Há uma ironia silenciosa no coração da saúde pública: quanto mais eficaz se torna uma vacina, mais invisível fica a ameaça que ela contém — e com ela, a memória coletiva do sofrimento que um dia justificou sua criação. No Brasil, essa dinâmica se manifesta de forma concreta: o sarampo, erradicado por décadas de esforço, retornou entre 2018 e 2022, ceifando a certificação de eliminação conquistada em 2016. A hesitação vacinal não nasce apenas da ignorância, mas também do próprio êxito da ciência, amplificado por vozes políticas que preenchem o vazio deixado pelo esquecimento das doenças.
Sucesso de vacinas reduz percepção de risco e abre espaço para desinformação
Entre 2018 e 2022, mais de 39,8 mil casos de sarampo foram registrados no Brasil, com 21,7 mil em 2019; globalmente, o sarampo matava 2,6 milhões de pessoas anualmente antes da vacinação em massa.