Detecta o vírus antes dele causar dano, reduzindo drasticamente a necessidade de intervenções
Novo teste molecular DNA-HPV substitui gradualmente o Papanicolau, oferecendo maior sensibilidade diagnóstica e permitindo intervalos de rastreamento de até cinco anos. Iniciativa beneficiará 7 milhões de mulheres de 25 a 64 anos por ano quando expandida nacionalmente até dezembro de 2026, com implementação em 12 estados brasileiros.
- Teste DNA-HPV implementado em 12 estados a partir de março de 2026
- Detecta 14 genótipos do papilomavírus humano
- Substitui gradualmente o Papanicolau, permitindo intervalos de até 5 anos entre exames
- Beneficiará 7 milhões de mulheres de 25 a 64 anos quando expandido nacionalmente até dezembro de 2026
- 17.010 casos novos de câncer de colo do útero estimados anualmente no Brasil
Ministério da Saúde iniciou implementação do teste de biologia molecular DNA-HPV no SUS em março, tecnologia 100% nacional que detecta 14 genótipos do HPV e permite rastreamento precoce do câncer de colo do útero em 5,6 milhões de mulheres.
Em março deste ano, o Ministério da Saúde começou a colocar em prática um novo método de diagnóstico que promete transformar a forma como o Brasil detecta o câncer de colo do útero. Trata-se de um teste de biologia molecular capaz de identificar o papilomavírus humano — o HPV — antes mesmo de lesões ou tumores aparecerem. A tecnologia é inteiramente desenvolvida no país, produzida pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná, vinculado à Fiocruz, e consegue detectar 14 genótipos diferentes do vírus.
O lançamento começou em 12 estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, Pernambuco, Minas Gerais, Pará, Rondônia, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná e Distrito Federal. Esses estados foram escolhidos porque já possuem infraestrutura de referência para colposcopia e biópsia, garantindo que mulheres com resultados alterados tenham acesso a todo o fluxo de cuidado necessário. Nos próximos cinco anos, esse rastreamento precoce deve alcançar aproximadamente 5,6 milhões de mulheres nessas regiões. A meta é ambiciosa: até dezembro de 2026, a tecnologia estará disponível em toda a rede pública do país, beneficiando 7 milhões de mulheres entre 25 e 64 anos anualmente.
O câncer de colo do útero é a terceira neoplasia mais frequente entre mulheres brasileiras. Estima-se que ocorram 17.010 novos casos por ano no triênio 2023-2025, o que representa aproximadamente 15 casos a cada 100 mil mulheres. O HPV é responsável pela maioria desses tumores, tornando o rastreamento precoce uma questão de saúde pública fundamental. O novo teste molecular substituirá gradualmente o exame de Papanicolau, que durante décadas foi o padrão de detecção. Quando o resultado do DNA-HPV for negativo, as mulheres poderão aguardar cinco anos para o próximo exame, em vez dos três anos exigidos pelo Papanicolau. Quando for positivo, o Papanicolau será usado apenas para confirmação.
As vantagens práticas são significativas. O novo teste reduz a necessidade de exames e intervenções desnecessárias. Quando uma amostra é inconclusiva no Papanicolau, é preciso fazer uma nova coleta; com o DNA-HPV, a mesma amostra serve para todos os testes necessários, acelerando o encaminhamento ao tratamento. O método oferece também maior sensibilidade diagnóstica e alcança mulheres em áreas remotas ou com menor oferta de serviços de saúde — um benefício importante em um país com dimensões continentais e desigualdades regionais profundas.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que a implementação aproveita a infraestrutura de testes de biologia molecular criada durante a pandemia de covid-19. Essa estrutura, que foi essencial para os testes de diagnóstico do coronavírus, agora será redirecionada para o HPV, reduzindo o tempo de espera e permitindo que o tratamento comece mais rapidamente. Padilha também ressaltou que países como Reino Unido, Espanha e Portugal levaram entre dois e três anos para implementar essa mesma tecnologia nacionalmente — o Brasil pretende fazer isso em menos tempo.
A implementação seguirá um modelo de rastreamento organizado. As equipes de Saúde da Família e os Agentes Comunitários de Saúde farão o levantamento das mulheres na faixa etária alvo que nunca fizeram exame ginecológico, que estão com o teste atrasado, ou que ainda não foram vacinadas contra o HPV. O público-alvo inclui mulheres cisgênero, homens transgênero, indivíduos não binários, de gênero fluido e intersexuais nascidos com sistema reprodutivo feminino, entre 25 e 64 anos. Para acessar o novo teste nas Unidades Básicas de Saúde, basta marcar uma consulta ginecológica regular.
As diretrizes que orientam essa transformação foram elaboradas pelo Instituto Nacional de Câncer com participação de 81 especialistas representando cinco secretarias do Ministério da Saúde, a Organização Pan-Americana da Saúde e outras 37 instituições de todas as regiões do país, incluindo universidades, hospitais, sociedades médicas e organizações da sociedade civil. Essa amplitude de participação reflete a importância do tema e o consenso em torno da mudança.
Para quem não quiser esperar pelo chamado das unidades básicas, a tecnologia já está disponível na rede privada Dr. Consulta, que tem duas unidades em Guarulhos — uma no Centro e outra no Internacional Shopping. O teste de genotipagem HPV custa R$ 248, ou R$ 173 com cartão de desconto, enquanto o Papanicolau tradicional sai por R$ 99 ou R$ 69 com cartão. A expansão dessa tecnologia no SUS representa um marco para a saúde da mulher brasileira, combinando inovação nacional com acesso equitativo.
Citações Notáveis
Com o Papanicolau, o exame precisa ser repetido a cada três anos. Com essa nova tecnologia, o intervalo passa a ser de cinco anos, eliminando a necessidade de nova coleta quando o resultado é inconclusivo.— Alexandre Padilha, ministro da Saúde
Países como Reino Unido, Espanha e Portugal levaram de dois a três anos para conseguir o mesmo. O Brasil será capaz de implementar nacionalmente essa tecnologia em tempo recorde.— Alexandre Padilha, ministro da Saúde
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o Brasil decidiu fazer essa mudança agora, depois de tantos anos usando o Papanicolau?
A tecnologia do DNA-HPV é simplesmente mais precisa. Detecta o vírus antes dele causar dano, o que significa menos mulheres desenvolvendo câncer. E a infraestrutura para fazer esses testes já existia — foi criada durante a pandemia. Seria desperdiçar um recurso que o país já tem.
Cinco anos entre exames em vez de três — isso não preocupa ninguém?
Na verdade, é mais seguro. O teste é tão sensível que se der negativo, você realmente está protegida por cinco anos. Com o Papanicolau, você precisava repetir porque a margem de erro era maior. Menos exames significa menos ansiedade, menos custo, menos tempo gasto em consultórios.
E as mulheres em cidades pequenas ou na zona rural?
Esse é o ponto. Elas não precisam mais ir a um centro de referência para fazer colposcopia toda vez que um resultado era inconclusivo. A amostra já serve para tudo. Se der positivo, aí sim ela vai para a biópsia. Mas a maioria das mulheres com resultado negativo nunca vai precisar sair de perto de casa.
Qual é o risco de expandir tão rápido, até dezembro de 2026?
O risco real é treinar os profissionais e garantir que os laboratórios consigam processar o volume. Mas o Brasil já fez isso com covid — processou milhões de testes. Os laboratórios existem, as pessoas sabem como fazer. É mais uma questão de logística e vontade política.
E se uma mulher tiver resultado positivo? O que acontece?
Ela faz o Papanicolau para confirmar. Se confirmar, vai para colposcopia e biópsia se necessário. Mas aqui está o ganho: você não está fazendo Papanicolau em todo mundo. Está fazendo em quem realmente precisa. Menos procedimentos desnecessários, menos trauma, menos custo.