — está desgastada na Europa. Por isso, planeja uma campanha que ele descreve como "quase educativa", buscando reposicionar os produtos brasileiros não como ameaça, mas como complemento aos mercados europeus.
Há beneficiários menos óbvios nessa história. Pequenos produtores brasileiros em setores como mel poderiam se beneficiar significativamente. A Europa tem mercados complementares, não competitivos, para esses produtos. O acordo abriria portas que hoje estão fechadas ou severamente restringidas. Para Viana, essa é a narrativa que precisa ser contada — não a do agronegócio como força devastadora, mas como fornecedor de produtos diferenciados para um continente que os demanda.
O que está em jogo é mais do que um acordo comercial. É a capacidade do Brasil de se reposicionar em um mundo onde as antigas alianças estão sendo refeitas. Trump está desestabilizando a ordem que a Europa conhecia. O Mercosul, historicamente fraco nas negociações internacionais, tem uma chance de se tornar relevante justamente porque a Europa está procurando alternativas. Viana acredita que essa janela não ficará aberta para sempre. Por isso a urgência em votar, em enviar missões, em contar uma história diferente sobre o Brasil. Os próximos meses dirão se sua aposta estava certa.
Citas Notables
O presidente dos Estados Unidos está ajudando muito nisso, porque ele tensiona muito com a Europa, o tempo inteiro— Jorge Viana, presidente da Apex
Vamos encontrar a solução, sou bem otimista, e eu acho que ainda é em 2026— Jorge Viana
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Trump ajuda o Brasil nessa negociação se ele é conhecido por ser protecionista?
Porque Trump está criando caos com a Europa, não com o Brasil. A Europa está procurando parceiros alternativos para não ficar dependente dos EUA. O Mercosul vira uma opção estratégica nesse cenário.
A judicialização europeia não é um sinal de que eles não querem realmente esse acordo?
É um sinal de que querem ganhar tempo. Viana reconhece isso como legítimo — é política. Mas o Brasil pode fazer o mesmo: aprovar rápido em casa e chegar na Europa com o acordo já fechado, mudando a dinâmica da negociação.
Por que a imagem do agronegócio brasileiro está tão desgastada na Europa?
Questões ambientais, desmatamento, práticas que a opinião pública europeia vê como predatórias. A campanha que Viana propõe é tentar mostrar que o agro brasileiro pode ser parte da solução, não do problema.
Pequenos produtores realmente ganham com isso ou é só retórica?
Ganham. Mel, por exemplo, é um produto que a Europa importa, mas tem mercados específicos. Um pequeno produtor brasileiro com mel de qualidade pode acessar nichos que hoje estão fechados.
E se a Europa não aprovar mesmo em 2026?
Viana é otimista, mas sabe que há risco. Por isso a urgência. Se a janela geopolítica fechar — se Trump e Europa chegarem a um acordo, por exemplo — o Mercosul volta a ser irrelevante.