Tarifaço dos EUA pode abrir 'era da China', alerta presidente da ApexBrasil

Podem abrir 'a era da China' ao contrário do que disseminaram
Viana observa o paradoxo de os EUA abandonarem o livre-mercado que ajudaram a criar globalmente.

Quando uma nação que ergueu os pilares do livre-comércio começa a derrubá-los, o mundo inteiro sente o tremor. A tarifa de 10% imposta por Washington sobre exportações brasileiras — a menor do pacote de Trump, mas suficiente para acender alarmes — levou o presidente da ApexBrasil a formular um paradoxo incômodo: ao abraçar o protecionismo, os Estados Unidos podem estar entregando à China a liderança econômica global que tanto custou construir. O Brasil, cauteloso, observa e negocia, consciente de que as regras do comércio internacional estão sendo reescritas em tempo real.

  • A tarifa americana de 10% sobre produtos brasileiros, embora a menor do 'tarifaço', já é tratada pelo governo Lula como violação dos compromissos dos EUA na OMC.
  • Jorge Viana, da ApexBrasil, lança um alerta estratégico: o protecionismo americano pode acelerar a ascensão da China como novo centro gravitacional do comércio mundial.
  • Países ao redor do globo podem reorientar suas cadeias produtivas em direção a Pequim e a mercados emergentes, redesenhando a geografia econômica internacional.
  • O governo brasileiro resiste à retaliação imediata, apostando no diálogo diplomático conduzido pelo Itamaraty e pelo vice-presidente Alckmin para encontrar saída negociada.
  • O Congresso Nacional aprovou lei de reciprocidade econômica, mas o Planalto sinaliza que esse instrumento é reserva estratégica — não o primeiro movimento.

Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, usou uma coletiva de imprensa para formular um paradoxo que vai além dos números comerciais: as novas tarifas americanas podem estar abrindo espaço para a China dominar a economia global. O gatilho foi a tarifa de 10% anunciada por Donald Trump sobre exportações brasileiras — a menor alíquota do pacote, mas ainda assim considerada pelo Brasil uma violação dos compromissos assumidos pelos EUA na Organização Mundial do Comércio.

A ironia que Viana aponta é histórica: foram os americanos que disseminaram pelo mundo a filosofia do livre-mercado e dos acordos multilaterais. Ao abraçar o protecionismo, Washington pode estar pavimentando, com as próprias mãos, o caminho para aquilo que ele chamou de 'era da China'.

O governo Lula reagiu com cautela. Nota conjunta dos ministérios do Desenvolvimento e das Relações Exteriores reconheceu o impacto sobre exportadores brasileiros, mas a postura oficial é de espera e observação enquanto a situação se desenrola. A retaliação permanece como opção em aberto — não como primeiro passo.

O Itamaraty conduz o diálogo diplomático, com Geraldo Alckmin no centro das negociações. O Congresso aprovou uma lei de reciprocidade econômica, mas o Planalto prefere a via negociada antes de medidas mais drásticas. O que está em jogo, segundo Viana, não é apenas o saldo comercial bilateral: é a possibilidade de que o sistema internacional construído pelos próprios Estados Unidos esteja se desintegrando — e de que a China seja a maior beneficiária dessa dissolução.

Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, fez um alerta que ecoa além das fronteiras comerciais: as novas tarifas americanas podem estar abrindo as portas para a China dominar o cenário econômico global. A declaração veio em coletiva de imprensa na quinta-feira, dias após Donald Trump anunciar uma tarifa de 10% sobre as exportações brasileiras — a menor alíquota do pacote tarifário, mas ainda assim uma medida que o governo brasileiro considera uma violação dos compromissos que os Estados Unidos assumiram na Organização Mundial do Comércio.

O paradoxo que Viana identificou é contundente: foram os americanos que espalharam pelo mundo a filosofia do livre-mercado e dos acordos comerciais. Agora, ao abraçar o protecionismo, eles podem estar pavimentando o caminho para aquilo que ele chamou de "era da China". A ironia não é apenas retórica — ela aponta para uma reconfiguração profunda das relações comerciais internacionais que pode ter consequências duradouras.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva respondeu com cautela. Através de nota oficial assinada pelos ministérios do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e das Relações Exteriores, o Brasil reconheceu que a medida prejudicará seus exportadores e sinalizou que analisará opções de defesa econômica. Mas a postura, conforme explicou Viana, é de esperar para ver se os Estados Unidos realmente implementarão as tarifas, mantendo uma posição de prudência enquanto a situação se desenrola.

A questão da retaliação permanece em aberto. Viana deixou claro que qualquer resposta brasileira será decisão do governo federal. Enquanto isso, o Itamaraty segue em diálogo diplomático, com o vice-presidente Geraldo Alckmin — que também é ministro da Indústria e Comércio — tendo papel central nas negociações. No Congresso Nacional, uma lei aprovada nesta semana autoriza medidas de reciprocidade econômica contra barreiras comerciais, mas o governo sinaliza que prefere buscar uma solução negociada antes de tomar ações mais drásticas.

O cenário que Viana desenha vai além do Brasil. Ele vê as políticas protecionistas americanas como catalisadores de uma reorganização nas cadeias globais de produção. Países podem se aproximar mais da China e de outros mercados emergentes, alterando a geografia econômica que conhecemos. É uma observação que toca em algo mais profundo que simples números de comércio: a possibilidade de que o sistema internacional que os Estados Unidos ajudou a construir esteja se desintegrando sob suas próprias mãos.

O Brasil, por sua vez, reafirma seu compromisso em acompanhar os desdobramentos e proteger seus trabalhadores e empresas. Mas a questão que paira é se essa proteção será possível em um mundo onde as regras do jogo estão sendo reescritas em tempo real, e onde a China pode estar se posicionando como o novo árbitro do comércio global.

Foram os Estados Unidos que introduziram no mundo a ideia do livre-mercado, dos acordos comerciais. E agora, ao contrário disso, podem abrir 'a era da China'
— Jorge Viana, presidente da ApexBrasil
O maior parceiro comercial do Brasil é a China, mas o melhor é os EUA
— Jorge Viana
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que exatamente Viana vê as tarifas americanas como uma abertura para a China?

Model

Porque quando os EUA abandonam o livre-mercado que ajudaram a criar, eles perdem a legitimidade de liderar o sistema. A China fica como alternativa natural — já é o maior parceiro comercial do Brasil, e outros países começam a olhar para lá.

Inventor

Mas o Brasil recebeu a menor tarifa. Isso não deveria ser visto como um favor?

Model

Não. Menor é relativo. Continua sendo uma tarifa, continua sendo protecionismo, e continua violando os compromissos da OMC. O Brasil não quer ser tratado como exceção — quer um sistema previsível.

Inventor

O governo está realmente considerando retaliação?

Model

Está considerando, mas com cuidado. Aprovaram uma lei que permite isso, mas Viana deixa claro que a prioridade é negociar. Retaliação é o último recurso, não o primeiro.

Inventor

Qual é o risco real para o Brasil se isso escalar?

Model

Reorganização das cadeias de produção. Se empresas começam a se aproximar da China, o Brasil perde espaço. Não é só sobre tarifas — é sobre onde o mundo decide fazer negócios.

Inventor

Geraldo Alckmin está à frente das negociações. Isso muda algo?

Model

Muda porque ele tem duplo papel — ministério e vice-presidência. Tem peso político. Mas o Itamaraty é quem conduz. É diplomacia de verdade, não improviso.

Inventor

E se Trump não implementar as tarifas?

Model

Aí o Brasil respira. Mas ninguém está apostando nisso. A cautela agora é porque ninguém sabe o que Trump fará amanhã.

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