Quando você vende uma joia de família é sinônimo de fracasso
O penhor, historicamente uma das linhas de crédito mais acessíveis, foi classificado como serviço não essencial e teve novas contratações interrompidas desde março de 2020. Pessoas inadimplentes e desempregadas, que não conseguem acesso a outras formas de crédito, perderam a alternativa mais barata e menos burocrática para enfrentar emergências financeiras.
- Penhor suspenso para novas operações desde março de 2020, classificado como serviço não essencial
- Taxa de 1,99% ao ano — uma das mais baratas do mercado, sem burocracia
- Novos contratos caíram de 22,6 mil em março para 13 mil em abril de 2020
- Serviço criado em 1861 por Dom Pedro II para emprestar aos pobres
- Publicitária vendeu joias de família por R$ 4 mil após não conseguir acesso ao penhor
A Caixa suspendeu novas operações de penhor durante a pandemia, forçando brasileiros inadimplentes a vender joias e bens pessoais em vez de usar a linha de crédito de 1,99% ao ano.
Quando a pandemia chegou, a Caixa Econômica Federal fez uma escolha que afetaria milhares de brasileiros: classificou o penhor como serviço não essencial. A decisão, comunicada em março de 2020, interrompeu novas operações de uma das linhas de crédito mais baratas e acessíveis do país — aquela que cobra apenas 1,99% de juros e não exige burocracia.
O penhor funciona de forma simples. Você leva uma joia, um relógio, uma prataria — algo de valor — para a Caixa, deixa como garantia, e recebe dinheiro na hora. Não importa se você está inadimplente, se deve para o banco, se perdeu o emprego. A porta estava aberta. Ou estava, até alguns meses atrás.
Quando repórteres do Estadão ligaram para agências da Caixa em São Paulo na semana anterior à publicação desta reportagem, ouviram a mesma resposta em várias unidades: o serviço estava suspenso para novas contratações. A instituição, porém, não confirmou oficialmente o fechamento. Em comunicado, disse apenas que 465 unidades estavam oferecendo apenas renovações de contratos antigos — não novas operações. Os números que a Caixa divulgou sugerem uma queda: em março de 2020, foram 22,6 mil novos contratos; em abril, até o dia 23, apenas 13 mil. As renovações também caíram, de 441,1 mil para 295,4 mil.
O penhor é o terceiro produto mais rentável da Caixa, segundo apurou a reportagem. Mas o banco não divulga o saldo total de operações, e em seus relatórios de resultados não há uma rubrica específica para ele. A falta de transparência deixa em aberto quando — ou se — o serviço voltará.
A história do penhor no Brasil remonta a 1861, quando Dom Pedro II assinou o decreto que criou a Caixa. A instituição nasceu com a missão de guardar "as pequenas economias das classes menos abastadas" e "emprestar, por módico juro e sob penhor, as somas necessárias para socorrer as urgentes necessidades das classes menos favorecidas". Cento e sessenta anos depois, essa promessa foi suspensa.
Uma publicitária que pediu para não ser identificada viveu na pele o que significa essa suspensão. Desempregada e inadimplente, ela visitou a agência da Caixa perto de sua casa em São Paulo várias vezes entre abril e setembro de 2020. Todas as viagens foram em vão. Sem acesso ao penhor, sem outras opções de crédito, ela fez o que muitos brasileiros fizeram: vendeu as joias de família. Um solitário de brilhante, um par de brincos de argola de ouro, um escapulário de ouro branco — tudo foi para o mercado informal. Ela conseguiu R$ 4 mil, R$ 500 a mais do que lojas especializadas ofereceriam, e R$ 1 mil acima do que ela calcula que teria conseguido na Caixa.
Mas o dinheiro não apaga a perda. "Quando você vende uma joia de família, que tem uma ligação emocional, é sinônimo de fracasso", disse ela ao Estadão. "Já no penhor, a situação é transitória e há a chance de se reaver o bem." Ela lembra de cenas que presenciou no passado, de outras pessoas e dela própria, recuperando bens penhorados — momentos de alívio e alegria que agora não são mais possíveis para quem precisa de crédito rápido durante a pandemia. O que era uma ponte temporária virou uma porta fechada, e muitos brasileiros tiveram de vender suas heranças para atravessar a crise.
Citas Notables
Quando você vende uma joia de família, que tem uma ligação emocional, é sinônimo de fracasso. Já no penhor, a situação é transitória e há a chance de se reaver o bem.— Publicitária desempregada que vendeu joias de família
Eu não queria vender, agora vendi, acabou— Publicitária desempregada
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o penhor era tão importante para essas pessoas?
Porque era a única porta aberta para quem não tinha acesso a outras formas de crédito. Se você está desempregado ou inadimplente, nenhum banco te empresta dinheiro. O penhor não perguntava nada disso — você tinha um bem, deixava como garantia, recebia o dinheiro na hora.
E a taxa de 1,99% — isso é realmente barato?
Extremamente. Para comparação, um empréstimo pessoal comum cobra 5%, 6%, às vezes muito mais. O penhor era praticamente a única opção de crédito barato para quem estava fora do sistema.
A Caixa disse que suspendeu, ou não?
Aí está o problema. A Caixa não confirmou oficialmente a suspensão. Disse que algumas agências estão oferecendo apenas renovações. Mas os números falam: caiu de 22,6 mil novos contratos em março para 13 mil em abril. Algo mudou.
E essa publicitária — ela conseguiu recuperar as joias depois?
Não. Uma vez que você vende, acabou. O penhor era diferente porque era temporário — você pegava o dinheiro, pagava depois, e recuperava o bem. Vender é definitivo. Ela perdeu não só as joias, mas a possibilidade de tê-las de volta.
Qual é a ironia histórica aqui?
A Caixa foi criada em 1861 especificamente para emprestar dinheiro aos pobres sob penhor. Era a razão de existir da instituição. Cento e sessenta anos depois, suspende exatamente o serviço que a originou, justamente quando as pessoas mais precisam.
Isso vai voltar?
Ninguém sabe. A Caixa não divulga informações sobre o saldo de operações ou quando pretende retomar. É uma incerteza que deixa milhares de brasileiros sem a rede de segurança que tinham.