Super tilápias da UEM reduzem cultivo para 60 dias e dominam 80% da produção nacional

Cada dia a menos é dinheiro economizado nas pisciculturas
Reduzir 60 dias no cultivo significa menos ração consumida e mais ciclos de produção ao longo do ano.

Há quase três décadas, pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá cultivam, geração após geração, uma forma silenciosa de abundância: tilápias geneticamente aprimoradas que hoje respondem por cerca de 80% da produção nacional da espécie. O que começou em 1997 como parceria científica tornou-se uma das mais duradouras contribuições da pesquisa pública brasileira à segurança alimentar — prova de que a paciência da ciência, acumulada em pequenos ganhos anuais, pode remodelar uma cadeia produtiva inteira.

  • Cada geração de tilápias selecionadas cresce entre 20% e 30% mais rápido, reduzindo em 60 dias o tempo de cultivo e aliviando diretamente o maior custo do produtor: a ração.
  • A chegada da linhagem GIFT da Malásia em 2005 foi o ponto de inflexão que acelerou o programa, e hoje a 16ª geração carrega décadas de refinamento genético acumulado.
  • Microchips implantados em cada peixe com cerca de cinco gramas rastreiam genealogias inteiras, impedindo cruzamentos consanguíneos e preservando a diversidade genética que sustenta os ganhos futuros.
  • Uma enchente em 2008 destruiu o plantel de uma das maiores produtoras de alevinos do país — e foi a genética da UEM que permitiu sua reconstrução, ilustrando a dependência real do setor em relação ao programa.
  • A genética desenvolvida em Maringá já cruzou fronteiras, chegando a Cuba e Uruguai, enquanto mais de 362 estudantes formados pelo PeixeGen disseminam esse conhecimento pelo Brasil e pelo exterior.

Desde 1997, o laboratório de água doce da Universidade Estadual de Maringá abriga o PeixeGen, núcleo de pesquisa que nasceu de uma parceria com a Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Paraná e se tornou o coração genético da tilapicultura brasileira. A genética que sai dali está presente em aproximadamente 80% de todas as tilápias criadas no país — um alcance construído geração a geração, com ganhos anuais modestos que, somados ao longo de décadas, transformaram a produção nacional.

O marco que acelerou tudo chegou em 2005, quando a universidade recebeu da Malásia a linhagem GIFT, considerada uma das mais relevantes do mundo para programas de melhoramento. Desde então, uma nova geração de peixes é desenvolvida a cada ano. Hoje o programa está na 16ª geração, e a comparação com os animais de 2005 revela uma redução de cerca de 60 dias no período de cultivo — economia concreta para produtores em um setor onde 80% dos custos vêm da alimentação dos peixes.

O método é rigoroso: milhares de tilápias são avaliadas individualmente a cada ciclo, e cada animal recebe um microchip ao atingir cerca de cinco gramas, permitindo o rastreamento completo de sua árvore genealógica. Esse controle evita cruzamentos entre parentes e preserva a variabilidade genética — o que os pesquisadores chamam de combustível do melhoramento. Embora o ganho por geração fique entre 2% e 3%, o efeito acumulado é profundo.

A dependência do setor em relação ao programa ficou evidente em 2008, quando uma enchente destruiu boa parte do plantel da Acqua Sul Piscicultura, em Santa Catarina. O coordenador do PeixeGen cedeu seis famílias genéticas para que a empresa reconstruísse seu estoque — e desde então ela investe financeiramente nas pesquisas da UEM. A genética desenvolvida em Maringá também ultrapassou fronteiras, chegando a Cuba e Uruguai por meio de parcerias institucionais.

Além da produção, o PeixeGen formou mais de 362 estudantes em três décadas, publicou mais de 250 artigos científicos e consolidou a UEM como referência nacional em melhoramento genético de peixes. Em 2027, o programa completa 30 anos — uma trajetória em que a ciência saiu dos laboratórios e chegou, literalmente, às pisciculturas de todo o Brasil.

Há quase três décadas, pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá trabalham em um laboratório de água doce que transformou a piscicultura brasileira. O PeixeGen — um núcleo de pesquisa dedicado ao melhoramento genético de peixes — começou em 1997 como uma parceria entre a UEM e a Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Paraná, utilizando a estação experimental de Floriano. Hoje, a genética que sai dali está em aproximadamente 80% de todas as tilápias criadas no país.

O impacto é mensurável e direto. Uma tilápia selecionada geneticamente cresce entre 20% e 30% mais rápido que um animal sem melhoramento, consome menos ração e chega ao abate em menos tempo. Comparando os peixes que iniciaram o programa em 2005 com os de hoje, os pesquisadores conseguiram reduzir o período de cultivo em cerca de 60 dias — uma mudança que reverbera em toda a cadeia produtiva, diminuindo custos e permitindo que os piscicultores façam mais ciclos de produção ao longo do ano. Considerando que aproximadamente 80% do custo de criar tilápia vem da alimentação dos peixes, essa eficiência representa economia real nas propriedades rurais.

O marco decisivo chegou em 2005, quando a universidade recebeu da Malásia a linhagem GIFT — Genetically Improved Farmed Tilapia —, considerada uma das mais importantes do mundo para programas de melhoramento. Desde então, uma nova geração de peixes é desenvolvida a cada ano, e o programa já alcançou a 16ª geração. Um estudo da Embrapa publicado em 2020, analisando dados de 2019, estimou que aproximadamente 80% das tilápias produzidas no Brasil pertenciam à linhagem GIFT pura ou cruzada, com algum grau de parentesco com os animais desenvolvidos pelo programa da UEM. Em 2025, o Brasil produziu 1.011.540 toneladas de peixes de cultivo, sendo 707.495 toneladas apenas de tilápias.

O trabalho segue princípios rigorosos de seleção. Todos os anos, milhares de tilápias passam por avaliações individuais — são pesadas, seu desempenho é analisado, e ferramentas estatísticas identificam aquelas com maior potencial genético. Quando atingem aproximadamente cinco gramas, cada peixe recebe um microchip que rastreia sua árvore genealógica, permitindo aos pesquisadores identificar pais, mães e descendentes. Esse controle evita cruzamentos entre animais aparentados e preserva a variabilidade genética — o que os pesquisadores chamam de combustível do melhoramento. Se selecionassem apenas peixes muito parecidos, ganhariam velocidade no início, mas a evolução pararia. Preservar diferentes famílias genéticas garante que os ganhos se mantenham ao longo das gerações.

Embora o ganho genético a cada geração fique entre 2% e 3%, o efeito acumulado ao longo de duas décadas transformou o desempenho. Evandro Schmitt, proprietário da Acqua Sul Piscicultura em Ilhota, Santa Catarina, uma das maiores produtoras de alevinos do país, conhece esse impacto de perto. Em 2008, uma enchente destruiu boa parte do material genético de sua empresa. Ricardo Pereira Ribeiro, idealizador e coordenador do PeixeGen, cedeu seis famílias para que Schmitt reconstruísse seu plantel. Desde então, a empresa catarinense utiliza a genética desenvolvida pelo programa e investe financeiramente nas pesquisas. Para Schmitt, a evolução da tilapicultura nacional está diretamente ligada ao trabalho da UEM — um programa com pesquisadores altamente qualificados que construiu conhecimento e exerceu liderança ao longo de décadas.

Depois de selecionados, os peixes permanecem no núcleo de melhoramento da UEM. A partir deles são produzidas matrizes distribuídas a empresas multiplicadoras e produtores de alevinos, responsáveis por levar essa genética às pisciculturas de diferentes regiões. Antes da distribuição, os animais recebem certificação genética e sanitária. A genética desenvolvida na universidade também ultrapassou as fronteiras brasileiras, chegando a Cuba e Uruguai por meio de parcerias com instituições de pesquisa e empresas do setor.

Além do impacto na produção, o PeixeGen tornou-se um centro de formação. Desde 1997, mais de 362 estudantes participaram das atividades do grupo nos programas de graduação, mestrado e doutorado. O programa já publicou mais de 250 artigos científicos. São esses estudantes que fazem o programa acontecer, participando de todas as etapas da pesquisa e tornando-se profissionais preparados para liderar programas de melhoramento genético em universidades, centros de pesquisa e empresas no Brasil e no exterior. Em 2027, o PeixeGen completará 30 anos de uma trajetória que transformou a UEM em uma das principais referências brasileiras em melhoramento genético de tilápias — uma história de ciência que saiu dos laboratórios e chegou às pisciculturas de todo o país.

O professor Ricardo praticamente é o pai da tilápia GIFT no Brasil. Perdemos nosso material genético na enchente e ele nos cedeu seis famílias para reconstruirmos o plantel.
— Evandro Schmitt, proprietário da Acqua Sul Piscicultura
Comparando os animais que iniciaram o projeto em 2005, hoje reduzimos cerca de 60 dias no período de cultivo, com maior ganho de peso e melhor rendimento de filé.
— Ricardo Pereira Ribeiro, coordenador do PeixeGen
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que reduzir 60 dias no cultivo importa tanto para um piscicultor?

Model

Porque esses 60 dias significam menos ração consumida, menos tempo de ocupação da piscina, e a chance de fazer mais ciclos de produção no mesmo ano. Quando 80% do seu custo é alimentação, cada dia a menos é dinheiro economizado.

Inventor

Como exatamente um microchip em um peixe de cinco gramas ajuda a melhorar a genética?

Model

O microchip rastreia a árvore genealógica — quem são os pais, os avós, os descendentes. Isso permite que os pesquisadores evitem cruzar peixes aparentados, mantendo a variabilidade genética. Se você só selecionasse os melhores, perderia diversidade e a evolução pararia.

Inventor

Ganho de 2% a 3% por geração parece pequeno. Como isso virou 80% da produção nacional?

Model

Porque é acumulativo. Ao longo de duas décadas, esses pequenos ganhos se multiplicam. E porque a linhagem GIFT que recebemos da Malásia em 2005 era já excelente — a partir dela, cada geração ficou um pouco melhor.

Inventor

Por que um empresário em Santa Catarina investe dinheiro em pesquisa de uma universidade no Paraná?

Model

Porque ele viu na prática o que a genética melhorada faz. Perdeu seu material genético em uma enchente, recebeu ajuda da UEM, e desde então usa peixes melhores. Investir na pesquisa é investir no próprio negócio.

Inventor

Essa genética saiu do Brasil?

Model

Sim. Chegou a Cuba e Uruguai através de parcerias. Mas o Brasil é o centro — aqui é onde a pesquisa acontece, onde as gerações são desenvolvidas, onde o conhecimento é gerado.

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