Investidores denunciam fintech por suspeita de pirâmide financeira com prejuízos de até R$ 900 mi

Dezenas de investidores em múltiplos estados brasileiros sofreram perdas financeiras significativas, com estimativa de até R$ 900 milhões em prejuízos totais e 3 mil potenciais vítimas afetadas.
A teia de pessoas jurídicas e a promessa de rendimento fixo acima do habitual
Advogada das vítimas descreve os indícios de crime encontrados durante investigação do caso.

Duas vítimas investiram R$ 750 mil no Grupo ICA sob promessa de 2,25% a 2,75% mensais, mas uma não conseguiu resgatar e outra parou de receber rendimentos. Estrutura suspeita inclui 13 empresas na mesma sede, ausência de registro no Banco Central e CVM, e padrão de captação contínua de novos investidores para manter pagamentos anteriores.

  • Duas vítimas investiram R$ 750 mil no Grupo ICA com promessa de 2,25% a 2,75% mensais
  • Estrutura suspeita inclui 13 empresas na mesma sede em Itajaí, Santa Catarina
  • Potencialmente 3 mil investidores afetados em sete estados com prejuízos estimados em até R$ 900 milhões
  • Oito casos em Dourados somam R$ 3,6 milhões; 16 pessoas investiram R$ 1,4 milhões adicionais

Investidores de Dourados registraram boletim de ocorrência contra o Grupo ICA acusando-o de operar pirâmide financeira com promessas de rendimento fixo. Investigação preliminar aponta possibilidade de milhares de vítimas em outros estados com prejuízos estimados em até R$ 900 milhões.

Dois investidores de Dourados entraram na Delegacia de Polícia no início de junho com uma história que começou simples — dinheiro emprestado, promessas de retorno — e terminou em suspeita de crime organizado em escala nacional. Juntos, haviam colocado R$ 750 mil nas mãos do Grupo ICA, uma fintech que prometia rentabilidade fixa de 2,25% a 2,75% ao mês, com devolução integral após 12 meses. Um deles nunca conseguiu resgatar nada. O outro viu os pagamentos mensais secarem em abril.

O que começou como inadimplência comum transformou-se em investigação criminal quando a advogada das vítimas, Marília Bachi Comerlato Paschoalick, começou a montar o quebra-cabeça. Não era apenas um calote. Era uma estrutura. O Grupo ICA operava sem registro no Banco Central ou na Comissão de Valores Mobiliários. Prometia rendimentos fixos acima do que o mercado oferecia. Usava nomenclatura bancária. Oferecia bônus para quem trouxesse novos investidores. Retinha valores com justificativas genéricas. Cada peça se encaixava na próxima, formando o padrão clássico de uma pirâmide financeira.

A estrutura era sofisticada. Pelo menos 13 empresas funcionavam sob o mesmo endereço em Praia Brava, Itajaí, em Santa Catarina, com dez pessoas físicas como administradores que atuavam de forma integrada. Em Dourados, o grupo mantinha um escritório na região central e realizava jantares exclusivos em restaurantes de renome para atrair clientes. Tudo parecia legítimo. Nada era.

Mas o alcance era muito maior do que dois investidores em uma cidade do interior de Mato Grosso do Sul. Quando a polícia começou a investigar, encontrou dezenas de processos judiciais em sete estados diferentes — Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Pará, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Só no tribunal de justiça de Mato Grosso do Sul, havia oito casos em Dourados somando R$ 3,6 milhões, mais 16 pessoas que teriam investido R$ 1,4 milhões adicionais. Documentos anexados em dois desses processos apontavam para algo muito maior: potencialmente 3 mil investidores afetados, com prejuízos estimados em até R$ 900 milhões.

A denúncia também mencionava um processo administrativo aberto na CVM e um procedimento do Ministério Público da Bahia. O delegado Alex Junior da Silva confirmou que o caso estava em investigações preliminares, com oficios sendo enviados a bancos para dados cadastrais. As oitivas começariam nos dias seguintes. A polícia procurava identificar a extensão real dos prejuízos, o número verdadeiro de vítimas, para onde o dinheiro havia ido e se havia responsabilidade criminal.

O Grupo ICA, quando procurado pela reportagem, não respondeu. Dias antes, em comunicado anterior, havia dito que respeitava o direito dos investidores de recorrerem à justiça e que apresentaria documentação nos autos. Alegou estar em "processo de reorganização societária, operacional e regulatória" através de um fundo de investimento em direitos creditórios, e atribuiu os atrasos a essa transição. Disse que não havia descontinuidade das operações e que estava empenhada em normalizar os fluxos financeiros, com cronograma divulgado.

Mas para as vítimas, as palavras não importavam mais. O que importava era que a polícia agora tinha um boletim de ocorrência, documentos, padrões, e uma suspeita que atravessava sete estados. A investigação havia começado. O que viria a seguir — quantas vítimas reais, quanto dinheiro desaparecido, quem seria responsabilizado — ainda estava sendo escrito.

A teia de pessoas jurídicas, a falta de registro no Banco Central e CVM, e a promessa de rendimento fixo acima do habitual no mercado financeiro são indícios de crimes como estelionato na modalidade pirâmide financeira
— Marília Bachi Comerlato Paschoalick, advogada das vítimas
O caso está em investigações preliminares, com oficios sendo enviados a bancos por dados cadastrais. Ainda não iniciamos a instrução efetivamente com oitivas, mas devemos iniciar nos próximos dias
— Alex Junior da Silva, delegado de polícia
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que dois investidores em Dourados levaram isso à polícia agora, e não antes?

Model

Porque no começo parecia um simples atraso de pagamento. Só quando a advogada começou a montar o processo judicial é que viram a estrutura inteira — as 13 empresas, a falta de registro, o padrão de captação contínua. Aí perceberam que não era inadimplência, era crime.

Inventor

E como uma operação assim consegue funcionar por tanto tempo sem ser descoberta?

Model

Porque parecia legítima. Jantares em restaurantes bons, escritório na região central, promessas de retorno que soavam profissionais. As pessoas queriam acreditar. E enquanto havia dinheiro novo entrando, os antigos investidores recebiam seus rendimentos mensais. Tudo funcionava.

Inventor

Mas em algum momento o dinheiro novo tem que parar de entrar.

Model

Exatamente. E quando para, o sistema desaba. Um investidor não conseguiu resgatar nada. Outro parou de receber em abril. Aí começaram a procurar a justiça, e encontraram dezenas de outras pessoas na mesma situação em outros estados.

Inventor

Três mil vítimas potenciais é um número muito grande. Como ninguém viu isso vindo?

Model

Porque estavam espalhadas em sete estados diferentes. Cada um pensava que era um problema isolado, um atraso local. Ninguém tinha a visão do todo até a polícia começar a conectar os pontos.

Inventor

E agora? O dinheiro ainda existe em algum lugar?

Model

Essa é a pergunta que a polícia está tentando responder. Os documentos mencionam "sucessivas alterações societárias" e "movimentação de recursos entre diversas empresas". O dinheiro pode ter sido dispersado, movido entre contas, transformado em ativos. É por isso que pediram medidas cautelares — para tentar impedir que desapareça completamente enquanto investigam.

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